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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Quando a melhor jogada é mudar o jogo

Guilherme Augusto
Rodrigo Leal


*Guilherme Pianezzer


Na noite em que ocorreria o último debate presidencial da Globo antes do primeiro turno, Lula optou por não participar e concedeu entrevista ao Flow Podcast. Depois, Flávio Bolsonaro também desistiu e a emissora cancelou o encontro. O ponto mais interessante está na ordem dos fatos: quando Lula decidiu ir ao Flow, ainda não sabia que o debate seria cancelado. É aí que entra a teoria dos jogos. Ela não estuda apenas quem “ganha” ou “perde”, mas como jogadores tomam decisões quando o resultado depende também das escolhas dos outros. Cada ação possui um payoff — ganhos, perdas e riscos — e precisa ser avaliada antes de conhecermos o desfecho.


Podemos representar a decisão por uma árvore de ações. No primeiro nó, havia duas escolhas: participar do debate ou não participar. Se participasse, novos ramos se abririam: poderia ter bom desempenho; poderia sair praticamente no mesmo lugar; ou poderia cometer erros, sofrer ataques e produzir um episódio negativo de grande repercussão. Em um debate com vários adversários, cada candidato tem incentivo para confrontar quem concentra maior atenção. Não é necessária uma coalizão formal para que vários jogadores acabem mirando o mesmo participante.


No outro ramo, Lula não participaria. Essa escolha também envolvia riscos. O debate poderia ocorrer normalmente, dando aos adversários horas de exposição para criticá-lo sem resposta direta. Sua ausência também poderia ser interpretada negativamente. Mas havia outra possibilidade: substituir aquele ambiente por uma arena diferente de comunicação. Foi o que ocorreu com o Flow.


A árvore simplificada seria:


Lula


→ Vai ao debate

 → bom desempenho

 → efeito neutro

 → erro ou ataque de alto impacto


→ Vai ao Flow


 → debate ocorre e adversários exploram a ausência

 → debate perde relevância

 → debate é cancelado


O último ramo acabou acontecendo. Mas seria um erro concluir que a decisão foi boa apenas porque conhecemos o resultado. Em teoria da decisão, precisamos separar a análise ex antes, feita com as informações disponíveis no momento da escolha, da análise ex post, feita depois de sabermos o que ocorreu. Há ainda o conceito de opção externa. Um jogador ganha liberdade quando pode abandonar uma arena sem desaparecer do jogo. Lula não escolheu entre “debate” e “silêncio”; escolheu entre dois ambientes de exposição. No debate, enfrentaria múltiplos jogadores, regras rígidas de tempo e confronto imediato. No podcast, teria uma interação bilateral, mais longa e com maior controle sobre o desenvolvimento das respostas.


Isso não torna a escolha automaticamente superior. Se o debate tivesse ocorrido normalmente e produzido forte repercussão contra sua ausência, o mesmo movimento poderia ter custo político elevado. O risco estava justamente aí. A lição é mais geral que o episódio eleitoral: decisões estratégicas não devem ser avaliadas apenas pelo resultado final. É preciso perguntar quais alternativas existiam, quais consequências eram previsíveis e quais dependiam das ações dos outros jogadores. Às vezes, a jogada decisiva não acontece dentro do tabuleiro. Ela consiste em perceber que existe outro tabuleiro.




*Guilherme Augusto Pianezzer é professor de Teoria dos Jogos, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de ciências econômicas na mesma instituição.

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