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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Setembro Amarelo: eles são os mais conectados e os mais solitários

O que a ciência mais recente diz sobre redes sociais e saúde mental de jovens adultos?

Reprodução/ Freepik


por Érika Almeida*


São duas da manhã e o celular ainda está na mão. A rolagem não busca mais nenhuma informação específica: é automática, quase um tique. No feed, as vidas aparecem editadas, os corpos filtrados, as conquistas anunciadas. Quem rola a tela sente, sem saber nomear direito, uma mistura de inquietação e vazio, famosa entre eles: o FOMO (fear of missing out). Esse gesto, tão comum entre jovens adultos, é hoje objeto de uma das discussões mais importantes da psicologia contemporânea e ganha urgência particular em setembro, mês em que o Brasil volta a falar sobre prevenção ao suicídio.


Segundo o levantamento mais recente da Organização Mundial da Saúde (dados de 2021, publicados em maio de 2025), o suicídio é a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo, a segunda entre mulheres e a terceira entre homens dessa faixa. No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que, entre jovens de 20 a 29 anos, o suicídio já é a quarta principal causa de morte. Só no primeiro semestre de 2025, o Centro de Valorização da Vida (CVV) recebeu mais de 940 mil ligações, uma média superior a 5 mil contatos por dia.


Esse cenário é o pano de fundo diante do qual a ciência tem se debruçado sobre uma pergunta específica: o que o uso das redes sociais tem a ver com o sofrimento emocional dessa geração?


Por muito tempo, a discussão pública se concentrou no número de horas na tela: quanto mais, pior. Porém, um estudo publicado em junho de 2025 na revista JAMA ajuda a refinar essa ideia. A pesquisa acompanhou cerca de 4.300 crianças norte-americanas dos 9 aos 10 anos até o início da adolescência e chegou a uma conclusão que merece atenção. O tempo total de tela, isoladamente, não configurou piora emocional, e o que prejudicou de fato foi o padrão de uso: a dificuldade de parar diante de conteúdo que estimula muita dopamina, o mal-estar ao ficar sem o celular ou o uso como fuga de outros desconfortos da realidade dessa criança ou adolescente. Neste acompanhamento, os adolescentes que desenvolveram esse padrão apresentaram risco de duas a três vezes maior de comportamento suicida, em comparação aos que faziam uso mais regulado.


Mas, aqui vai uma ressalva: esse estudo acompanhou crianças até o início da adolescência, não jovens adultos de 18 a 30 anos, a faixa etária que mais preocupa quando falamos em mercado de trabalho, autonomia e consolidação de identidade. O que se sabe é que as redes sociais não causam ansiedade ou depressão de forma isolada e generalizada: o que costuma desencadear ansiedade ou depressão dentro do contexto das redes sociais é o momento em que o uso deixa de ser escolha e passa a ser compulsão.


Quando o uso passa a ter um viés de fuga, alguns dos sintomas mais comuns podem ser a desregulação emocional, o prejuízo do sono e o paradoxo da desconexão social, mesmo quando se está o tempo todo "conectado". Esse último é o que chama a atenção na prática clínica: jovens adultos tecnicamente cercados de contatos, grupos e seguidores, relatando uma solidão que parece não fazer sentido no papel. Curtidas e comentários simulam reconhecimento social, mas não substituem a experiência de ser visto por alguém, na frente de alguém, sem edição possível. Quando o tempo que seria dedicado a esse tipo de encontro é gradualmente ocupado pela tela, o vínculo presencial se atrofia, e é justamente a ausência dele que a literatura mais recente aponta como fator de risco.


Há também uma leitura possível a partir da psicologia, que ofereço aqui como reflexão clínica. O perfil nas redes sociais funciona como uma persona, a máscara social que construímos para sermos aceitos em determinado contexto. O problema não é ter uma persona, aliás, todos temos, e isso é importante: ela cumpre uma função social legítima. O problema é quando a pessoa passa a viver para essa persona e perde de vista quem está por trás da máscara. É esse afastamento de si (e não o uso da tecnologia em si) que parece alimentar o ciclo de insuficiência crônica que tantos jovens adultos descrevem em consultório.


Essas mesmas pesquisas não recomendam abandonar a tecnologia, mas encontrar caminhos mais equilibrados. A chamada higiene digital, como limites claros de uso, períodos programados de desconexão negociados pelo próprio usuário, aparece como uma possível estratégia. Mas o fortalecimento de vínculos presenciais é citado repetidamente como fator de proteção, e o acompanhamento psicológico ajuda a reconstruir uma noção de valor pessoal que não dependa de métricas de engajamento.


Não é coincidência que o tema da campanha Setembro Amarelo em 2026 foi "Escutar é estar presente". Um caminho para a solução de uma geração solitária, porém hiperconectada, é ter pessoas em volta que de fato prestem atenção no que está sendo dito, numa troca genuína. Lembrando que, antes de ser uma campanha de setembro, essa é uma prática que cabe em qualquer mês do ano.


Se você ou alguém próximo está passando por um momento de sofrimento emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e 24 horas por dia, pelo telefone 188, pelo chat em cvv.org.br ou presencialmente em postos espalhados pelo Brasil, além da busca por acompanhamento psicológico especializado.

 



Erika Almeida é psicóloga, neuropsicóloga e palestrante, com ampla experiência em saúde mental, atendimento clínico online para adultos e promoção do bem-estar em ambientes corporativos. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Anhembi Morumbi, pós-graduação em Neuropsicologia pelo Instituto Neurológico de São Paulo, e tecnólogo em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Bandeirante de São Paulo. Com especializações em oratória, inteligência emocional e cannabis medicinal, atua em palestras que abordam saúde mental, estresse, síndrome de burnout e inclusão, com o objetivo de promover ambientes mais saudáveis e inclusivos.

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