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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O Cuidador de Cachorro



Empresa paga R$ 100 por hora para pessoas passearem com cães-robôs nos EUA

UOL, 29 de outubro de 2026



Justamente quando desfrutava de maior prestígio dentro da empresa, amanheceu desempregado. A firma havia falido, esmagada pelos juros altos e pela concorrência chinesa. E agora, o que faria da vida? Não estava fácil conseguir outro emprego, sobretudo quando já se havia ultrapassado a barreira dos cinquenta anos. Receberia o seguro-desemprego por algum tempo, mas e depois? Como continuaria pagando o financiamento da casa que tanto sonhara em conquistar e as prestações do carro novo?


Foi quando viu no jornal o anúncio de uma empresa que estava contratando pessoas para passear com cachorros. Sim, cachorros! Mas não era um cachorro normal, porque, se fosse um rottweiler, não teria coragem de sair para passear. Ora, podia o cachorro atacar alguém, e a culpa seria dele. Até imaginou o animal rompendo a focinheira e atacando uma criança. Viu o pequeno corpo no chão, ensanguentado, e quase teve uma taquicardia. Mas era um cão-robô. Sim, caro leitor, seria agora cuidador de cão-robô.


Bastaria sair pelas ruas conduzindo aquele animal que não era animal, equipado com comandos eletrônicos, câmeras de alta precisão e alimentado por bateria. Ora, que tipo de acidente poderia acontecer ao conduzir uma máquina dessas? E ainda receber cem reais por hora de passeio! Parecia um negócio da China, justamente o país cuja concorrência havia levado seu antigo emprego à bancarrota.


Sairia por aí, experimentando a cidade. Lembrou-se da canção de Belchior: "O amor, o humor nas praças, cheias de pessoas". Depois de tantos anos trancafiado num escritório, de cara para telas brilhantes, finalmente voltaria a viver. Poderia caminhar pelas praças, alimentar os pássaros, observar as pessoas e conduzir seu cachorro mecânico. Quem sabe até recuperasse um pouco da juventude perdida entre planilhas, reuniões e relatórios.


Compareceu à empresa e foi prontamente contratado.


— Quando poderia começar?


— Amanhã mesmo.


Comprou roupas de ginástica, tênis, bermuda e óculos escuros. Estava decidido a levar a nova profissão a sério. No dia seguinte, recebeu seu novo melhor amigo e saiu pelas ruas. Sua jornada seria de seis horas de passeio. Nada mal para quem, até pouco tempo, passava o dia sentado diante de um computador.


Nas primeiras horas, nenhuma intercorrência. Visitou três praças, deu milho aos pombos e passou até por uma exposição de arte. Sentia-se quase um turista na própria cidade. Depois começou a chover. Procurou abrigo, mas o cão de lata — não um vira-lata — resolveu simplesmente parar de andar. Temendo que a água pudesse comprometer os sistemas eletrônicos do animal, tentou protegê-lo.


— Ah, mas não é um gato-robô! Se fosse, certamente não estaria na chuva.


Mal sabia que os gatos seriam o menor de seus problemas.


Exatamente quando pensou nos felinos, aconteceu o pior. Sem qualquer aviso, o cão-robô entrou em modo de ataque e disparou atrás de um gato laranjinha que atravessava a calçada. O cuidador tentou controlar a situação, mas a máquina parecia ter desenvolvido uma personalidade própria. Ou, quem sabe, apenas cumpria rigorosamente algum comando de fábrica.


Os dois saíram em desabalada carreira. O gato, naturalmente, não estava disposto a negociar. O cão, por sua vez, não conhecia limites. Até que, numa esquina, um carro em alta velocidade atingiu o animal mecânico. O cachorro explodiu em pedaços de lata, espalhando componentes eletrônicos pelo asfalto. O motorista freou bruscamente, outros veículos se chocaram e um medonho engavetamento se formou.


O gato desapareceu. Provavelmente, foi o único a sair ileso daquela história.


Demitido pela primeira vez na vida, nosso homem não sabia se lamentava o emprego perdido, o prejuízo causado ou a própria ingenuidade. Depois de tantos anos de experiência profissional, descobrira que nem mesmo os cachorros estavam livres da automação.


Agora, só aceitaria cuidar de animais-robôs se fossem criados em cativeiro. E, de preferência, sem instinto de caça.


Afinal, desempregado já estava. Não precisava também responder por homicídio culposo de um gato.


Luiz Rodrigues (@luiz.rodrigues.rn)

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