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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A bet saiu do ar: o carrinho encheu

Divulgação | Magnific


Por Tony Diniz*


Seu Valdemar tinha um ritual. Toda noite, depois da novela, abria o celular para dar só uma olhadinha no jogo. A olhadinha custava trinta reais, às vezes cinquenta. Nunca mais que isso, ele jurava. Dona Cida, a mulher dele, nunca soube o valor. Sabia apenas que o fim do mês chegava cada vez mais cedo.


No dia 6 de outubro, os sites de apostas saíram do ar no Brasil. Seu Valdemar abriu o celular depois da novela e não tinha mais onde olhar. Ficou um tempo com o aparelho na mão, feito quem procura os óculos que estão na própria testa. No sábado, foi ao supermercado com dona Cida. Voltou com arroz, óleo, macarrão e café. Coisa de quem resolveu que o mês ia durar trinta dias de novo.


Seu Valdemar não existe. Os números que vieram depois existem.         


Segundo a Associação Brasileira de Supermercados, a venda de alimentos subiu 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro, na comparação com a mesma semana de 2025. Na semana seguinte, subiu 6,3%. No Sul e na região que junta Minas, Espírito Santo e interior do Rio, a alta chegou a 10,6%. A entidade diz que procurou outra explicação e não encontrou. Para o vice-presidente da associação, a única coisa diferente no período foi a proibição das bets.


Número é coisa boa, mas aceita qualquer roupa que a gente quiser vestir nele. Então convém olhar com calma. Duas semanas é pouco tempo. O reajuste do Bolsa Família começou a cair na conta em 19 de outubro. Quem divulgou o número é quem vende o arroz. E os sites ilegais se multiplicaram aos milhares logo depois da proibição. Nada disso prova que o dinheiro saiu da roleta e foi para o carrinho. Também não prova o contrário.


Seu Valdemar não apostava por burrice. Ninguém faz besteira com dinheiro sem um bom motivo, pelo menos dentro da própria cabeça. Ele apostava porque o celular prometia, em segundos, o que o salário levou a vida inteira para não entregar. Esperança vendida em parcelas de trinta reais. Para quem tem pouco, esse é o produto mais caro e o mais fácil de comprar.


Passei mais de trinta anos vendendo, em mais de trinta países. Aprendi cedo uma coisa que nenhum manual de vendas coloca na primeira página: o concorrente de quem vende nunca é só a loja do lado. É tudo aquilo que disputa o mesmo real no bolso do cliente. Durante alguns anos, o dono da padaria, o sapateiro e o supermercado da esquina disputaram esse real com um aplicativo que nunca fechava, não tinha fila e prometia milagre todo dia.


A lei tirou o aplicativo da frente. Mas tirar a tentação não ensina ninguém a fazer conta. A lógica que levava o Seu Valdemar ao jogo continua lá, e ela sempre procura outra porta: o site clandestino, o cartão de crédito, o próximo milagre parcelado. O dinheiro não some. Ele muda de endereço. A pergunta que vale a pena fazer é quem está ensinando o caminho.


Se o Seu Valdemar existisse, talvez continuasse voltando do mercado com café por mais alguns meses. Talvez achasse outro site. Quem decide isso não é a medida provisória, nem o saldo da conta. É ele, na hora de escolher para onde vai o primeiro real do mês.


Durante anos, a conta do Seu Valdemar andou de trás para frente: primeiro a esperança de trinta reais, depois os boletos, e por último o mercado, com o que sobrasse. A ordem que funciona é a inversa. Primeiro o essencial. Depois os compromissos. Só no fim, se sobrar, o sonho.


O problema nunca foi o dinheiro. Foi a sequência.





*Tony Diniz é empreendedor, mentor, treinador de vendas e autor do livro Pobreza é opção? (LC Books Editora)

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