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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Um SUS forte para proteger a vida e enfrentar as próximas pandemias

“O SUS não pode nos faltar ou ser dilapidado por políticas erráticas que busquem fortalecer o setor privado da saúde em detrimento do público”, alerta Samuel Goldenberg, pesquisador emérito da Fiocruz e diretor da SBPC

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


Ainda vive em nossas memórias a recente pandemia de Covid-19, que dizimou e deixou sequelas em centenas de milhares de pessoas no planeta. Apenas no Brasil, o número de mortes por causa direta superou os 700 mil, colocando o país entre os líderes mundiais em mortes por habitante em comparação com os níveis de outras nações. A compra das vacinas, oferecidas precocemente pelos produtores mundiais, foi decidida tardiamente pelo governo somente após grande pressão da sociedade. A estrutura dos hospitais não comportou o número de enfermos, faltaram recursos humanos médicos para atender à demanda, faltou oxigênio nos hospitais e postos de atendimento, e políticas de saúde sem base na ciência foram preconizadas pelo governo à época. O enfraquecimento da estrutura e das políticas do SUS, coordenado por um governo negacionista, levou ao quadro estarrecedor que vivemos.


A pergunta a ser feita não é se haverá outra pandemia, mas quando ela virá. A deterioração da saúde planetária com o aquecimento global e a destruição de biomas levam a desequilíbrios no mundo animal — com a domiciliação de vetores e animais silvestres, antes restritos aos ecossistemas agora degradados —, alterações no ciclo migratório das aves e o consequente aumento do risco de contato de humanos com patógenos contra os quais não temos um sistema imune estabelecido. Adicionalmente, o deslocamento populacional por movimentos migratórios provocados por guerras ou pela busca de melhores condições de vida, juntamente com a facilidade de deslocamentos globais em viagens de longo alcance, leva à grande circulação de agentes infecciosos.


Neste sentido, fazem-se essenciais os sistemas de vigilância e competência instalada para o enfrentamento de panoramas epidemiológicos adversos. A partir do momento em que um patógeno emergente ou reemergente se estabelece numa população, precisamos de uma cadeia de respostas rápidas em termos de diagnóstico, proteção, profilaxia e informação qualificada para a população. Isso só é possível se a sociedade for dotada de uma estrutura de informação, pesquisa e produção nacional para que as soluções tecnológicas sejam trazidas à população de forma autônoma e em tempo oportuno.


No Brasil, temos uma entidade que abarca os problemas e as soluções das questões discutidas acima: o SUS. Quando falta o SUS, a saúde da população é imediatamente afetada. O SUS é o maior programa de atendimento de saúde universal do planeta. As suas atividades têm a saúde da população como objetivo, permitindo que, independentemente da renda, os benefícios possam ser levados gratuitamente a todos. O SUS compreende uma grande rede de hospitais públicos e universitários, além de uma estrutura de unidades de atendimento que permitem o pronto-atendimento da população.


Mas o cuidado médico não basta: o programa Farmácia Popular, também uma atividade do SUS, permite que a população de menor renda tenha acesso gratuito a medicamentos e insumos. Alguns destes medicamentos são produzidos por laboratórios públicos e outros, de maior complexidade, são adquiridos junto aos fabricantes. O SUS permite que a população seja atendida por médicos qualificados, e o programa Mais Médicos faz com que populações fora dos grandes centros recebam os cuidados necessários. É o SUS que leva a saúde às nossas populações originárias, além de também abarcar um grande problema atual da nossa sociedade, que é a saúde mental.


É importante mencionar que o Brasil ocupa a 2ª posição mundial em número absoluto de transplantes de órgãos e abriga o maior sistema público de transplantes do planeta, gerido via SUS. A maior instituição pública da América Latina em pesquisa e produção de insumos para a saúde, a Fiocruz, tem como missão exercer as suas atividades em função do fortalecimento do SUS, além do Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS), também voltado para suprir o sistema com insumos para a saúde.


O SUS não pode nos faltar ou ser dilapidado por políticas erráticas que busquem fortalecer o setor privado da saúde em detrimento do público. O SUS tem problemas? Tem, mas é através do nosso apoio a políticas públicas de saúde e da escolha de nossos representantes nas esferas governamentais que poderemos fortalecê-lo.


VIVA O SUS!


Samuel Goldenberg é pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz e diretor da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

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