A grande dificuldade de Lula para vencer a eleição de domingo será enfrentar o movimento popular que associa o PT à representação da elite política brasileira. Não se trata necessariamente de uma mobilização organizada, mas de um fenômeno de formação do convencimento coletivo. Muitos dos que votam contra o PT enxergam essa escolha como uma ação política positiva, sem necessariamente buscar as verdadeiras causas dos problemas nacionais. Como um partido que surgiu com um discurso antissistêmico passou a ser identificado como parte do establishment político?
Hoje, vi uma publicação muito criativa na internet que dizia que, se Suzane von Richthofen se candidatasse a algum cargo eletivo com o discurso de que matou os pais porque eles eram petistas, ela seria a pessoa mais votada do Brasil. A provocação é exagerada, mas ilustra a força do antipetismo, hoje o maior partido político do país. Esse sentimento permite que pessoas inescrupulosas construam personagens políticos baseados no ódio ao PT e manipulem o movimento de repulsa ao partido.
O PL se tornou um dos maiores partidos do Brasil explorando eleitoralmente o discurso contra o PT. Seus candidatos, em grande medida, não apresentam propostas capazes de mobilizar a sociedade em torno de um projeto de país, mas apostam na beligerância contra os petistas: “vamos varrer o PT do Brasil”, “vamos despetizar o Brasil” e outras palavras de ordem semelhantes. Ao mesmo tempo, políticos do partido envolvidos em denúncias e acusações de corrupção — algumas delas objeto de investigações e processos — apresentam o PT como se concentrasse toda a corrupção existente no país.
O movimento antipetista difundiu, assim, a percepção de que todos os problemas nacionais são responsabilidade do PT, como se o Brasil fosse um paraíso antes de o partido chegar ao poder. A história brasileira, porém, é marcada por analfabetismo, fome e uma das mais persistentes estruturas de desigualdade social do mundo. Esses problemas não nasceram com o PT, tampouco foram resolvidos integralmente durante os governos petistas.
Durante muito tempo, o Brasil permaneceu preso a uma estrutura social na qual a pobreza parecia um destino inevitável para milhões de pessoas. Lula ajudou a romper essa lógica, ampliando oportunidades e permitindo que parcelas da população historicamente excluídas tivessem acesso a bens, serviços e direitos antes distantes de sua realidade. Paradoxalmente, esse processo também produziu seus próprios coveiros políticos.
Ao melhorar as condições de vida de milhões de brasileiros sem conseguir consolidar um patamar elevado de renda e desenvolvimento para a maioria da população, os governos petistas contribuíram para transformar conquistas antes extraordinárias em expectativas consideradas normais pelas novas gerações. Quem cresceu com maior acesso ao consumo, à educação e às oportunidades tende a avaliar a política a partir de novas exigências. Quer mais, e tem razão em querer. O problema é que, com o crescimento econômico baixo, a renda avança lentamente e a frustração social encontra terreno fértil para discursos simplificadores.
O PT tornou-se um partido estigmatizado, alvo de discursos de ódio que ultrapassam a crítica política legítima. O risco de perseguição a seus filiados e apoiadores não pode ser descartado em cenários de ruptura democrática, nos quais adversários políticos passam a ser tratados como inimigos a serem eliminados da vida pública.
As multidões nem sempre refletem criticamente sobre as ideias que abraçam; muitas vezes, apenas acreditam e reproduzem convicções construídas por outros. Existe, além disso, uma atuação política organizada para alimentar a rejeição ao PT e apresentar a eliminação de um partido como solução para todos os problemas do país. Essa estratégia transforma o adversário em culpado universal e dispensa o debate sobre propostas, responsabilidades compartilhadas e alternativas concretas.
Com o inevitável encerramento da trajetória eleitoral de Lula, em razão da idade e dos limites naturais da vida política, o PT terá de se mobilizar em diferentes frentes da sociedade para formar novas lideranças, renovar seu discurso e reconstruir sua capacidade de convencimento. Não poderá depender indefinidamente da força eleitoral de uma única figura, por mais importante que ela seja para a história do partido.
O Brasil precisa de lideranças positivas, capazes de formular projetos, enfrentar problemas reais e mobilizar a sociedade em torno de objetivos comuns. Não precisa de antagonistas vazios, cuja única proposta consiste em destruir o adversário. Se o PT quiser sobreviver politicamente à era Lula, terá de demonstrar que ainda é capaz de representar o futuro, e não apenas defender o passado ou resistir ao ódio de seus opositores.



Nenhum comentário:
Postar um comentário