Especialistas em cibersegurança e direito digital analisam o maior ataque da história das criptomoedas e o que ele ensina a empresas, conselhos e investidores no Brasil
Foram cerca de 20 minutos. Na tarde de quinta-feira (29), por volta das 17h no horário de Brasília, hackers desviaram aproximadamente US$6,3 bilhões (algo como R$34 bilhões) da Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo em volume de negociação. É o maior roubo já registrado no setor, mais de quatro vezes o ataque de US$1,5 bilhão sofrido pela Bybit em fevereiro de 2025. Sozinho, o episódio supera os US$2,9 bilhões levados em quase 150 ataques contra empresas cripto ao longo de todo o ano passado, segundo levantamento da TRM Labs.
As primeiras apurações apontam para o computador de um engenheiro de DevOps da corretora como possível porta de entrada, embora a própria Binance já admita ter identificado outras falhas que podem ter sido exploradas. A TRM Labs, empresa americana de rastreamento em blockchain, aponta possível comprometimento do mecanismo que autoriza as transferências de ativos e vê semelhanças com ações atribuídas ao TraderTraitor, grupo ligado à Coreia do Norte. A corretora ainda não confirmou oficialmente a autoria, e o governo norte-coreano costuma negar acusações desse tipo.
Para Daniel Peres, executivo de cibersegurança com mais de 17 anos de experiência em proteção de ambientes críticos, a leitura de que “a Binance foi invadida” esconde o ponto principal. “O que aparece até agora não é alguém derrubando muralha. É o comprometimento da máquina de uma pessoa com acesso privilegiado e, a partir dela, a chegada ao processo que aprova transferências. Esses grupos trabalham assim há anos: não arrombam a porta da frente, entram pela estação de trabalho de quem tem a chave”. Ele lembra que o perfil de DevOps não é exclusivo de corretoras. “Existe em banco, em hospital, em distribuidora de energia. A pergunta que todo conselho deveria fazer amanhã cedo é simples: se o notebook dessa pessoa cair, o que ela consegue movimentar sozinha?”
A velocidade do ataque também preocupa o especialista. “Vinte minutos bastam para esvaziar carteiras e não bastam para a maioria dos SOCs perceber que há algo errado. Se a resposta depende de um analista olhar um alerta, o dinheiro já está pulverizado em dezenas de endereços. Movimentação desse tamanho pede trava automática, limite por janela de tempo e aprovação de mais de uma pessoa, em dispositivos separados. É Zero Trust aplicado de verdade, e não só no slide da apresentação”.
Parte do prejuízo já foi contida. A Binance informou que cerca de US$3 bilhões foram localizados, com ajuda de outras empresas do mercado: a Tether congelou quase US$1,57 bilhão em stablecoins, a Circle bloqueou mais de US$800 milhões e a Ripple, cerca de US$200 milhões. O problema está no restante. Segundo a TRM Labs, aproximadamente US$2,4 bilhões em Bitcoin e Ether podem estar fora do alcance imediato de bloqueios, já que essas moedas não têm um emissor central capaz de congelar transações. A corretora suspendeu os saques, com previsão de retomada em até 45 horas, garantiu que os depósitos não foram afetados e prometeu cobrir as perdas com o SAFU, seu fundo de emergência de cerca de US$1 bilhão em Bitcoin, e com recursos próprios.
É justamente nessa conta que Lucas Paglia, advogado especializado em direito digital e presidente da Rede Governança Brasil (RGB), enxerga a mudança de patamar do tema. “O fundo de emergência cobre algo como um sexto do rombo. O resto sai do caixa da empresa. Quando um incidente cibernético tem esse tamanho, ele deixa de ser assunto de TI e passa a ser risco de solvência. Precisa estar na pauta do conselho com a mesma frequência que liquidez e crédito, e não apenas no relatório anual de riscos”.
Paglia chama a atenção para o cenário brasileiro, em que as prestadoras de serviços de ativos virtuais passaram a operar sob autorização e supervisão do Banco Central. “Um caso desses aqui não seria tratado só como falha técnica. A primeira pergunta do regulador seria sobre governança: segregação de funções, controle de acessos privilegiados, gestão de terceiros, plano de resposta e a forma como o cliente foi informado. Se houver dados pessoais envolvidos, a LGPD também entra na conversa”. Para o investidor, o recado é menos confortável. “A promessa de ressarcimento é bem-vinda, mas é uma decisão empresarial, não uma garantia legal. Criptoativo parado em corretora não tem FGC por trás. Quem deixa saldo ali está, na prática, confiando na governança de outra empresa”.
O mercado reagiu na sexta-feira (30). O Bitcoin caiu mais de 3% e chegou a US$77.356, menor valor em seis semanas, enquanto o BNB, token ligado à própria Binance, recuou 5% em 24 horas. Nos Estados Unidos, as ações da Coinbase perderam 4,8%, mesmo com a empresa afirmando não ter sido afetada. A investigação conta com o FBI e o Serviço Secreto americano.
Para Peres, o episódio deve ser lido além do universo cripto. “A tecnologia de blockchain fez o seu papel, tanto que dá para acompanhar o dinheiro em tempo real. O que falhou foi o processo humano em volta dela. E esse processo é igual em qualquer empresa que tenha alguém com poder de mover muito valor a partir de um único computador”.



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