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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guerra de movimento e guerra de posição: os caminhos do segundo turno



por Victor Missiato*

 


O segundo turno das eleições presidenciais brasileiras não se resume à disputa entre dois candidatos, mas também revela diferentes estratégias de construção de poder político. A corrida entre Lula e Flávio Bolsonaro coloca em evidência duas formas de organizar apoios, mobilizar eleitores e disputar a hegemonia no espaço público. Nesse sentido, os conceitos de guerra de posição e guerra de movimento, desenvolvidos por Antonio Gramsci, oferecem uma chave de interpretação para compreender os caminhos escolhidos pelas duas campanhas.


O encerramento da primeira semana do segundo turno foi marcado por uma diferença significativa de estratégias. De um lado, Flávio Bolsonaro apostou na construção de uma posição política mais ampla, incorporando apoios de lideranças identificadas com a chamada terceira via. Ronaldo Caiado e Romeu Zema, além do escritor Augusto Cury, passaram a integrar o conjunto de apoios que procuram conferir maior amplitude à sua candidatura. Renan Santos, por sua vez, optou pela neutralidade, preservando uma posição própria diante da disputa.


Essa movimentação representa uma tentativa de consolidar alianças e ampliar a legitimidade política de Flávio para além do eleitorado que já se identifica diretamente com o bolsonarismo. Trata-se de uma estratégia que pode ser compreendida pela lógica da guerra de posição: acumular forças, estabelecer alianças e ocupar espaços políticos capazes de sustentar um projeto de poder para além do momento eleitoral.


Lula, por outro lado, procurou imprimir à campanha uma dinâmica de mobilização. As manifestações em cidades como São Paulo, Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte sinalizaram uma retomada da presença nas ruas de uma militância petista que, durante o primeiro turno, parecia menos ativa. A campanha buscou, assim, transformar a mobilização social em demonstração de força política, ocupando espaços públicos e reativando redes de engajamento.


Essa estratégia aproxima-se da ideia de guerra de movimento, na medida em que privilegia a ação direta, a mobilização e a tentativa de alterar rapidamente a correlação de forças. Entretanto, movimento e posição não são estratégias necessariamente excludentes. A questão central está na capacidade de converter a mobilização imediata em apoios duradouros e em mudanças efetivas no comportamento eleitoral.


É justamente esse o desafio de Lula para a segunda semana. A presença nas ruas precisa produzir resultados concretos nas pesquisas e alcançar eleitores que, no primeiro turno, optaram por Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Augusto Cury ou pelo voto em branco. Mais do que depender da redução das abstenções, o candidato petista precisa conquistar parcelas do eleitorado que escolheram outras alternativas. Uma transferência relativamente pequena de votos pode alterar o equilíbrio da disputa e aproximá-la de um cenário de empate técnico.


Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa realizar o movimento inverso: transformar os acordos estabelecidos nos bastidores em presença efetiva nas ruas. As alianças regionais e os apoios políticos precisam se materializar em palanques, atos públicos e mobilizações capazes de disputar com Lula a demonstração de força popular. Se a articulação política representa um avanço na construção de sua candidatura, o passo seguinte é demonstrar que essa rede também possui capacidade de mobilização social.


As duas campanhas, portanto, percorrem caminhos diferentes para alcançar o mesmo objetivo: consolidar uma vitória no segundo turno. As próximas pesquisas, previstas para o decorrer da semana, deverão oferecer indicações sobre a eficácia dessas estratégias, embora seus resultados não determinem, isoladamente, o desfecho eleitoral.


A disputa, contudo, ultrapassa a escolha do próximo presidente. O Congresso Nacional que se estabelecerá para 2027 será marcado pela força expressiva da direita e pela presença de uma esquerda que também busca ampliar sua capacidade de atuação. Quem vencer precisará transformar votos em sustentação política; quem perder terá de preservar alianças, mobilizar sua base e ocupar os espaços institucionais disponíveis.





Victor Missiato, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie, unidade Tamboré. Analista político e Dr. em História


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