"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 26 de outubro de 2013

É música aquilo?

Algum barulho, um punhado de palavras que despertam algum impulso e a publicidade de bebidas alcoólicas. Por que deixamos de ter música? E o que faz alguém gostar de ouvir aquilo.

Uma dessas bandinhas de forró chama Forró Pegado, que aliás usa o nome do antigo ritmo nordestino, e que fazem aqui o papel do funk e do chamado sertanejo universitário do Sudeste, diz ser alguém o chefe pelas roupas que usa, se espalham por toda a parte, impressionante como se aprecia. A música é uma expressão artística da humanidade que é raro não ter quem aprecie, mas por que ela se transformara em algo tão desprezível? Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos." (John Gray, filósofo político). É uma marca do capitalismo em que  : "Tudo que é sólido se desmancha no ar" (Marx), não existe mais solidez como afirma Bauman, as pessoas estão imersas em um meio e consideram aquilo como música.

O que é a classe média

Um proletariado que não recebe apenas o necessário para reproduzir a mão-de-obra? Uma camada reacionária? Recentemente ficaram famosos os pronunciamentos de Marilena Chauí ao dizer que a classe média é fascista, violenta e ignorante. A Chamada classe média  detém poder aquisitivo e geralmente se identifica com a ordem, sendo considerada reacionária.

“Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social que determina sua consciência”(Marx). Depois que estouraram os protestos em Junho pelo Brasil passou-se a dizer que se tratavam de manifestações da Classe Média, logo partidários de esquerda começam a ser expulsos das marchas, grupos cantavam o Hino Nacional, outros enrolavam-se com bandeiras do Brasil. Diante de tudo isso o que pode ser politicamente a Classe Média, considerada um dos pilares que sustentaram a ascensão do fascismo na Europa? O Brasil passou a conceituar como de Classe Média quem tem uma renda média per capita inferior a 300 reais mensais, uma economia sustentada internamente pelo consumo, apesar de  boa parte dessa "nova" Classe Média ser composta por aqueles que vivem de salários, com empregos precários, talvez esse quadro explique a busca de melhores serviços públicos, não é revolucionária pois não quer construir algo inteiramente novo, desafia uma situação de desconfiança com ocupantes de cargos eletivos e  fazem parte de um todo já pautado pela vida líquida.

A banalização do sexo como armadilha para os adolescentes

Publicado em zoomnews

Todos os alarmes têm sido acionados.  E, no entanto, o processo continua a subir em torno da banalização do sexo. A hipersexualização de meninas e adolescentes é uma característica da sociedade atual de que ainda não se conhece todas as conseqüências. A avalanche de publicidade, de informação através de redes sociais e a televisão devastam a infância. São pré-adolescentes de 10 a 15 anos de idade, mas se comportam como adultos, vestem-se, se movimentam, e se portam como as mulheres  que a cada dia estão visualizando em suas séries e videoclipes favoritos, que cada vez mais se aproximam da pornografia. Exemplo disso é, sem dúvida, a ascensão de Miley Cyrus, a ex menina Hannah Montana, que com 20 anos conseguiu chocar meio mundo através da dança grosseira e  linguagem rude.

Alguns anos atrás, o mundo da fama se agarrava à inocência dos atores mirins como Marisol, tentando conter seu crescimento hormonal até o ponto de vender-lhes  os seios, agora vemos o fenômeno contrário com a filha de Tom Cruise e Katie Holmes usando  saltos altos  antes de cinco anos de idade, ou a transformação radical da pequena Abigail Breslin, cujo papel em pequena Miss Sunshine lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Em 2002, a análise dos 182 vídeos mais famosos revelou que neles, 71% das mulheres em destaque estavam vestidas provocativamente ou tinham roupas provocantes. No entanto, o fenômeno é uma realidade não só em Hollywood, mas atingiu o coração da sociedade, em qualquer casa, de qualquer nível socioeconômico.

Dependência dos outros

As meninas pensam que têm que estar bonitas, sexy e disponíveis para ser mais apreciadas pelos seus pares. "Elas passaram a acreditar que o seu único poder reside na sua aparência, e fazem esforços diários para aceder a este modelo de mulher fisicamente perfeita e sexy. Olhando esse objetivo, os jovens tornam-se dependentes da apreciação dos outros, e com o tempo, fortemente vulneráveis ​​a conseqüências adversas sobre a sua saúde mental", disse Lucie Poirier e Joane Garon, autoras de um guia sobre hipersexualização da juventude, publicado pelo Ministério da Saúde do Canadá.

De acordo com especialistas, as crianças e pré-adolescentes estão em um período de construção de sua identidade e são particularmente intrigados com os elementos que os levam a ser mais populares entre os seus pares. Assim, eles questionam a sua aparência, orientação sexual, sexualidade e são extremamente permeáveis ao mudo dos adultos que creem entender. Esta sociedade incentiva-os a jogar a carta da sexualidade para ter valor e obter poder.

Um pré-adolescente quer ser "normal ", ser ou fazer "como os demais" e estar "à altura", por isso correm o risco de cair em uma armadilha, se as suas percepções da realidade, sedução, relacionamentos e sexo são baseadas em fatos artificiais, falsos ou fantasiosos.

Mª Victoria Martin Fraile, pedagoga, alerta no entanto, para o efeito  "iceberg", quando se trata de lidar com essa questão, porque "se estamos  preocupados com o que vemos (pequenas vestidas e maquiadas como top models) ainda mais preocupante é o efeito sobre a personalidade, o que de momento não se ver, mas é o que a forja como uma mulher."

De acordo com um estudo realizado pela senadora francesa Chantal Jouanno, a intrusão precoce da sexualidade envolve danos psicológicos irreversíveis em 80% dos casos e pode causar mudanças no comportamento das pequenas. Seus dados mostram que 37% das crianças menores de 11 anos afirmam terem feito dieta.

A porta da frente é muitas vezes a da publicidade, graças ao surgimento da visão da pré-adolescência como um conceito comercial que visa criar um novo alvo de potenciais consumidores  (girl power). Meninas entre 9 e 13 anos são o objeto de desejo das multinacionais: primeiro ataca seu look, para remover todos os vestígios de idade real, porque no mundo da imagem prematuridade é importante. "Fingir sua idade dá sensação de atraso", diz Roland Beller, psiquiatra e psicanalista.

Além disso, nestes meios se entende esses comportamentos como prova da liberdade sexual, definida como a liberdade de ser  tão sexy quanto o sonho de qualquer homem. Nessa corrida, proliferam meninas vestidas de  mulher  contratadas por casas de moda, movimentando milhões de pessoas. Hermes de clock com apenas 13 anos a Jac Jagaciak, Hailee Steinfeld Miu Miu (16 anos), Diane von Furstenberg a Hailee Clauson (15 anos), Thairine Garcia Prada (15) ou utilizando a imagem de Louis Vuitton Nyasha Matonhodze. O trabalho de Kaia Gerber, filha da modelo Cindy Crawford, servindo com 10 anos, apenas mais um exemplo.

Superestimar a aparência e sedução como uma forma de se relacionar com os outros também implica riscos para a saúde física dos jovens. A hipersexualização de jovens leva-os a desenvolver comportamentos de risco, tais como mudanças na dieta, consumo de drogas e álcool, tabagismo, cirurgia estética precoce e gravidez  indesejada.

Outro estudo feito em 2006 revelou que 80% dos jovens sentiram que as atividades sociais de natureza sexual, tais como danças entre os três, concursos de camisetas molhadas, jogos de imitação de sexo oral, sexo grupal ou passar um gelo na boca são exemplos de relações igualitárias entre meninos e meninas .

Este fenômeno está vendendo "felicidade expressa" que não está levando a essas pequenas e adolescentes no caminho da qualidade de vida, mas que mascara personalidades fracas, frágeis, vulneráveis ​​aos caprichos da vida e que não prepara-os  para outros valores como  a coragem, a humildade, ajudar os outros ... enquanto parece que o  esforço não está em moda, diz Martin Fraile.

Pablo Francisco, professor secundário, alerta, porém, que o primeiro modelo direto de uma criança são seus pais. " A hipersexualização nos resulta chamativa  se a encontramos em crianças  mas também está em adultos": Se veem em casa, em seu espaço próximo... O entendem como normal, e reforçada pela referência da mídia O resultado é a imitação do modelo", diz ele.

"Os pais devem ter uma participação constante e ativa no controle do que chega a seus filhos e neste caso a dificuldade de conciliar trabalho e vida familiar, como ambos os pais trabalham e fazem longas jornada, às vezes  não se exerce adequadamente a responsabilidade de educar, de estar lá como uma referência", diz ele.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EUA espiaram conversas telefónicas de 35 líderes mundiais, diz documento

As conversas telefónicas de pelo menos 35 líderes mundiais foram intercetadas por agentes da NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos), indicam documentos divulgados nesta quinta-feira (24/10) pelo jornal britânico “Guardian”. Não foram revelados, no entanto, quais teriam sido monitorizados.
A revelação deve agravar as tensões entre as autoridades dos EUA e os países aliados, depois de uma série de denúncias de espionagem contra Washington. Nesta quarta-feira (23), o governo alemão recebeu informações de que o telemóvel da chanceler alemã Angela Merkel estaria a ser espiado pelos norte-americanos, o que irritou Berlim e fez com que a governante ligasse para Barack Obama exigindo explicações.
Além de fundamentar ainda mais as desconfianças quanto ao serviço de segurança dos EUA, os mais recentes arquivos secretos entregues pelo ex-técnico da NSA, Edward Snowden, indicam que outros órgãos governamentais colaboraram com as espionagens sistemáticas a outros governos e países.
Oficiais da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono, de acordo com os documentos, teriam sido incentivados a entregar números de telefones de políticos estrangeiros ao sistema de vigilância da NSA, segundo os papéis. A agência, então, conferia se os contactos já estavam disponíveis no seu banco de dados e iniciava a monitorização dos novos que eram considerados importantes.
“Num caso recente, um oficial norte-americano providenciou 200 números telefónicos de 35 líderes mundiais à NSA ... Apesar de a maioria destes estar disponível como código aberto, os computadores identificaram 43 contactos previamente desconhecidos. Esses números, mais uma série de outros, foram monitorizados”.
É assim que se inicia o documento datado de 2006 e pertencente a uma das diretorias da agência. Segundo o Guardian, o texto continua afirmando que os novos contactos telefónicos ajudam a NSA a descobrir outros números, incrementando o seu sistema de vigilância – uma questão de segurança nacional.
“A NSA agradece essas informações”, afirma o arquivo que ainda revela receber contactos de funcionários “espontaneamente”. “De tempo a tempo, ganhamos acesso a bancos de dados de contactos pessoais de oficiais norte-americanos”, diz.
Sem divulgar o nome dos líderes e políticos mundiais espiados, o memorando afirma que pouco material de informação foi produzido a partir das escutas.
Espionagem indiscriminada
A reportagem do Guardian vem na esteira de uma série de outros documentos divulgados por Snowden para jornais e revistas internacionais sobre as espionagens conduzidas por Washington. Nesta semana, foi divulgado que os EUA investigaram autoridades mexicanas, francesas e alemãs, além dos cidadãos residentes nestes países.
Os principais alvos do sistema de segurança norte-americano foram telefones, telemóveis e e-mails de importantes políticos.
Em resposta às acusações de Merkel, a Casa Branca disse que não quer deteriorar as suas relações com os países aliados. “Essas são relações muito importantes tanto para a nossa economia quanto para a nossa segurança e vamos trabalhar (diplomaticamente) para mantê-las”, afirmou nesta quinta (24/10) Jay Carney, secretário de imprensa da Casa Branca.
Enquanto isso, a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Caitlin Hayden, negou que houve monitorização das comunicações da chanceler alemã. Em relação ao caso francês, Hayden limitou-se a dizer que “todos os países” espiam. “Nós já deixámos claro que os EUA reúnem informações de espionagem sobre outros países”, acrescentou ela.
Artigo publicado em Opera Mundi

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Punir ou educar?

Algumas cidades brasileiras, iniciando-se pelo Rio de Janeiro e agora Salvador, duas grandes capitais, estão criando leis municipais que pune com multa quem jogar lixo no chão, usa-se da punição para se alcançar o objetivo tido como um bem coletivo de manter a cidade limpa; mas não é tudo outras questões podem surgir: Seria justo punir ao invés de educar a população? É possível haver abusos por parte dos fiscais?

O fato é que a lei virá como uma boa iniciativa, os resultados no mundo real só o tempo dirá.

Com relação a educar um povo para essas práticas cidadãs de interesse coletivo nos chega o exemplo dos japoneses que mantém limpas suas cidades, isso somente ocorre quando o fato de não jogar lixo nas ruas se torna uma obrigação moral, ou seja, torna-se socialmente reprovável tal conduta. A lei tenta fazer isso pela força canalizada em punição, mas sempre pode haver o encontro com hipocrisias.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Vicenç Navarro: O conflito capital-trabalho nas crises atuais

Artigo publicado por  Vicenç Navarro  

Este artigo discute como a relação entre o mundo do capital e o mundo do trabalho estabeleceu as crises atuais , tanto econômicas e financeiras.


É surpreendente que, na enorme literatura que tem sido escrita sobre as causas das crises atuais muito pouco tem-se centrado sobre o conflito capital-trabalho (o que costumava ser chamado de luta de classes) e sua gênese no desenvolvimento de uma crise como essa. Uma possível causa disso é a enorme atenção que tem tido a crise financeira como a suposta causa da atual recessão. Mas essa atenção foi desviada para os analistas do contexto, não só econômicos, mas políticos, não apenas determinada, mas configurada a crise financeira, bem como aspectos econômicos, sociais e políticos. Na verdade, não se pode analisar cada um deles e a forma como eles se relacionam sem se referir a tal conflito. Como disse Marx, a história da humanidade é a história da luta de classes. E as crises atuais ( desde a  financeiro para a  econômica , passando pela social e política) é um exemplo claro.

Vejamos os dados. Durante o período pós II Guerra Mundial, o conflito foi mantido através de um pacto entre o capital e o mundo do trabalho que determinou que os salários, incluindo o salário social (que se reflete no aumento da proteção social, através do desenvolvimento das transferências de renda e serviços públicos do estado de bem-estar ), evoluem de acordo predominantemente com o aumento da produtividade. Como resultado, a renda do trabalho aumentou significativamente, atingindo o seu máximo (em ambos os lados do Atlântico Norte) na década de setenta (a parte dos salários em termos de remuneração por empregado nos EUA foi de 70% do PIB, em países que seriam mais tarde na UE-15 esse percentual era de 72,9%, na Alemanha 70,4%, França 74,3%, Itália 72,2%, no 74,3% Unido, Espanha 72,4 %).

Esse contrato social foi quebrado no final dos anos setenta e início dos anos oitenta , como resultado da rebelião de capital ante o progresso do mundo do trabalho. A resposta do capital l foi o desenvolvimento de uma nova cultura econômica baseada no liberalismo, mas com mais agressividade, resultado, na época, de sua postura defensiva contra o progresso do mundo do trabalho. Sua versão política pública foi o que tem sido chamado de neoliberalismo, que teve como objetivo recuperar o terreno perdido pelo enfraquecimento do mundo do trabalho. Desde então, o crescimento da produtividade não resultaria no aumento tanto da renda do trabalho, mas o aumento da renda do capital. E essa resposta através do desenvolvimento de políticas neoliberais ( que constituiu um ataque frontal à população ativa ) , tem sido muito bem sucedida. Renda do trabalho diminuiu na maioria dos países listados acima. Em os EUA , em 2012 passou a representar 63,6% do PIB nos países da UE -15 66,5% 65,2% na Alemanha, 68,2% na França, na Itália, para 64, 4% , no Reino Unido, 72,7% e 58,4 % em Espanha. O declínio no rendimento do trabalho durante o período de 1981-2012 foi de 5,5% em os EUA , 6,9% na UE -15 , 5,4% na Alemanha, 8,5% na França, 7,1% na Itália, 1,9% no Reino Unido e 14,6% na Espanha , com o último país onde tal declínio foi maior .

O contexto político

Tais políticas foram iniciadas pelo presidente Reagan em 1980 e pela  primeira-ministra, a Sra. Margaret Thatcher, em 1979, no Reino Unido. Estas políticas também foram aceitas como inevitáveis e necessárias por parte do governo de François Mitterrand, na França, em 1981, argumentando que seu programa de orientação claramente keynesiana (com o qual ele tinha sido eleito) não poderia ser aplicado devido à europeização e globalização da economia, posição sustentada posteriormente pela corrente dominante dentro da social-democracia européia conhecida como Terceira Via. A aplicação das políticas neoliberais, definidas como sócio-liberais dentro dessa tradição política, caracteriza as políticas dos governos social-democratas na UE. Todos eles tinham a intenção de facilitar a integração das economias dos países da UE no mundo globalizado, aumentando a sua competitividade, estimulando as exportações à custa da redução da procura interna,  redução dos salários. Daí decorre que uma conseqüência dessas políticas foi a de que o aumento da produtividade não teria impacto sobre o aumento salarial , mas no aumento da renda do capital.

Para atingir este objetivo, o desemprego era um componente chave para disciplinar o mundo do trabalho. Em todos esses países, o desemprego aumentou de forma dramática. Ela passou de 4,8% nos EUA em 1970 para 9,6% em 2010. Nos países da UE- 15 aumentou de 2,2% para 9,6% , na Alemanha de 0,6% para 7,1% , em França de 1,8% para 9,8 %, na Itália, de 4,9% para 8,4%, no Reino Unido, de 1,7% para 7,8%, Espanha 2,4% para 20,1%, com este crescimento maior no último país.

Esta polarização dos rendimentos, com forte crescimento no lucro do capital à custa dos rendimentos do trabalho, foi a origem da crise econômica e financeira. A diminuição da renda do trabalho criou um enorme problema da escassez da demanda privada, que passou despercebido devido a vários fatos. Um deles foi a reunificação alemã em 1990 e a despesa enorme que o acompanhava ( para incorporar a Alemanha Oriental para o Ocidente e para facilitar a expansão da Alemanha Ocidental no Oriente), que foi financiada principalmente a base do aumento do déficit orçamental na Alemanha, passando do superávit em 1989 (0,1% do PIB ) para um déficit neste ano, chegando a 3,4% em 1996, estando em déficit a cada ano desde 1989. A Alemanha , portanto, seguiu uma política de estímulo através da despesa pública (como resultado da sua dimensão e centralidade) beneficiando toda a economia europeia.

O segundo evento foi a enorme dívida da população, o endividamento que atrasou o impacto que a queda da renda do trabalho teve na redução da demanda. Este empréstimo foi facilitado na Europa, com a criação do euro, o que resultou na tendência de convergir os interesses dos países da zona euro para aqueles na Alemanha. A substituição do marco alemão e todas as outras moedas da zona do euro por parte da mesma moeda , o euro, levou à germanização dos interesses monetários. O caso da Espanha é um exemplo claro. O preço do crédito nunca foi tão baixo , facilitando a enorme dívida das famílias (e negócios ) espanhol, passar despercebido e a enorme perda de poder de compra da população ativa .

Além disso, a grande acumulação de capital (resultado que a maior parte do aumento da riqueza do país, causada pelo aumento da produtividade, era predominantemente de elevar o rendimento do capital, em vez de os rendimentos do trabalho) explica a aumento das atividades especulativas , incluindo o aparecimento de bolhas, das quais as imobiliárias eram os mais comuns, mas não as únicas. O rendimento era muito mais elevado no setor especulativo do que no produtivo, em qual algo estava  estagnado como resultado de uma diminuição da demanda. O crescimento do capital financeiro foi a característica deste período em ambos os lados do Atlântico Norte, crescimento resultante do endividamento e das atividades especulativas. Este crescimento foi baseado , em parte, sobre a necessidade de tomar emprestado, devido ao contínuo declínio no crescimento anual de compensação salarial em todos esses países , particularmente agudo nos países da UE- 15. Assim, a média anual de crescimento , tais dos países da zona do euro caiu de 3,5% em 1991-2000 para 2,4% no período 2001-2010 , na Alemanha, de 3,2% para 1, 1 % em Espanha de 4,9% para 3,6%.

A bolha estoura

Os estabelecimentos financeiros e políticos, tanto da União Europeia e da maioria dos países da zona do euro, acreditam que a crise financeira foi criada e causada pelo colapso do banco Lehman Brothers dos EUA e limitaria-se ao setor bancário os EUA. Thomas Palley cita o que era  ministro alemão das Finanças alemão, o socialista Peer Steinbrück  (agora candidato presidencial do Partido Social Democrata), que profetizou que isso significaria o fim do estatuto dos EUA como uma grande potência financeira como resultado das debilidades do sistema financeiro dos EUA . Este colapso do dólar , segundo ele, iria beneficiar o euro.

A grande ironia destas previsões é que, no final, o que salvou a banca alemã foi o Federal Reserve Board (FRB), o banco central dos EUA . O modelo alemão baseado nas exportações tornou os bancos alemães vulneráveis a serem contaminados. Os bancos alemães estavam massivamente intoxicados com os produtos especulativos  da banca norte-americana. Grandes bancos alemães (como o Sachsen LB , o IKB Deutsche Industriebank , Deutsche Bank, Commerzbank , Dresdner Bank e Hypo Real Estate) assim como as caixas alemães (como BayernLB , o WestLB e DZ Bank) entrou no período de 2007-2009 em uma enorme crise de solvência, todos eles tendo que ser resgatados, muitos dos quais, aliás, com a ajuda do FRB dos EUA.

A orientação econômica, com base em exportações (o que é típico do modelo liberal), havia infectado o capital financeiro alemão profundamente, como resultado de seus investimentos financeiros em ambos os bancos norte-americanos (cheio de produtos tóxicos ) e nos países periféricos chamados PIGS (Portugal , Irlanda, Grécia e Espanha) e, mais tarde gipsi ( com a adição da Itália) , cheio de atividades especulativas imobiliárias. Na verdade, a crise financeira alemã e europeia era ainda pior do que os EUA e , quando a enorme bolha especulativa explodiu ( por paralisar o bancário alemão ) , mostrou nitidamente o problema da dívida enorme causado pela redução na demanda , o que fez referência nas seções anteriores.

Por que a crise financeira é pior na Europa ?

Uma das causas disso é a arquitetura do sistema de governo do euro , o resultado da dominação do capital financeiro na sua governação . Este sistema de governo é um produto de qualidade neoliberal se baseia, em parte, a diferença de comportamento entre o Banco Central Europeu (BCE ) e da FRB e , em parte , sobre os diferentes tipos de modelo de exportação dos EUA e da Zona Euro ( multipolar em os EUA ea própria zona euro centrada no caso europeu ) .

O BCE é um banco central. A FRB é. O BCE não emprestar dinheiro aos estados e não protege contra a especulação nos mercados financeiros. Assim, os estados periféricos são tão vulneráveis ​​, pagando interesses claramente abusivas que levaram ao enorme bolha da dívida pública nesses países. Isso não acontece em os EUA . A FRB protege de Estado dos EUA . A Califórnia tem uma dívida pública é preocupante como o grego , mas esta não é uma situação de asfixia para sua economia. Sim, é na Grécia.

À luz destes dados é um absurdo acusar os países periféricos têm causado a crise por causa de sua falta de disciplina fiscal. Espanha e Irlanda estavam em superávit em suas contas do Estado durante o período 2005-2007. Eles eram o favorito discípulos escola neoliberal , gerido pela Comissão Europeia, com o Ministro Solbes , que era comissário de Assuntos Econômicos da UE , o arquiteto de que a ortodoxia . Na verdade , a Alemanha, durante o período de 2002-2007 , tiveram os défices superiores a Espanha supostamente undisciplined .

Não foi sua  falta de disciplina inexistente, mas a falta de um banco central que apoiara sua dívida pública, o que causou o crescimento dos juros da dívida pública, prestados por bancos e alemães entre outros, que se beneficiaram do prêmio de alto risco. O objetivo principal das medidas de cortes nos gastos públicos, incluindo os gastos sociais, está a pagar juros à banca alemã , entre outros. As enormes países Gipsi sacrifício não tem nada a ver com a explicação dada pela mídia e outros fóruns para a difusão do pensamento neoliberal que corta atribuída à necessidade de corrigir os seus excessos , mas para pagar a um banco que controla a BCE , em lugar de proteger os estados, enfraquece ter que pagar valores mais elevados para o banco. A evidência de que é esmagadora. O famoso resgate do sistema bancário espanhol é , de fato, o resgate dos bancos europeus , incluindo a Alemanha, que já investiu mais de 200 mil milhões de euros em ativos financeiros espanhóis.

Uma nova explicação da crise

Uma variação desta explicação é o argumento de que o problema da zona euro é o grau de diferença de competitividade com alta competitividade no centro - Alemanha  e os Países Baixos - e de baixa competitividade no sul –GIPSI. Esta diferença explica porque os primeiros têm balança comercial externa positiva (exportar mais do que importar), enquanto são negativos deste último (ou seja , importar mais do que exportar) . Assim, a solução passa através de um maior crescimento da competitividade dos últimos. E a melhor maneira é a salários mais baixos ( o que é chamado desvalorização interna ) .

Mas tal explicação tem sérios problemas. Em primeiro lugar, nem a Irlanda nem a Itália teve saldos comerciais negativos quando a crise começou. Além disso, o crescimento da componente negativo da balança de pagamentos de países –GIPSI era predominantemente devido ao aumento das importações , resultado da dívida , e não menor produtividade ou a competitividade. E agora melhorar a sua balança comercial é devido à baixa demanda . Em ambos os casos , pouco a ver com as mudanças na competitividade. Na verdade, a produtividade do trabalho padronizado pela atividade econômica não é substancialmente diferente na Espanha do que na Alemanha. O problema , portanto , não pode ser explicada por uma diferença de competitividade , mas por uma demanda diferencial a nível europeu, acentuado por um problema estrutural , o resultado do declínio da renda do trabalho . O motor da economia da zona do euro é baseado no modelo de exportação alemão, cujo sucesso é baseado na moderação salarial Alemão ( com salários muito abaixo do nível que corresponde ao seu nível de produtividade ) , a incapacidade dos países periféricos de reduzir o preço de sua moeda ( beneficiando Alemanha) em euros enorme concentração , mobilidade do capital da periferia para o centro e o domínio de estruturas financeiras , através da enorme influência sobre o BCE não agir como um banco central. Veja o balanço de pagamentos , como resultado de uma diferença de produtividade é profundamente errado .

Na verdade, a Alemanha deveria ser um mecanismo de estímulo à economia, não aumentando suas exportações (com base em salários baixos), mas com crescimento da demanda doméstica, aumento dos salários e  sua escassa proteção social. O trabalhador alemão tem mais em comum com os trabalhadores dos países GIPSI do que com seu establishment financeiro e exportador. E nos países periféricos também deveriam seguir as políticas de estímulo, revertendo as políticas de austeridade que estão contribuindo para a recessão e o desconforto das classes populares, as políticas que se opõem agentes do capital, uma vez que estes terão menores receitas. Então, claro. Marx , afinal, estava certo.

Inflação legislativa, inutilidade parlamentar e conflitos retóricos

Cria-se leis no Brasil para tudo, sem saber o que fazer e querendo servir para algo os gloriosos parlamentares apresentam propostas de qualquer "problema" que descobrirem que ocorre, afora os lobbys, que certamente ocorrer, inclusive, há quem tache o Congresso Nacional de Balcão de Negócios, recentemente a Agência Pública publicou matéria investigativa, onde, demonstrava negociações em torno do Código da Mineração favorecendo parlamentares do PMDB, Empresa figurando de partido, que possuem negócios no setor.

Na Assembleia ridícula do Rio Grande do Norte apresenta-se qualquer porcaria para aparecer como o "pai" de alguma coisa, o pior é que pelo nível miserável quase nunca passam de concessões de títulos de cidadania, mudança de nome de Municípios, criação de datas comemorativos etc. Sem saber para que se elege um Parlamento infrutífero, que se torna atividade única de alguns oligarcas e que se torna um dispêndio e vergonha para esta sociedade.

De outro lado, a sociedade passa a cultivar o ato de processar a tudo e a todos em quaisquer circunstâncias, obviamente que a forma de comunicação para qualificar ou desqualificar outrem seja inadequada e deva ser punida, mas nisso passamos a ser mais produtivos, ou seja, é hoje muito mais comum os conflitos comunicativos, um mundo de competidores e verbalmente muito mais agressivo.


Jardineiros x Caçadores

Para o sociólogo Zigmunt Bauman deixamos a lógica de um Mundo de Jardineiros, aquele que prepara o futuro, e passamos para um Mundo de Caçadores, os que destroem o que já está configurado.

Após a década de 1990 a música do Mundo ocidental sofreu uma violenta virada, passamos para uma modalidade não mais "puxando" pelo interior e sim um culto a explosão instintual.

Aqui pelo interior do Brasil, que em Luar do Sertão Catullo falava da viola ao luar, uma invasão de eventos repletos por marcas de cervejas e outras bebidas formam uma realidade diferente.

É tudo diferente, é uma época de pulsões e concorrência, um Mundo de competidores.

Eventos climáticos extremos ameaçam esforços para acabar com a miséria

Até 2030, mais de 325 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza estarão nos 49 países mais vulneráveis às mudanças climáticas, o que dificultará ainda mais as tentativas de desenvolvimento

Autor: Fabiano Ávila   -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil




Quando o furacão Mitch devastou países na América Central em 1998, o Programa Mundial de Alimentação (PMA), das Nações Unidas, afirmou que o desastre destruiu 20 anos de trabalho para erradicar a fome e a pobreza na região.

Eventos climáticos extremos ao redor do mundo têm efeitos semelhantes todos os meses, mas, mesmo assim, a gestão de seus riscos ainda não é uma prioridade da comunidade internacional, alerta um relatório divulgado nesta quarta-feira (16).

O documento foi produzido pelo Overseas Development Institute (ODI), uma das principais entidades civis britânicas ligada a causas humanitárias, em parceria com o Met Office e a consultoria Risk Management Solutions (RMS).

Segundo o relatório, mais de 325 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza estarão nos 49 países mais vulneráveis às mudanças climáticas até 2030. Dessa forma, eventos climáticos extremos, como secas prolongadas ou enchentes constantes, as afetarão de forma particularmente rigorosa, tornando os esforços para acabar com a miséria mundial ainda mais difícil.

“Desastres representam uma ameaça crítica ao objetivo de acabar com a pobreza, e alguns países são tão vulneráveis que basta um punhado de eventos extremos para que os esforços nesse sentido sejam completamente destruídos”, afirmou Tom Mitchell, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores analisaram, por exemplo, os impactos das secas na Etiópia e em regiões da Índia. E concluíram que a falta de acesso à água é o principal intensificador da pobreza.

“Normalmente, a má condição de saúde pública é apontada como a maior responsável pela miséria. Porém, em áreas vulneráveis à seca, o fator climático é o mais importante, já que é ele que está por trás dos problemas de saúde da população”, explicou Mitchell.

As 11 nações que reúnem as piores condições, ou seja, maior parcela da população abaixo da linha da pobreza e mais vulnerabilidade climática, são: Bangladesh, República Democrática do Congo, Etiópia, Quênia, Madagascar, Nepal, Nigéria, Paquistão, Sudão do Sul, Sudão e Uganda.

O Brasil também é citado no relatório, aparecendo com “vulnerabilidade moderada” e sendo classificado como um “país a ser observado”. Segundo os pesquisadores, mais de um milhão de brasileiros viverão com menos de US$ 1,25 por dia em 2030, e estarão expostos a múltiplos perigos climáticos.

Camarões, Indonésia, Nicarágua, Vietnã, Botsuana e Costa do Marfim são alguns dos outros países na mesma categoria que o Brasil.

O que os pesquisadores argumentam é que a gestão de riscos climáticos deveria ser um componente fundamental nos esforços de redução da pobreza.

Assim, as metas de desenvolvimento das Nações Unidas para após 2015 precisam incluir os perigos das mudanças climáticas, já que uma das suas consequências é o aumento da frequência e intensidade dos fenômenos climáticos extremos.

“Se a comunidade internacional quiser realmente acabar com a pobreza extrema até 2030, então a gestão de riscos de desastres deve estar no centro das ações e receber financiamentos adequados”, disse Mitchell.

De acordo com a ODI, de cada US$ 100 que foram destinados para causas humanitárias na última década, apenas US$ 0,40 foram aplicados em redução de riscos de desastres.


Leia o relatório: The geography of poverty, disasters and climate extremes in 2030

terça-feira, 22 de outubro de 2013

China: Os escravos da Barbie

Jornadas laborais de 13 horas, salários miseráveis, habitações superlotadas, ausência de cotizações sociais: os brinquedos da empresa californiana Mattel são fabricados por operários explorados, constataram duas ONGs que visitaram fábricas na China. A investigação foi realizada no momento em que se produzem os brinquedos que se venderão na próxima época de natal. Por RFI.
Os brinquedos da empresa californiana Mattel são fabricados por operários brutalmente explorados em fábricas na China
Desde abril a setembro, regista-se o pico da produção das empresas chinesas que fabricam brinquedos que estarão ao pé da árvore de natal, em dezembro. Uma prenda clássica desta ocasião é a mais famosa das bonecas, Barbie, criada pela empresa californiana Mattel, também à frente dos artigos Fisher Price.
Para ver as condições de trabalho em que se elaboram estes produtos, a ONG China Labor Watch (CLW) infiltrou os seus investigadores entre os trabalhadores de seis fábricas durante o período de maior labor, constatando numerosas violações do direito laboral.
Nas conclusões do relatório, publicado pela ONG francesa Povos Solidários-Action Aid France, surge que os empregados trabalham até 13 horas por día por um salário indigno e dormem em casas superlotadas. Outras irregularidades constatadas: os trabalhadores não recebem formação, nem equipamentos de proteção adequados.
"Os fornecedores da Mattel privaram os trabalhadores de milhões de euros ao evitar o pagamento das horas suplementares e das cotizações sociais obrigatórias, além de descontar através de fraudes as horas trabalhadas" apontam as ONGs.
A poupança levada a cabo pela Mattel ao evitar o pagamento de horas extra e cotizações sociais através destas empresas subcontratadas é de entre oito milhões e 11 milhões de euros, segundo a CLW.
"As auditorias encomendadas pela Mattel, desde há mais de 10 anos, puseram em relevo as violações do direito ao trabalho. Sem dúvida, a Mattel tomou poucas medidas corretivas importantes e com o tempo a transparência destas auditorias degradou-se", acrescentam as organizações.
Artigo publicado em: espanol.rfi.fr, tradução de António José André para esquerda.net

Black Bloc: "O povo brasileiro precisa parar de só receber informação e não raciocinar sobre o que lhe é passado"

Nesta entrevista  um representante dos Black Bloc justifica as ações do Movimento, diz que o Brasil ainda não está preparado para o anarquismo, defende que o Black Bloc e suas ações servem para que o governo veja que o poder vem do povo.

Entrevistador: João Batista Cirilo - Voz da Rússia

 No caso do Brasil, quais seriam os objetivos do movimento?
– Em cada país há uma realidade diferente. O Black Bloc no Brasil tem como objetivo lutar além dos nossos ideais, como o caso da democracia direta, lutar por melhorias na saúde, educação e transporte. Apoiamos o direito do povo, as reivindicações. Vivemos em uma sociedade individualista, comandada por corruptos onde uma pequena parcela é a única beneficiada por esse sistema que segrega, que traz desunião, que mata e tira do povo aquilo que é seu por direito, como a liberdade de expressão.


– As constantes ações de Black Blocs em manifestações se transformam em protestos violentos, criando assim uma certa imagem negativa sobre vocês na mídia, tanto brasileira, quanto internacional. O que vocês pensam sobre isso? Já pensaram em outra forma de manifestação?
– A violência vem por parte dos policiais com o intuito de reprimir o ato em si. Apenas reagiamos às agressões do Estado. Reagimos, não atacamos, essa é a diferença. Aos poucos, estamos perdendo o nosso direito de protestar. Acha isso certo? Defendemos o povo, defendemos o direito do povo, é isso que fazemos. A mídia sensacionalista tradicional nos taxa como vândalos tanto aqui dentro como fora do país porque sabem que somos contra eles. Eles beneficiaram a ditadura e manipulam a população, isso não admitimos.
– Agora as autoridades aplicam leis mais rigorosas aos manifestantes, como a Lei 12.850/2013, sancionada em 2 de agosto, que define e pune as chamadas organizações criminosas, estabelecendo pena que varia de 4 a 13 anos de prisão. Qual sua opinião e quais os resultados do impacto dessa medida?
– A única conclusão que se pode tirar com isso é que o Governo está cercado, não está sabendo o que fazer em relação a Revolta Popular e quer reprimir, quer cortar a revolta pela raíz antes que lhes causem mais estragos e interrompam ainda mais os seus interesses. O povo está se unindo, está se conscientizando das atrocidades desse governo. Eles acham que essa lei vai fazer com que as pessoas deixem de ir às ruas, mas eles não vão conseguir. Eles criaram uma lei, prenderam e prendem pessoas com essa lei, mas no final, não possuem provas para manter ninguém preso, porque NÃO HÁ prova. A não ser que a oposição a esse governo atual corrupto seja crime.
– Vocês acham que manifestações pacíficas são eficazes?
– Manifestações pacíficas são legítimas, são bonitas, mas até hoje, não se viu nenhuma mudança por parte de ações pacíficas. É bom deixar claro que não somos contra manifestações pacíficas, mas acreditamos que temos que pressionar o governo, temos que mostrar que o poder vem do povo, temos que ser diretos e objetivos. Temos que incomodar.
– Em sua opinião, quais os impactos das ações do grupo nas corporações nacionais ou mulltinacionais, nos governos que os condicionam, e mesmo na sociedade?
– Eles vão ter que mudar o discurso e agir conforme o que as pessoas e a sociedade querem. Podemos não ter o apoio geral da população, mas as pautas que estão indo às ruas são legítimas e essas pautas, o povo em geral apoia e muitos dariam a cara à tapa por elas. As instituições públicas e privadas estão tendo contato com o início da revolta popular, ainda acontecerá muita coisa caso eles não mudem o modo de tratar o povo. O povo cansou de ser tratado com desacaso pelo governo.
– Será que os métodos de guerra de informação são mais eficazes do que manifestações de rua? Como vocês avaliam, por exemplo, os resultados das atividades do ex-analista da NSA, Edward Snowden?
– Acreditamos que a informação é a maior arma contra qualquer injustiça. Se você afirmar algo para alguém, esse alguém só acreditará em você se você mostrar alguma coisa que comprove, caso contrário, você não terá nenhuma credibilidade e é por isso que apoiamos a guerra de informação, porque ela conscientiza as pessoas, as faz pensar e as tira da zona de conforto e passividade em que há muito tempo vivem.
OBS.: Deixando claro que não estamos generalizando. A luta por mudanças não é atual, portanto, o que foi descrito é referente a uma determinada parcela de pessoas.
– Qual a sua ideia de um Brasil perfeito?
– Não queremos um Brasil perfeito. A perfeição não existe. Queremos um país mais justo, mais unido, queremos direitos iguais, queremos respeito, queremos amor, queremos compreensão, irmandade. É isso.
– Entre os princípios do anarquismo estão a quebra de práticas hierárquicas e a descentralização de ações, além da ausência da coerção administrativa. Em sua opinião, o Brasil estaria preparado para viver essa filosofia política? Haveria êxito a não aplicação das responsabilidades fixas?
– Pela cultura brasileira, a anarquia não seria viável agora. Em um contexto geral, são poucas as pessoas da população brasileira que tem plena noção do que é o Anarquismo e o que ele prega. O Brasil não tem AINDA estrutura para receber a Anarquia como estilo de vida, precisamos investir em educação, em conteúdo para que a sociedade entenda e aceite. A falta de conhecimento é o que atrasa o Brasil.
– Recentemente foi divulgado na mídia, pelo diretor do Departamento de Investigações Criminosas (DEIC), que o grupo de vocês esta sendo considerado como organização criminosa. Gostaríamos de saber qual a opinião de vocês sobre esses comentários?
– Infelizmente temos que engolir essas falsas acusações. O governo sempre vai dar nomes ou enquadrar pessoas em determinadas dominações como o caso da "organização criminosa" para desligitimar o movimento, enfraquecer a luta, porque eles sabem que o poder emana do povo e que o povo junto, tem voz, tem resistência, tem coragem para lutar.
– Que tipo de mensagem vocês gostariam de deixar a nação brasileira?
– O povo brasileiro precisa parar de só receber informação e não raciocinar sobre o que lhe é passado. Pesquisem, estudem sobre o que anda ocorrendo aqui no Brasil. A máscara do governo está caindo, leis estão sendo feitas para reprimir o povo, para impedir que o povo proteste por melhorias e não podemos permitir isso. É nosso direito ter liberdade de expressão e não podemos abrir mão disso. Por anos fomos e somos submetidos aos descasos do governo, nossa educação é precária, nossa saúde é miserável e nosso transporte público, sucateado. Não somos respeitados, somos tratados com algo sem importância, como algo sem valor e isso é um absurdo. Nos roubam diariamente com impostos absurdos para alimentar a sede deles por dinheiro, criam vários ministérios, muitos com a mesma função para conseguirem ganhar mais dinheiro. Segurança? Só se for a deles, que andam com escolta, mas o povo sofre com o descaso da própria polícia que é treinada para matar e não para proteger. ACORDA BRASIL! É hora de agir.

Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/2013_10_22/black-bloc-comenta-repercussao-de-manifestacoes-na-midia-0026/

Amazônia apresenta 'grande risco de perda de árvores'

Parte da floresta tropical amazônica pode ser mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas do que se pensava anteriormente, afirma estudo

Autor: Alex Kirby   -   Fonte: Climate News Network


Pesquisadores dizem que a parte sul da floresta tropical amazônica está em um risco muito maior de perecer do que apontam os modelos usados no mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).


A equipe de pesquisa, liderada pela professora Rong Fu, da Universidade do Texas, afirma que isso é porque a floresta está ‘secando’ muito mais rapidamente do que o previsto.

O grupo usou medições de precipitação terrestre das últimas três décadas. Os resultados mostraram que, desde 1979, a estação seca no sul da Amazônia durou cerca de uma semana a mais em cada década.

Ao mesmo tempo, a estação anual de incêndios se tornou maior. Os pesquisadores colocam que a explicação mais provável para as estações secas cada vez mais longas é o aquecimento global.

“A estação seca no sul da Amazônia já restringe a manutenção da floresta”, observou a professora Fu. “Em algum momento, se ela se tornar longa demais, a floresta tropical atingirá um ponto crítico.”

Ela comentou que a duração da estação seca é o fator climático mais importante que controla o sul da floresta tropical amazônica. Se a estação for muito longa, a floresta não sobreviverá.

Se o dano for suficientemente severo, os pesquisadores declaram que a perda da floresta tropical pode emitir um grande volume de dióxido de carbono para a atmosfera, e pode também prejudicar comunidades de plantas e animais em uma das regiões mais ricas em biodiversidade do mundo. O estudo foi divulgado no Proceedings of the National Academy of Sciences.

Os novos resultados também contrastam com as previsões feitas pelos modelos usados pelo IPCC: mesmo sob cenários futuros em que os gases do efeito estufa aumentem dramaticamente, esses modelos preveem que a estação seca do sul da Amazônia será no máximo dez dias mais longa até o final do século, e que o risco de perecimento da floresta tropical induzido pelas mudanças climáticas deve, portanto, ser relativamente baixo.

Chuva limitada
A professora Fu e seus colegas dizem que a água armazenada no solo florestal ao final de cada estação úmida é o que as árvores têm para sobreviver nos meses secos. Quanto mais durarem os meses secos – independentemente de quão úmida foi a estação das chuvas – mais estressadas as árvores se tornam e mais suscetíveis elas ficam a incêndios florestais.

Eles afirmam que a explicação mais provável para a extensão da estação seca nas últimas décadas é o aquecimento global causado pelo homem, que inibe as chuvas de duas formas: Torna mais difícil para o ar quente e seco perto da superfície subir e se misturar com o frio e úmido acima; e bloqueia as incursões de frentes de clima frio de fora dos trópicos que poderiam desencadear a precipitação.

A equipe declara que os modelos climáticos do IPCC representam mal esses processos, o que pode explicar por que eles preveem uma estação seca amazônica apenas um pouco mais longa.

A floresta tropical amazônica normalmente age como um sumidouro de carbono, capturando CO2 atmosférico e armazenando-o. Mas, durante uma severa seca em 2005, isso se inverteu, liberando um petagrama de carbono (um bilhão de toneladas – cerca de um decimo das emissões humanas anuais) para a atmosfera.

Fu e seus colegas estimam que se as estações secas continuarem a se alongar a apenas metade da taxa vista nas últimas décadas, a seca de 2005 na Amazônia pode se tornar a norma em vez da exceção até o final deste século.

Alguns cientistas acreditam que a combinação de estações secas mais longas, temperaturas superficiais mais altas e florestas mais fragmentadas causadas pelo desmatamento pode eventualmente converter muito do sul da Amazônia de floresta tropical em savana.

Já que a Amazônia norte-ocidental tem muito mais precipitação e uma estação seca mais curta do que a sul, os pesquisadores acreditam que essa região é muito menos vulnerável às mudanças climáticas.

Traduzido por Jéssica Lipinski
Leia o original no Climate News Network (inglês)

Altos níveis de poluição param cidade de 11 milhões de pessoas na China

Autor: Adam Rose   -   Fonte: Reuters


Uma fumaça sufocante parou uma das maiores cidades do nordeste da China na segunda-feira, forçando escolas a suspenderem as aulas, agravando o trânsito e fechando aeroportos. Esta é a primeira crise de grandes proporções ligada à poluição atmosférica neste inverno.

Um índice que mede o material particulado de 2,5 micrômetros de diâmetro (MP 2,5) alcançou uma leitura de 1000 MP 2,5 em algumas partes de Harbin, a árida capital da província de Heilongjiang e lar de aproximadamente 11 milhões de pessoas.

Acima de 300 MP 2,5, a mensuração é considerada perigosa. A Organização Mundial de Saúde recomenda uma exposição diária de no máximo 20 MP 2,5.

A fumaça forçou não apenas todas as escolas primárias e do ensino médio a suspenderem as aulas, mas fechou o aeroporto e algumas rotas do transporte público, reportou a agência do governo Xinhua, atribuindo a culpa ao primeiro dia em que os sistemas de aquecimento foram ligados neste inverno. A visibilidade foi reduzida a dez metros.

A névoa deve permanecer pelas próximas 24 horas.

A qualidade do ar nas cidades chinesas é cada vez mais preocupante para o governo, obcecado pela estabilidade, pois a poluição causa um ressentimento em relação aos privilégios políticos e aumento da desigualdade na segunda maior economia do mundo.

A imprensa nacional tem apresentado reportagens mostrando os caros purificadores de ar que os oficiais do governo utilizam em suas residências e escritórios, ao lado de notícias sobre fazendas orgânicas especiais para que a elite não sofra com os recorrentes escândalos de segurança alimentar na área.

O governo anunciou planos para lidar com a poluição nos próximos anos, mas aparentemente tem evoluído pouco.

Usuários do popular site Sina – similar ao Twitter – reagiram com indignação e sarcasmo ao caso de poluição de Harbin.

“Após anos de esforços, o povo esperto e trabalhador de Harbin finalmente conseguiu ultrapassar tanto os níveis de classe média como da sociedade comunista e agora entraram na sociedade do mundo da fantasia”, escreveu um usuário.

Outras partes do nordeste da China também enfrentam altos níveis de poluição, como Tangshan, a duas horas de Pequim, e Changchun, capital da província de Julin, vizinha a Heilongjiang.

Na semana passada, Pequim lançou um sistema de alerta codificado por cores para lidar com emergências ligadas à poluição do ar, incluindo suspensões temporárias no setor de construção e produção, além do uso de fogueiras ao ar livre e de fogos de artifício.

Pequim teve o seu próprio episódio de emergência no inverno passado, quando o índice de poluição ultrapassou 900 de MP 2,5 em um dia de janeiro.


Traduzido por Fernanda B. Muller, Instituto CarbonoBrasil

Habermas: Sobre fé e ciência e o derrotismo da razão moderna

Neue Zürcher Zeitung
Em 9 de abril de 1991, na Matriz de São Pedro em Zurique, foi realizada uma cerimônia fúnebre para Max Frisch. No início, Karin Pilliod, a companheira de vida, leu um breve esclarecimento do falecido. Ali se diz entre outras coisas: "Deixamos a palavra para o próximo, sem amém. Eu agradeço ao pároco de São Pedro em Zurique (...) pela autorização para, durante a nossa cerimônia fúnebre, o sarcófago poder encontrar-se na igreja. A cinza será espalhada em algum lugar." Falaram dois amigos. Nenhum sacerdote, nenhuma bênção. A comunidade enlutada se compunha de intelectuais, dos quais a maioria não tinha muito a ver com religião e igreja. Para a refeição anexa, o próprio Frisch ainda compusera o cardápio.

Na época, não considerei estranha esta cerimônia. Porém sua forma, o local e o transcurso são estranhos. Max Frisch - um agnóstico que recusava toda confissão de fé - experimentou certamente a penosidade das formas não religiosas de sepultamento e, pela escolha do local, ele documentou abertamente o fato de que a modernidade esclarecida não encontrou nenhum equivalente adequado para uma celebração religiosa do último rito de passagem, que encerra a história de uma vida.

Melancolia, inquietação

Pode-se entender este gesto como expressão da melancolia em face de algo inexoravelmente perdido. Mas, também podemos encarar a cerimônia como uma ocorrência paradoxal, que nos diz algo sobre a razão secular: a mesma está intranqüilizada pelo opaco de sua relação com a religião, apenas aparentemente esclarecida. Ao mesmo tempo a Igreja, também a Igreja reformada de Zwinglio, deveria saltar sobre sua própria sombra, quando autorizou esta cerimônia, secular e "sem amém", em seu sagrado recinto. Subsiste uma singular dialética entre a autoconsciência filosoficamente esclarecida da modernidade e a autoconsciência teológica das grandes religiões mundiais que, como o mais emperrado elemento do passado, se estendem para dentro desta modernidade.

Não se trata de um ambíguo compromisso entre realidades inconciliáveis. Não podemos oscilar em torno da alternativa entre uma orientação antropocêntrica e o olhar vindo do distante pensamento teocêntrico ou cosmocêntrico. Porém, faz diferença quando se fala um com o outro, ou apenas um do outro. Para a primeira alternativa, devem ser preenchidos dois pressupostos: o lado religioso deve reconhecer a razão "natural", ou seja, os falíveis resultados das ciências institucionalizadas e os princípios de um igualitarismo universalista em direito e em moral. Por sua vez, a razão secular não deve constituir-se em juíza sobre verdades de fé, embora, no resultado, ela só aceite como racional aquilo que ela consegue traduzir em discursos próprios, em princípio universalmente acessíveis. Assim como não é trivial um pressuposto de uma visão teológica, também não o é o outro, a partir de uma visão filosófica.

A era axial

A ciência moderna forçou a razão filosófica, que se tornou autocrítica, a despedir-se das construções metafísicas do todo da natureza e da história. Este deslocamento da reflexão passou às ciências empíricas a responsabilidade pela natureza e pela história, não deixando à filosofia muito mais do que as competências universais de sujeitos que conhecem, falam e agem. Desta forma, desarticulou-se a síntese entre fé e ciência, elaborada desde Agostinho atéTomás [de Aquino]. É verdade que a filosofia moderna, na figura de um pensamento, se assim se quiser, "pós-metafísico", se apropriou criticamente da herança grega, porém simultaneamente se distanciou do saber salvífico judaico-cristão. Enquanto ela inclui a metafísica na história de sua própria origem, ela se relaciona com a religião e a revelação como com um estranho, a ela exterior. É verdade que, com esta remoção, a religião continua de fato presente de uma outra forma, como metafísica abandonada. A cisão entre o saber mundano e o saber revelado não se deixa mais amalgamar. Não obstante, a perspectiva, a partir da qual o pensamento metafísico se encontra com a religião, se modifica logo que a razão secular leve a sério a origem comum da filosofia e da religião, baseada na revolução cosmovisiva da era axial (em meados do primeiro milênio pré-cristão).

É verdade que, no decurso da história ocidental, o pensamento metafísico realizou com o cristianismo uma divisão do trabalho que lhe possibilitou retrair-se da administração de bens salvíficos contemplativamente almejados; porém, em suas origens platônicas, a filosofia também dera aos seus discípulos uma promessa salvífica semelhante à das outras "religiões do pensamento" cosmocêntrico do Ocidente (Max Weber). Na ótica do deslocamento cognitivo do mito ao Logos, a metafísica se situa ao lado de todas as cosmovisões surgidas na época, incluindo o monoteísmo judaico. Todas elas tornam possível considerar o mundo, a partir de um ponto de vista transcendente, como um todo, distinguindo o fluxo dos fenômenos das essências que os fundamentam. E, com a reflexão sobre a posição do indivíduo no mundo, formou-se uma nova consciência sobre a contingência histórica e sobre a responsabilidade do sujeito agente.

Se, no entanto, as cosmovisões religiosas e metafísicas deram curso a processos semelhantes de aprendizagem, ambos os modos, fé e ciência, com suas tradições baseadas em Jerusalém e em Atenas, pertencem à história originária da razão secular, em cujo meio se entendem hoje, sobre si e sua posição no mundo, os filhos e filhas da modernidade. Esta razão moderna só aprenderá a entender-se a si própria, se ela clarear sua posição em relação à consciência religiosa contemporânea, tornada reflexiva, compreendendo a origem comum das duas figuras complementares do espírito humano a partir daquele impulso da era axial.

Quando falo de figuras complementares do espírito, eu me volto contra duas posições - de um lado, contra o bronco Esclarecimento, não esclarecido sobre si próprio, que renega à religião todo conteúdo racional; mas, também me volto contra Hegel, para quem a religião representa, sim, uma figura do espírito merecedora de recordação, porém somente na forma de um "pensamento representativo" subordinado à filosofia. A fé contém para a ciência algo opaco, que não pode nem ser renegado, nem simplesmente aceito. Nela se espelha o inconcluso da controvérsia de uma razão autocrítica e disposta ao aprendizado com o presente das convicções religiosas. Esta controvérsia pode agudizar a consciência da sociedade pós-secular para o inconcluso nas tradições religiosas da humanidade. A secularização tem menos a função de um filtro que exclua conteúdos da tradição, do que a de um transformador que transforme o fluxo da tradição.
O motivo de minha ocupação com o tema `fé e ciência` é o desejo de mobilizar a razão moderna contra o derrotismo que nela fermenta. Com o derrotismo da razão, com o qual hoje nos defrontamos, tanto na agudização da "dialética do esclarecimento", como no naturalismo pretensamente científico, somente o pensamento pós-metafísico pode se entender. A coisa é diferente com uma razão prática que, sem a retaguarda histórico-filosófica, desespera da força motivadora de suas boas razões, porque as tendências de uma descarrilada modernização andam menos a favor das normas da sua moral de justiça, do que trabalham contra ela.

Conflitos político-religiosos

A razão prática fornece fundamentações para os conceitos igualitário-universalistas de moral e de direito, que determinam a liberdade do indivíduo e as relações individuais de um com o outro de forma normativamente compreensiva. Porém, a decisão de um agir solidário, em vista de perigos que só podem ser contornados por esforços coletivos, não é apenas questão de compreensão. Kant quis enfrentar esta debilidade da moral racional pelos estímulos de sua filosofia da religião. Mas, à luz desta frágil moral racional, compreende-se por que deviam escapar à razão esclarecida as imagens religiosamente conservadas do todo ético - do reino de Deus na terra - como ideais coletivamente vinculadores. Da mesma forma, a razão prática falha em sua própria determinação, quando não tem mais a força para despertar e manter acesa em mentes profanas uma consciência para a solidariedade lesionada a nível mundial, uma consciência daquilo que falta, daquilo que brada aos céus.

Será que um olhar modificado para a genealogia da razão não poderia ajudar o pensamento pós-metafísico a sair deste dilema? Em todo o caso, ele canaliza aquele processo de aprendizagem para uma outra luz, na qual a razão política do Estado liberal e a religião já se enredaram reciprocamente. Com isto, eu toco em conflitos que hoje decorrem mundialmente da inesperada renovação espiritual e da inquietante função política de comunidades religiosas. Abstraindo do nacionalismo hindu, o Islã e o Cristianismo são hoje as principais fontes desta inquietude.

Sob o aspecto da expansão geográfica, não são tão exitosas as comunidades religiosas de constituição nacional, como as Igrejas protestantes da Alemanha ou da Grã-Bretanha, porém o é a Igreja mundial católica e, sobretudo os movimentos dos evangélicos e dos muçulmanos, que operam a nível mundial. Os primeiros se expandem na América Latina, China, Coréia do Sul e nas Filipinas, enquanto os outros se estendem do Oriente Próximo, tanto para a África até além do Saara, como para o Sudoeste da Ásia, onde a Indonésia possui a maior população muçulmana. Com esta revitalização cresce a freqüência dos conflitos entre diversos grupos e confissões religiosas. Embora muitos desses conflitos emerjam de outras causas, a conotação religiosa atiça suas chamas. Desde o 11 de setembro de 2001, é, sobretudo, a instrumentalização política do Islã que está na boca de todo mundo. Mas, sem o `Kulturkampf` pelos direitos religiosos para a política, que Thomas Assheuer chama de "convincente combinação da exportação de democracia e neoliberalismo", também George W. Bush não teria obtido a maioria.

A mentalidade do núcleo duro do "cristão renascido" é cunhada por um fundamentalismo baseado numa interpretação verbal das sagradas escrituras. Esta mentalidade - tanto faz, se ela chega a nós em configuração islâmica, cristã, judaica ou hinduísta - choca com convicções fundamentais da modernidade. Em nível político, os conflitos se acendem em função da neutralidade cosmovisiva da autoridade pública, isto é, da igual liberdade religiosa para todos e de uma ciência emancipada da autoridade religiosa. Conflitos semelhantes dominaram boa parte da história moderna da Europa, e hoje eles se repetem não apenas entre o mundo ocidental e o islâmico, mas também entre grupos militantes de cidadãos religiosos e secularistas no interior de sociedades liberais. Podemos considerar estes conflitos, ou como lutas pelo poder entre a autoridade pública e movimentos religiosos, ou como conflitos entre convicções seculares e religiosas.

Visto na ótica do poder político, o Estado, cosmovisivamente neutro, pode dar-se por satisfeito com a mera adaptação das comunidades religiosas a uma liberdade religiosa, científica e juridicamente constituída. Uma adaptação caracterizou, por exemplo, a situação da Igreja católica na Europa até o Concílio Vaticano II. Mas, o Estado liberal não pode estar satisfeito com tal modus vivendi, e não apenas por razões da instabilidade de um arranjo forçado. Pois, como Estado democrático de direito, ele se orienta para uma legitimação enraizada em convicções.

Para obter esta legitimação, ele deve se apoiar em razões que, numa sociedade pluralista, devem poder ser aceitos da mesma forma por cidadãos crentes, de outra crença ou descrentes. O Estado constitucional não só deve agir numa ótica cosmovisivamente neutra, mas também subsistir em bases normativas que podem ser justificadas de maneira cosmovisivamente neutra - e isso significa: pós-metafísica. E, ante esta pretensão normativa, as comunidades religiosas não podem fazer ouvidos de mercador. Por isso, entra aqui em jogo aquele processo complementar de aprendizagem, no qual se enredam reciprocamente o lado secular e o religioso.

Na publicidade política

Em vez de se adaptar contra a vontade a coações externamente impostas, deve a religião corresponder à expectativa, normativamente fundada em seu conteúdo, de reconhecer, por suas próprias razões, a neutralidade do Estado, iguais liberdades para todas as comunidades religiosas e a independência das ciências institucionalizadas. Este passo é exitoso. Porque aqui não se trata somente da renúncia à violência política e à coação da consciência para a imposição de verdades religiosas, porém de conseguir que a consciência religiosa se torne reflexiva ante a necessidade de relacionar as próprias verdades de fé, tanto com os poderes de crenças concorrentes, como com o monopólio das ciências sobre a produção de um saber mundial.

Inversamente, em todo o caso também deve o Estado secular que, com sua legitimação jurídico-racional, se apresenta como figura do espírito e não apenas como poder empírico, permitir que lhe perguntem se ele por acaso não impõe aos cidadãos religiosos obrigações assimétricas. Pois o Estado liberal garante a liberdade equânime no exercício da religião não só para manter a paz e a ordem, mas pelas razões normativas de proteger a liberdade de fé e de consciência de cada um. Por isso, ele não pode exigir dos seus cidadãos religiosos o que é inconciliável com uma existência conduzida autenticamente "pela fé".

Pode o Estado prescrever a estes cidadãos uma cisão de sua existência em partes públicas e privadas, pela obrigação, por exemplo, de justificar seus posicionamentos na publicidade política unicamente por razões não-religiosas? Ou a obrigação do uso de uma linguagem cosmovisivamente neutra só deve valer para políticos que tomam decisões juridicamente vinculadoras nas instituições estatais? Se, no entanto, posicionamentos religiosamente fundados têm garantido um lugar legítimo na vida pública e política, então é oficialmente reconhecido, pela comunidade política, que manifestações religiosas podem oferecer uma significativa contribuição para o esclarecimento de questões fundamentais controversas.

Isso não levanta apenas a questão da posterior tradução de seu conteúdo racional numa linguagem publicamente acessível. Antes deve o Estado liberal esperar, também de seus cidadãos seculares, que eles, em seu papel de cidadãos do Estado, não podem encarar manifestações religiosas como simplesmente irracionais. Em face da difusão de um naturalismo que apenas crê na ciência, isso não é nenhum pressuposto evidente. A recusa do secularismo é tudo, menos algo trivial. Ela atinge novamente nossa questão inicial, sobre como a razão moderna, que se despediu da metafísica, deve entender-se em sua relação com a religião. Por certo também não é trivial a expectativa de que a teologia se envolva seriamente com o pensamento pós-metafísico.

O discurso de Regensburg

Com seu discurso realizado há pouco em Regensburg, o Papa Bento XVI imprimiu à velha controvérsia sobre a helenização e des-helenização do cristianismo uma inesperada virada crítica da modernidade. Ele também deu uma resposta negativa à questão, se a teologia cristã deve esfalfar-se com os desafios da razão moderna pós-metafísica. O Papa apela para a síntese entre a metafísica grega e a fé bíblica, efetuada de Agostinho até Tomás [de Aquino], e contesta implicitamente que haja boas razões para a polarização entre fé e ciência, faticamente iniciada na modernidade européia. Embora ele critique a concepção de que "se deva novamente retornar para trás do iluminismo e abandonar as concepções da modernidade", ele resiste à força dos argumentos, ante os quais se rompeu aquela síntese cosmovisiva.

O passo de Duns Scotus ao Nominalismo não conduz, no entanto, somente ao Deus protestante da vontade, mas também aplaina o caminho para a ciência natural moderna. A virada crítica de Kant conduz não só a uma crítica dos argumentos da existência de Deus, mas também ao conceito de autonomia, que realmente tornou possível nossa moderna concepção de direito e de democracia. E o historicismo não conduz compulsivamente a uma autonegação relativista da razão. Como filho do Esclarecimento, ele nos torna sensíveis para diferenças culturais e nos protege contra a super-universalização de juízos dependentes de um contexto. Fides quaerens intellectum - por mais louvável que seja a busca pela racionalidade da fé, não me parece nada útil excluir da genealogia da "razão comum" de crentes, descrentes e diversamente crentes aqueles três impulsos de des-helenização, que contribuíram para a autocompreensão da razão secular.