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domingo, 4 de outubro de 2026

Fátima Bezerra mostra muito mais força do que revelavam as pesquisas



O resultado das urnas no Rio Grande do Norte produziu uma das principais surpresas da eleição de 2026. Está confirmado o segundo turno entre Cadu Xavier (PT) e Allyson Bezerra (União Brasil), em uma disputa que contrariou boa parte das pesquisas divulgadas pelos institutos locais e expôs a dificuldade de medir a força eleitoral do grupo liderado pela governadora Fátima Bezerra.


Durante a campanha, levantamentos de institutos potiguares chegaram a colocar Cadu em terceiro lugar, atrás de Allyson e Álvaro Dias. O resultado das urnas, porém, mostrou outro cenário. Cadu avançou ao segundo turno e deixou Álvaro Dias fora da disputa, enquanto Allyson confirmou a primeira colocação.


Entre os levantamentos divulgados antes da votação, as pesquisas nacionais da Quaest e da Atlas foram as que mais se aproximaram do resultado efetivamente produzido pelas urnas. A discrepância entre parte dos institutos locais e o resultado final merece ser analisada não apenas como uma questão estatística, mas também como um sinal de que havia uma força eleitoral do campo governista que não estava sendo adequadamente capturada.


E essa talvez seja a principal mensagem política deixada por esta eleição: Fátima Bezerra demonstrou ter muito mais força do que sugeriam os índices de rejeição e impopularidade apresentados durante a campanha.


A governadora chegou à reta final da eleição carregando uma avaliação negativa apontada reiteradamente por pesquisas locais. Seu governo enfrentava críticas e o desgaste natural de oito anos no poder. Ainda assim, o grupo político liderado por Fátima conseguiu levar seu candidato ao segundo turno.


Isso ganha ainda mais importância diante do contexto nacional. A esquerda sofreu uma noite eleitoral particularmente difícil em diversas disputas pelo país. No Rio Grande do Norte, entretanto, o grupo petista conseguiu sobreviver politicamente e manter-se na disputa pelo Governo do Estado.


Há ainda outro resultado que reforça a dimensão da força eleitoral de Fátima.


Impedida de disputar uma vaga ao Senado, depois que o vice-governador Walter Alves (MDB) não assumiu o governo para que ela pudesse renunciar ao cargo dentro do prazo eleitoral, Fátima precisou reorganizar sua estratégia. A alternativa que permitiria sua candidatura envolveria a saída da governadora e a realização de uma eleição indireta pela Assembleia Legislativa para a escolha do novo chefe do Executivo estadual.


Sem poder disputar pessoalmente o Senado, Fátima lançou Samanda Alves (PT), então vereadora de Natal, para a vaga. E conseguiu uma vitória politicamente relevante: Samanda derrotou Zenaide Maia, que buscava a reeleição para o Senado e tinha uma exposição estadual muito maior.


A vitória tem peso ainda maior porque Samanda não possuía, até então, o mesmo grau de conhecimento eleitoral de Zenaide. A candidatura foi, portanto, uma demonstração da capacidade de transferência de votos e de mobilização do grupo governista.


O resultado também expôs algumas contradições da política potiguar.


Em Caicó, por exemplo, o prefeito Judas Tadeu (PSDB) mudou de posição às vésperas da eleição e passou a apoiar Zenaide Maia, depois de anteriormente estar alinhado a Samanda Alves. Na disputa pelo Governo do Estado, Tadeu também apoiou Allyson Bezerra.


Mas o eleitorado caicoense não acompanhou integralmente a escolha do prefeito.


Nos votos válidos para governador em Caicó, Álvaro Dias foi o primeiro colocado, com 13.546 votos, equivalentes a 39,45%. Cadu Xavier ficou em segundo, com 11.266 votos, ou 32,81%. Allyson Bezerra terminou apenas em terceiro, com 9.463 votos, correspondentes a 27,56%.


O dado é especialmente significativo porque Allyson era justamente o candidato apoiado pelo prefeito. Mesmo com a máquina política municipal e o apoio declarado do chefe do Executivo, o candidato do União Brasil não conseguiu liderar a votação na cidade.


Cadu, por sua vez, obteve uma votação expressiva em Caicó. Ficou atrás apenas de Álvaro Dias, político nascido no município, e superou Allyson por uma diferença de quase 1,3 mil votos.


Não se trata, evidentemente, de atribuir a Fátima Bezerra todos os votos obtidos por Cadu ou Samanda. Eleições são fenômenos mais complexos. Há fatores locais, nacionais, partidários e pessoais envolvidos em cada disputa.


Mas seria igualmente equivocado ignorar o significado político dos resultados.


Fátima chegou à eleição cercada por diagnósticos de desgaste. Sai dela com seu candidato ao Governo do Estado no segundo turno e com sua candidata ao Senado eleita. O PT, que enfrentava uma conjuntura nacional adversa, preservou no Rio Grande do Norte uma posição de protagonismo que muitos levantamentos locais não anteciparam.


A eleição, portanto, não apenas definiu os dois candidatos que disputarão o segundo turno. Ela também produziu uma espécie de desmentido político às previsões que davam como praticamente consolidado o enfraquecimento do grupo de Fátima Bezerra.


A governadora não concorreu ao Senado. Não disputou a eleição para o governo. Mas, paradoxalmente, terminou a primeira etapa da eleição como uma das principais vencedoras políticas da noite.


O segundo turno ainda está aberto. Cadu terá pela frente uma tarefa difícil contra Allyson, que terminou a primeira etapa na liderança. Mas uma coisa já está demonstrada: o eleitorado potiguar revelou nas urnas uma fotografia diferente daquela que muitos institutos haviam apresentado durante a campanha.


E, nessa fotografia, Fátima Bezerra aparece muito mais forte do que parecia.

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