Pesquisa comparou dois grupos de mães entre 2020 e 2023 e constatou que a doação não intensifica a natural perda de massa óssea que ocorre por causa da amamentação; resultados também reforçam importância dos cuidados com saúde das mulheres na gestação e lactação
A gravidez e a lactação são períodos em que o corpo da mulher passa por grandes transformações. Uma delas é o aumento da necessidade de cálcio. Primeiro, para atender às necessidades do organismo ao mesmo tempo em que ocorre a formação do esqueleto do feto em seu ventre. E, em seguida, para a produção do leite materno que vai nutrir o bebê nos primeiros meses – ou anos – de vida.
Caso não haja disponibilidade suficiente do mineral no corpo da mãe, o organismo irá obtê-lo do próprio esqueleto. Isso pode resultar em perda de massa óssea, em percentuais que variam de 3% a 10%, durante os primeiros quatro meses de amamentação. Porém, quando o aleitamento passa a ser complementado, o que acontece a partir da introdução alimentar do bebê após seis meses de aleitamento exclusivo, e ocorre a normalização dos níveis hormonais e o retorno da menstruação, a massa óssea da mãe volta a se recompor.
Diante dessa condição que pode impactar a saúde e a qualidade de vida futura das mulheres, uma vez que a fragilidade dos ossos pode levar a fraturas, a professora Tamara Beres Lederer Goldberg e duas orientandas de doutorado do Programa de Pós-graduação em Tocoginecologia, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, decidiram investigar se o volume de leite produzido é capaz de interferir na perda de massa óssea, comparando mulheres que amamentam apenas os próprios bebês com aquelas que também fazem doações a bancos de leite humano.
“Imaginávamos que produzir um volume maior de leite resultaria em uma maior perda de massa óssea”, explica a docente coordenadora do estudo. “Mas a resposta é não. O acometimento é o mesmo.” Os resultados foram publicados no Jornal de Pediatria.
Entre julho de 2020 e março de 2023, a pesquisa acompanhou 77 nutrizes, termo que identifica as mulheres cujos corpos estão produzindo leite. Destas, 38 alimentavam apenas o próprio bebê e 39 doavam o leite materno excedente ao longo do período. O primeiro grupo foi avaliado 15 dias e seis meses após o parto. O segundo, aos seis e aos 12 meses após o parto.
Para reduzir a influência de outros fatores sobre a massa óssea, foram selecionadas mulheres entre 18 e 38 anos, grávidas pela primeira vez, com gestação considerada de risco habitual e bebês nascidos a termo e com peso adequado para a idade gestacional. Mulheres com doenças que pudessem afetar o metabolismo ósseo ou com obesidade foram excluídas.
Todas foram avaliadas quanto ao índice de massa corporal (IMC) e submetidas a exames de densitometria para determinar a densidade mineral óssea da coluna lombar, do fêmur proximal total e do corpo inteiro. Também foram realizados exames de sangue para dosar cálcio, fósforo, vitamina D, estradiol, hormônio da paratireoide e marcadores de formação e reabsorção óssea. O volume de leite doado por cada uma também foi medido.
Decorridos seis meses de amamentação, foram comparados os resultados dos exames de massa óssea dos dois grupos. O resultado foi exatamente igual. “Não havia nada na literatura que investigasse os efeitos sobre a saúde e as condições ósseas das doadoras de leite materno”, explica a professora Tamara Goldberg. “Raciocinamos que o fato de esse grupo de mães, em um período de seis meses, ter doado grandes quantidades de leite além do que já seria destinado à amamentação do bebê deveria impactar a perda de massa óssea. Mas não é isso que ocorre”, afirma. “Constatar isso foi uma surpresa.”
Entre seis e 12 meses após o parto, quando elas já estavam praticando o aleitamento complementado, os valores de densidade mineral óssea da coluna lombar e do fêmur das doadoras de leite materno aumentaram 5% e 1,5%, respectivamente. Isso evidencia que o organismo já tinha iniciado um processo de regeneração. Já em relação ao IMC, não foram observadas alterações significativas.
“Os resultados (do estudo) mostram que há uma ‘agressão’, mas a perda de massa óssea é transitória. Doar leite materno não vai agravar a saúde óssea, não é um fator que afete o corpo mais do que a própria amamentação”, diz Tamara Goldberg.



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