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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Pegando o eleitor pelas tripas



Marco Antonio Spinelli*

 

Já faz muito tempo que o nosso mundo digital nos confinou a eleições em que escolhemos o candidato menos repugnante para os cargos majoritários. Não votamos a favor de uma proposta ou de uma visão, votamos contra quem é mais impensável no cargo. Recebemos em nossos celulares promessas de um apocalipse pior e mais insuportável se o fulano ou o sicrano ganhar. Votamos, em maioria, no menos ruim, já que vinte e cinco por cento da população vota cegamente no candidato A, vinte e cinco por cento no B, e os outros cinquenta por cento vão atrás do discurso anti mais bem construído.

 

Nessa reta final, os candidatos fingem demência, demonizam o mundo pós apocalíptico da vitória do adversário e evitam qualquer frase ou deslize que lhe aumente a fatídica rejeição. Podemos concluir, mesmo sendo ruins de matemática, que o próximo mandatário já vai começar seu governo com metade da população odiando sua administração e mais vinte e cinco por cento com horror de ter votado nele. Há algo de errado com nossa Democracia Representativa. Mas diz o velho ditado que a Democracia é o pior sistema de governo, excetuando todos os outros, então ter uma Democracia manca é menos ruim do que ter uma Ditadura com pernas firmes.

 

A Neurociência tem enfatizado muito a conexão, o Eixo de comunicação Intestino-Cérebro. Chegam a chamar o Intestino de segundo Cérebro. Vou dar um exemplo para quem está com vontade de largar esse texto: se o pesquisador pegar as fezes de um ratinho obeso e transplantar para o Intestino de um ratinho magro, ele passa a comer mais e ganhar peso. Se a pesquisa vai na direção contrária, e as fezes do ratinho magro são transplantadas para o ratinho gordote, ele começa a perder peso, mesmo sem mudar muito a sua dieta. A conclusão meio óbvia é que os bilhões de cepas bacterianas do Intestino vão influenciar o nosso comportamento alimentar e nosso metabolismo de uma maneira que não imaginávamos algumas décadas atrás. Lembre-se disso quando for devorar a próxima caixa de chocolates ou tomar um engradado de cerveja: você pode estar alimentando as bactérias erradas, justamente aquelas que vão encher suas células adiposas de gordura. O seu Intestino, portanto, pode mandar no seu Cérebro e seu metabolismo.

 

 Posto isso, o caro leitor pode levantar uma questão simples: o que isso tem a ver com eleição? Muito mais do que você possa ter pensado.

 

Tem uma passagem que eu adoro numa série antiga da Netflix, “House of Cards”. Para quem não se lembra, a série acompanha a ascensão irresistível de um político maquiavélico, Frank Underwood, e sua esposa, mais maquiavélica ainda, Claire Underwood, ao poder nos Estados Unidos. Presidente e vice. Como ser governado por Bolsonaro e Michele. Ou por Lula e Janja. (Atenção: o jeito que seu intestino revirou com a hipóteses A ou B indica seu voto. Ou não voto.) Bom, voltando para Frank e Claire, eles estão na corrida pela reeleição, contra um adversário mais jovem e bonitão, estão claramente em desvantagem apesar de uma campanha intensa e dedicada a conquistar os votos dos eleitores, quando Claire fala para seu marido, no meio de um drink no final do dia, que está cansada de tentar ganhar o coração dos eleitores. Estava na hora de usar outra coisa. Frank pergunta: o caos? Ela responde: mais do que isso: o medo. Podemos manipular o medo. O simpático casal inicia uma campanha pela desestabilização da eleição, paralisando a votação com ameaças terroristas e desestabilizando o adversário, que começa a surtar.

 

Confesso que quando procurei essa cena, a minha lembrança falha, ou a minha recriação da cena e de seu significado, tinha gerado a seguinte frase na boca de Claire Underwood: “Estou cansada de tentar capturar o coração dos eleitores. Vamos pegá-los pelas Tripas”. Diz a IA que essa frase nunca saiu da boca da personagem. A IA poderia complementar: “a frase saiu da sua cabeça, Dr Spinelli”. Mas, como dizia meu avô, “si non é vero, é bene trovatto”, o que, em tradução livre, seria “se não é verdade, é bem inventado”. Por que? Porque o Cérebro do Intestino está mais ligado à sensação de preservação de território e defesa de seus recursos. Está vinculado à sensação de medo de morrer ou de passar fome. Isso explica o desespero de pensar num mundo onde o adversário possa ser o próximo governante.

 

Uma sensação muito primitiva e intestinal que habita nossas redes neurais é a sensação de nojo, de asco. Infelizmente, nosso mundo digital nos dirige a escolhas feitas por nossos intestinos. A partir do asco. Estamos muito longe de ouvir outro cérebro, mais desenvolvido, mas soterrado nas redes do medo: nosso Cérebro do Coração, que é mais potente e mais evoluído. Infelizmente, muito sujeito à hierarquia do Medo. Claire Uderwood tinha, afinal, razão: vence quem produz mais o caos e maneja melhor o medo.

 

A questão que me salta aos olhos é: aonde isso vai nos levar?

 

 

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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