"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 31 de outubro de 2015

Estagnação secular

Se o destino do capitalismo é marcado pela acumulação de capital e pela expansão econômica, o que significa entrar numa etapa de estagnação secular? 

Por Alejandro Nadal

A estagnação é resultado das contradições internas do capital e não um produto de choques externos - Foto de Rubén/flickr
O tema da estagnação secular ganhou destaque com uma alusão feita por Lawrence Summers, economista-chave do establishment, em 2013. Mas esta referência conduz necessariamente a uma reflexão mais séria sobre a evolução de uma economia capitalista, para além dos mitos e dogmas em que continua a acreditar Summers.
Em 1938, Alvin Hansen introduziu esta noção no seu livro sobre a recuperação econômica depois da Grande Depressão. Para Hansen, a essência da estagnação secular é composta por recuperações doentes que morrem na infância e depressões que se alimentam a si próprias e que deixam atrás de si um rasto de desemprego. Parece que Hansen estava a falar hoje sobre a crise e a recuperação muito frágil.
Na atualidade, a muito débil recuperação é atribuída com frequência à errada política macroeconômica adotada para enfrentar a crise, em especial à política de austeridade na Europa. Mas os efeitos tão profundos da crise são um sinal de que as suas raízes estão na tendência de longo prazo das economias capitalistas e não tanto num problema de conjuntura (a crise das hipotecas sub-prime).
A visão de Hansen sobre a evolução da economia norte-americana baseia-se numa perspectiva de longo prazo. No século XIX a expansão da fronteira para o oeste sustentou o investimento e a acumulação: o crescimento da rede ferroviária proporcionou um espaço adequado à expansão do investimento. No final desse século a extensão da fronteira esgotou-se e o investimento começou a transitar para outra onda de inovações. A máquina a vapor deu lugar ao complexo automóvel e à eletrificação e arrancou outro ciclo de acumulação de capital. Durante a década dos anos 1920-29 estas inovações mantiveram a procura e o crescimento, mas a sua capacidade para conservar o dinamismo da economia foi-se esgotando gradualmente. Um fator adicional foi a queda na taxa de crescimento demográfico. O detonador da crise de 1929 esteve nas finanças e na especulação, mas os efeitos abarcaram toda a economia. A razão é que as raízes da crise eram mais profundas e relacionavam-se com o esgotamento destas indústrias como estímulo do crescimento.
Se as raízes da crise têm a ver com fenómenos de longo prazo, como a acumulação de capital, isso significa que devemos centrar a atenção em variáveis como a taxa de lucro e as estruturas de mercado. Uma referência chave para pensar a crise atual é a obra de Josef Steindl. O seu livroMaturidade e estagnação no capitalismo americano foi publicado num momento (1952) em que era pouco usual invocar as leis da dinâmica capitalista para examinar o tema da estagnação.
A obra de Steindl é de grande relevância por ligar a teoria do investimento (um tema macroeconómico) com temas de organização industrial (a nível de ramo de atividade). Na sua análise, a tendência para a concentração do poder económico e para a consolidação de oligopólios concentrados em quase todos os ramos de atividade económica conduz a níveis cada vez mais fortes de capacidade ociosa, o que reforça a queda do investimento na economia real. O círculo vicioso fecha-se quando a redução no investimento restringe ainda mais a pressão competitiva e recrudesce a tendência para a concentração.
Este processo tem duas consequências de crescente concentração de poder económico. Primeiro, promove a redução de salários, porque a classe capitalista reduz custos para contra-balançar a queda dos lucros. Isto é um grande motor da desigualdade que observamos na economia global na atualidade e uma fonte da deficiência crónica na procura agregada. Segundo, impulsiona-se a expansão do capital financeiro que procura oportunidades de rentabilidade na especulação. Aqui encontramos uma das razões pelas quais o capital financeiro se separou por completo das necessidades do capital industrial.
O processo de globalização é mais complexo do que deixa ver a análise de Steindl. Mas os altíssimos níveis de capacidade instalada ociosa na indústria mundial (que atinge níveis de 30-40 por cento em média) parecem corroborar as suas posições. E a presença cada vez mais frequente de bolhas (episódios de inflação nos preços dos ativos), como mecanismo para mitigar a deficiência crónica na procura agregada, também parece confirmar em linhas gerais a sua análise sobre a fragilidade financeira (que antecipa a análise de Minsky). A crise vem quando as bolhas já não servem para financiar ou reciclar dívidas.
A lição é que os desequilíbrios macroeconómicos não se resolvem de forma automática no capitalismo. A estagnação é resultado das contradições internas do capital e não um produto de choques externos.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada

Eduardo Cunha, a bancada BBB e a ideologia anti-neomalthusiana


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Só amanhece o dia para o qual estamos acordados”
(Henry Thoreau, do livro Walden)

151030

Diante da fraqueza do governo federal e da crise no seio das forças políticas de esquerda, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e a bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) aproveitam para avançar com uma pauta conservadora, num ritmo como nunca se viu antes na história deste país. Acuado por inúmeras denúncias de corrupção e a possibilidade de cassação, o presidente da Câmara corre contra o tempo para deixar consolidada na legislação brasileira sua pegada regressiva e tradicionalista, o que terá impacto na economia, na sociedade e no meio ambiente.
Num país que tem mais de 150 mil mortes por ano por causas externas (Alves e Manetta, 2014), a comissão especial que analisava mudanças no Estatuto do Desarmamento, aprovou o Projeto de Lei 3722, de 2007, que busca estender o direito ao porte de arma a diversas categorias, incluindo parlamentares, fazendeiros, caminhoneiros, taxistas, etc. Na prática, o Projeto acaba com o Estatuto do Desarmamento. Como mostrou Bedinelli (2015): “A se tomar como base o que aconteceu com a redução da maioridade penal, aprovada em agosto deste ano, a aprovação deverá ocorrer sem maiores problemas. Se passar, a lei ainda segue para o Senado”.
Num país que promoveu o genocídio das populações indígenas e onde os europeus (especialmente portugueses guiados pela Cruz de Malta) ocuparam as terras dos povos que chegaram anteriormente no continente, a PEC 215, pretende transferir do Executivo para o Congresso o poder de demarcar terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação. Os parlamentares não querem aprimorar a Constituição, mas dar um golpe nela. Como escreveu Eliane Brum (2015): “Falta espaço para a produção de alimentos no país? Tudo indica que não. Num país com essa quantidade de terras destinada à agropecuária e com essa concentração de terras na mão de poucos, afirmar que o problema do desenvolvimento são os povos indígenas só não é mais ridículo do que Kátia Abreu, a latifundiária que diz não existir mais latifúndio no Brasil e hoje ministra da Agricultura, afirmar que ‘o problema é que os índios saíram da floresta e passaram a descer na área de produção’. Os índios, esses invasores do mundo alheio. Mas é assim que a história vai sendo distorcida ao ser contada para a população”.
Num país em que a familia patriarcal, de perfil melancólico, pode ser caracterizada na seguinte frase de Paulo Prado: “Pai soturno, mulher submissa, filhos aterrados”, os parlamentares, liderados pela bancada BBB, aprovaram em comissão especial da Câmara, o texto que define como família apenas o núcleo formado a partir da união entre um homem e uma mulher. A Comissão Especial da Diversidade Sexual do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil manifestou-se contra o Estatuto da Família (PL 6.583/2013): “A referida definição, ao excluir do conceito de família as uniões homoafetivas, é discriminatória, excludente e homofóbica e, via de consequência, escancaradamente inconstitucional. Trata-se de uma manobra política na vã tentativa de afrontar as decisões judiciais que incluíram no âmbito da tutela jurídica as famílias constituídas por pessoas do mesmo sexo”.
Num país em que o número de gravidez indesejada é muito alto, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, dia 21/10, o Projeto de Lei 5.069/13, do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que modifica a Lei de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual (Lei 12.845/13) e acrescenta o art. 127-A no Decreto-Lei nº. 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), regulando o atendimento às mulheres que foram vítimas de estupro. Ou seja, resgatando as políticas pronatalistas da era do Estado Novo de Vargas, parlamentares da atual legislatura discutem se o profissional de saúde deve ou não dar informações à vítima sobre seu direito ao aborto, e se a mulher deve ou não ser obrigada a fazer um exame de corpo de delito. A CCJ decidiu manter o direito à informação, mas introduziu a obrigatoriedade de registro de ocorrência e exame de corpo de delito.
Na justificativa do Projeto de Lei 5.069/13, o deputado Cunha alega que: “A legalização do aborto vem sendo imposta a todo o mundo por organizações internacionais inspiradas por uma ideologia neo-maltusiana de controle populacional, e financiadas por fundações norte-americanas ligadas a interesses super-capitalistas”.
Esta argumentação descabida e intempestiva, infelizmente, encontra guarida na mitologia de que a redução das taxas de fecundidade dos países não desenvolvidos é fruto do maquiavelismo dos ricos que querem “reduzir o número de pobres ao invés de acabar com a pobreza” ou desejam “diminuir o número de comensais e não aumentar o banquete”. Também a ideologia positivista e desenvolvimentista (“governar é povoar”) considera que a grandeza de um país depende do tamanho expressivo da população. Na ideologia dos governos militares o lema era: “levar os homens sem terra para as terras sem homens”, com um claro desprezo às áreas anecúmenas.
Porém, é impossível manter um crescimento demoeconômico ilimitado em um planeta finito. Na verdade a redução do número médio de filhos por mulher é um dos componentes fundamentais da transição demográfica, que por sua vez, é uma condição essencial para o desenvolvimento humano e o progresso civilizatório. As taxas de mortalidade infantil diminuíram muito no Brasil e, aumentando a sobrevivência das crianças, as mulheres deixam de passar todo o período reprodutivo tendo filhos.
Adicionalmente, os avanços na educação, na saúde e na inserção feminina no mercado de trabalho tornou desfuncional o tamanho excessivo da prole. A redução dos óbitos e dos nascimentos, em geral, cria uma situação favorável conhecida como “bônus demográfico”. Todo país que venceu a miséria e as condições abjetas de vida experimentou o aumento da esperança de vida e a redução do tamanho das famílias. E para tanto, foi fundamental o empoderamento das mulheres.
Como já dizia o socialista francês Charles Fourier, em 1808, a emancipação da sociedade depende da emancipação feminina. Na mesma linha, a feminista e anarquista brasileira, Maria Lacerda de Moura (1887-1945) receitava: “Amem-se mais uns aos outros e não se multipliquem tanto”. Foram estas ideias progressistas que delinearam a concepção dos direitos sexuais e reprodutivos. O acesso à saúde reprodutiva é, portanto, um direito humano fundamental e não é recomendável manter uma gravidez indesejada por meio de uma gestação forçada.
De fato, as mulheres não podem ser fantoches dos interesses capitalistas e imperialistas. Muito menos devem ser marionetes dos interesses pronatalistas da ideologia tradicionalista e patriarcal. A bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) representa o que há de pior no país em termos econômicos, sociais e ambientais. Seus integrantes são contra os direitos sexuais e reprodutivos e a autonomia feminina. Em nome de combater o neomalthusianismo, a bancada BBB defende uma política pró-natalista antropocêntrica, conservadora e ecocida.
Referências:
ALVES, JED. MANETTA, A. 152.013 mortes violentas em 2012 e a redução da razão de sexo no Brasil, Ecodebate, RJ, 27/06/2014
BRUM, Eliane. Os índios e o golpe na Constituição. São Paulo, El pais, 13/04/2015
MARTINEZ-ALIER, Joan, MASJUAN, Eduard. Neo-Malthusianism Iin the Early 20th Century, Universitat Autònoma de Barcelona, International Society for Ecological Economics, Montréal 11-15 July 2004

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 30/10/2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As transições brasileiras e o fim do desenvolvimento

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

151028

O Brasil passou por diversas transições durante os últimos 200 anos, caracterizados pelo processo de desenvolvimento social e econômico. As principais transições e características são:
  • A população brasileira cresceu quase 20 vezes entre 1872 e 2010. Atingiu o máximo de crescimento nas décadas de 1950 e 1960, reduziu o ritmo a partir de 1970 e deve continuar crescendo lentamente até 2040, para, em seguida, fazer a transição para o decrescimento;
  • Os homens eram maioria da população brasileira até a década de 1930. A transição da razão de sexo ocorreu a partir de 1940, quando o sexo feminino tornou-se maioria e, progressivamente, tem aumentado o superávit de mulheres no país;
  • As mulheres vivem mais do que os homens, são maioria do eleitorado, possuem maior nível de escolaridade e já são maioria na PEA com mais de 11 anos de estudo. Elas estão fazendo a transição da exclusão para o empoderamento relativo;
  • A população urbana passou de 19 milhões, em 1950 para 161 milhões, em 2010 (de 36% para 84%). As regiões Norte e Centro-Oeste são as que mais crescem. A transição urbana foi acompanhada pela concentração da população nos municípios com mais de 100 mil habitantes e o interior aumentando a participação em relação às cidades litorâneas.
  • Existe um processo de transição epidemiológica e de declínio das taxas de mortalidade e natalidade, sendo que a transição demográfica deve continuar até a inversão das duas curvas (TBN e TBM);
  • Antes de 1970, o número médio de filhos por mulher estava acima de 6 e caiu para menos de 2 filhos. Isto quer dizer que a transição da fecundidade já chegou a níveis abaixo da reposição populacional;
  • O Brasil está saindo de uma estrutura etária jovem para uma estrutura adulta e caminha para uma estrutura etária envelhecida.
  • A razão de dependência era alta entre os jovens e baixa entre os idosos, porém vai se inverte nas próximas décadas. Á partir do final da década de 2030 o número de habitantes de 65 anos e mais será maior do que o de habitantes de 0 a 15 anos.
  • Cresce o número de domicílios com 5 ou mais cômodos e se reduz o número médio de pessoas em cada moradia, ao mesmo tempo em que se reduz o tamanho das famílias e aumenta a diversidade dos arranjos familiares;
  • O Brasil tem conseguido reduzir as taxas de pobreza, desde 1994 e possibilitado um processo de mobilidade social ascendente com o crescimento das parcelas classificadas como “classe média”; Mas este processo está em perigo de ser revertido com empobrecimento geral do país;
  • A população branca passou de 54% em 1980 para 48% em 2010, deixando de ser maioria da população. No mesmo período, as pessoas que se declaram pardas (mestiças) passou de 39% para 43% e as pessoas que se declaram pretas passou de 6% para 7,6%. O Brasil caminha para uma maioria mestiça na população;
  • O Brasil tinha, em 1974/75 mais pessoas com déficit de peso do que obesas. Mas em 2008/09 já havia cerca de 50% das pessoas com excesso de peso e cerca de 15% em situação de obesidade;
  • Os católicos sempre foram maioria da população brasileira. Em 1970, havia 92% de católicos e 5% de evangélicos, sendo que estes números passaram para 74% e 16% no ano 2000. Os evangélicos já representam mais de 22% das filiações religiosas em 2010 e continuam crescendo.
Em síntese: o Brasil está:
  1. Mais urbano;
  2. Ficando mais feminino e com maior autonomia das mulheres;
  3. Mais concentrado em grandes cidades (100 mil ou +);
  4. Mais interiorano;
  5. Vivendo mais e mudanças no padrão de mortalidade;
  6. Mais envelhecido;
  7. Caminhando para o decrescimento populacional;
  8. Com menos pessoas por domicílio;
  9. Com maior diversidade dos arranjos familiares;
  10. Menos hipergâmico e mais hipogâmico;
  11. Crescimento da classe média até 2013, mas com empobrecimento desde então;
  12. Com redução do superávit ambiental e biodiversidade;
  13. Mais miscigenado;
  14. Mais gordo;
  15. Mais evangélico;
  16. Passando do bônus para o ônus demográfico;
  17. Passando de país emergente para submergente.
Em termos de desenvolvimento humano houve muitos avanços nos últimos 200 anos. Mas mesmo antes de se completar os dois séculos da independência (2022) o modelo de desenvolvimento encontra-se em crise terminal. Pode ser que o Brasil tenha chegado ao fim da linha, entrando numa fase de estagnação secular ou de retrocesso no desenvolvimento econômico e social. Ver referências abaixo:
Referências:
ALVES, JED. As transições sociais, demográficas e econômicas no Brasil, SCRIBD, 15/10/2015
ALVES, JED. O desperdício do bônus demográfico e o fim do desenvolvimento do Brasil. Campinas, “VI Programa de Capacitação: População, Cidades e Políticas Sociais”, NEPO/UNICAMP, 19/10/2015http://www.nepo.unicamp.br/eventos/2015/capacitacao2015.html

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 28/10/2015

domingo, 25 de outubro de 2015

Saskia Sassen: "Os novos fluxos migratórios emanam de uma perda massiva do habitat"

A socióloga, Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais em 2013, argumenta que há agora um novo conjunto de migração com epicentro na região do Mediterrâneo, no Mar de Andaman e na América Central.
"A coisa mais importante do meu ponto de vista, é que as causas não são tanto a busca de uma vida melhor, mas conflitos assassinos"
"A crescente instabilidade e a pobreza extrema em muitas partes da África Subsaariana, e a proliferação de mini-conflitos no Oriente Médio e na África Oriental, têm empurrado o fenômeno a novas alturas"
-sociologist Saskia-Sassen_entrevista
Entrevista com a socióloga Saskia Sassen, especialista em globalização, migração e estudo da sociologia do espaço urbano. Atualmente ocupa a Cátedra Robert S. Lynd de Sociologia na Universidade de Columbia e membro da Comissão de Pensamento Global daquela instituição. Ela também é professora visitante na Escola de Economia e Ciência Política de Londres. Sassen foi premiada com o Prêmio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais em 2013 por suas contribuições para a compreensão do fenômeno da globalização e da sociologia urbana.

Ao analisar a atual "crise de refugiados" na Europa, somos confrontados com mais um desses ciclos descritos em Imigrantes e cidadãos, da migração aberta à migração forçada, das sociedades receptivas a criminalização dos imigrantes?
Continuamos a usar termos como imigrantes, emigrantes e refugiados. Esta linguagem reflete muito do que está acontecendo. Mas a minha leitura da situação me diz que estamos testemunhando o surgimento de um novo fenômeno que descreve uma história mais complexa. Eu prefiro o termo "enorme perda de habitat" para descrever o que está acontecendo agora.
A guerra se destaca como o fator mais visível, mas a grilagem de terras, desertificação ou aumento dos níveis de água estão enterrando todos os tipos de áreas residenciais estão ajudando a conduzir as pessoas que procuram não tanto uma vida melhor; mas, a própria sobrevivência. Em Expulsões eu faço uma descrição detalhada das massas crescentes de terra e água que estão praticamente mortas e isso está encolhendo nosso habitat global.
Além disso, o aumento da corrente de refugiados é um fenômeno diferente, tanto em termos de tamanho e origem. Refugiados que fogem da guerra e da devastação: a guerra na Síria, conflitos no Afeganistão, Somália, Líbia e em outras partes do Oriente e do Norte de África, e a ditadura brutal na Eritreia. Norte da Nigéria e de outras áreas de conflito na África Ocidental também estão produzindo refugiados, embora em menor escala. Então, esses novos fluxos diferem de migrações tradicionais que ainda estão sendo experimentadas, porque muitas vezes não há nada aonde voltar.
Estamos, então, diante de um novo fenômeno migratório e de um tipo muito diferente de imigrante
O imigrante tem sido uma figura familiar em nossa história ocidental: referimo-nos a qualquer um em busca de uma vida melhor. Ele também tem sido o exemplo mais conhecido de pessoas que se deslocam. Refugiados e deslocados são geralmente vistos como algo muito diferente, vítimas de forças superiores, almas derrotadas a mercê da misericórdia, ou da falta dela, dos governos, e muitas vezes raptados por muitos anos em acampamentos. E depois há o fenômeno do exílio na História europeia: na maior parte até mesmo personalidades proeminentes que inclusive ora foram poderosas, bem recebidos e acomodados nas principais capitais europeias. Eles vieram para lutar por poder regressar aos seus países de origem.
A realidade no terreno é muitas vezes mais confusa do que estes tipos de migrantes claramente definidos. Mas há um elemento que se destaca na diversidade de pessoas em movimento: a imagem difundida em tempo de paz da nossa história ocidental tem sido e é o imigrante ansiosos para trabalhar, para iniciar seu próprio negócio, para enviar dinheiro para "casa" muitas vezes imaginando capaz de retornar ao seu país, sua "casa" de origem, para visitar ou até mesmo ficar para sempre.
Hoje há um novo conjunto de migração: os seus epicentros são o Mediterrâneo, o Mar Andaman e na América Central. Não é a Rússia, a Alemanha ou a Itália, que estão enviando migrantes
E o mais importante, do meu ponto de vista, é que as causas não são tanto a busca de uma vida melhor, mas assassinos conflitos, guerras, recolha maciça de terra para plantações, destruindo habitat através da contaminação de terra e água, secas, desertificação, o ressurgimento de mineração de metais necessários para a nossa revolução eletrônica. As famílias e as comunidades estão sendo expulsas de seu território de origem. Há menos "casa" para voltar.
Estes fluxos de pessoas desesperadas são uma indicação mais provável de aumentar do que diminuir processos emergentes. Esses fluxos podem muito bem ser o começo de novas histórias e geografias feitas por homens, mulheres e crianças em fuga desesperada de condições insustentáveis. Para eles, não há casa para voltar, sua casa tornou-se uma plantação, em uma zona de guerra, uma cidade particular em um deserto ou em uma planície de inundação.
Portanto, uma forma de encapsular as causas desta migração nova e emergente é o termo a que me referi no início: a enorme perda de habitat.
Estes movimentos migratórios novos e extremos juntam-se aos movimentos migratórios tradicionais. Convergem na travessia?
Durante décadas, tem havido navios e contrabandistas que trazem as pessoas à procura de trabalho a partir do Mediterrâneo através da Espanha e da Itália. Eles vieram e continuam a vir principalmente do Magrebe e da África sub-Sahariana e Ocidental. Eles são em sua maioria famílias migrantes comuns deixando para trás familiares, muitas vezes querendo ir para casa. Então, esses fluxos tradicionais e menores continuam hoje, principalmente através de Marrocos e das ilhas Canárias. É um grupo que tende a se ajustar a definição padrão de migração.
No entanto, uma grande diferença entre o fluxo de corrente em relação ao qual não tem sido por décadas é que o centro de gravidade deslocou-se para o Mediterrâneo Oriental. A Grécia tornou-se o elo estratégico para essas migrações. Lembre-se que já em 2015 a Grécia ultrapassou a Itália como o maior beneficiário, recebendo 68.000 refugiados sírios, em sua maioria, mas também, entre outros, afegãos e iraquianos. Até 2015, o aumento nas chegadas no mar Mediterrâneo foi sentida especialmente na Itália. Em 2014, a Itália recebeu mais de três quartos de todos os refugiados e migrantes (170.000) por mar. Por outro lado, a Grécia recebeu 43.500. Neste novo rumo dos acontecimentos, as rotas do Mediterrâneo Central e Oriental tornaram-se comparáveis ​​em tamanho.Mas em cada caso as pessoas de diferentes países. Segundo o ACNUR, aqueles que vêm para a Itália a partir de Eritreia são de 25%; Nigéria, 10%; Somália, 10%; seguido pela Síria com 7% e 6% Gâmbia. Aqueles que chegam a Grécia vêm da Síria em 57%; Afeganistão, Iraque, 22% e 5%. Estes são principalmente refugiados.
Persistem comportamentos racistas no tratamento destes fluxos, inclusive subtis. A insistência de diferenciar "refugiados" dos migrantes "econômicos", por exemplo
A questão racial tem sido sempre um problema dos fluxos migratórios e os fatores mencionados estão sempre presentes. Estas são questões que são misturadas, mas, eventualmente, acabam levando à dicotomias muito específicas. Basicamente levando a percepções positivas e negativas.
Enquanto isso, a Europa busca soluções improvisadas que hoje beiram o suborno.
Eu acho que é necessário ir para trás na estrada percorrida no que foi realmente um período muito curto ao longo de um ano e não a medida em que a Europa tem sido absolutamente incapaz. A cada passo que eles foram surpreendidos com os fatos no terreno, tendo que mudar continuamente as suas posições e condições ... E agora, o último, oferecer dois ou três mil milhões para a Turquia.
A crescente instabilidade e pobreza extrema em muitas partes da África Subsaariana, e a proliferação de mini-conflitos no Oriente Médio e na África Oriental, têm empurrado o fenômeno a novas alturas. E enquanto estamos agora a falar de milhões de refugiados, a Frontex apenas alguns meses atrás alertara que 153.000 migrantes "haviam sido detectados nas fronteiras externas da Europa." Agora é uma figura pequena, mas agora esse número representou um aumento de 149% em relação ao mesmo período de 2014, quando o total foi de 61.500, o que por sua vez representou um aumento acentuado dos anos anteriores.
Em seguida, a Europa recusou-se a lidar com o que toda a visão era uma subida constante que começou no final de 2014 ... Apenas o tempo que a Europa decidiu suspender a operação Mare Nostrum propiciando um grande número de afogamentos.
Entrevista publicada em trumanfactor.com

ENEM te sigo

O acirramento de fácil percepção vivido pelo Brasil faz de um exame de ensino médio motivo para embate político; é extremamente difícil avaliar neste momento se  as discussões são simples fato da democracia ou se são causa de um enveredamento para uma batalha de trincheira por trás do sistema democrático. E são muitas as proposições:

1. Quem organiza a prova é o Estado, portanto, a tese do privilégio de doutrina oficial é sempre convincente;

2. A educação é um ingrediente do atual acirramento da sociedade brasileira, portanto, não produz mais debates genuínos e sim defesa de posições;

3. Por fim, a massa, que tipo de massa existe, fica no meio do confronto, mas o acirramento, quando quebra a normalidade política tende a se inflamar.

A democracia para existir precisa estar distante de fins certos mais longe no tempo, ela ainda está conseguindo manter os embates intelectuais  na pluralidade e na possibilidade do encontro, no entanto o discurso já perdeu a democracia no Brasil, ele se emparedou dos dois lados em disputa, claro que a democracia na sociedade permite uma gama de opiniões por fora que servem como alerta.

Direitos humanos pertencem ao liberalismo político em dado contexto histórico, aqui não; Polícia Militar é um atraso institucional para a República, mas não se pode debater nestes termos, já se torna motivo de batalha; e o pior de tudo é a consciências ou a consciências de rebanho que vão crescendo: um rebanho enlouquecido pela citação de Simone de Beauvoir ou pela tema da redação no ENEM, do outro um rebanho marxificando a sociedade já desprezível; os dois lados já desprezam a sociedade, apenas fatos aleatórios ora interessam a uns ora a outros.

A Mulher na Presidência da República: Artigo de Câmara Cascudo em 1959

De Luis da Câmara Cascudo*
Declaro, de público e raso, que teria honra excelsa votando numa mulher para Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
Das possibilidades masculinas já temos conhecimento, mas não memória. Cada eleição acreditamos nas promessas, endoidecemos de esperanças e rompemos amizades com quem discorda do entusiasmo sonoro.
Meu sonho radioso é ver uma brasileira presidir o Brasil durante o quinquênio constitucional. Governar mesmo, quem governa sempre é a mulher.
Já me explicaram que o perigo é a Presidente apaixonar-se e deixar-se guiar pelo seu amor. Respondo que os homens também se apaixonam e se deixam guiar pelos seus amores.
Tanto a mulher é passível de influência quanto o homem. O espírito é o mesmo no plano da assimilação para o Bem e para o Mal.
A superioridade feminina está na sensibilidade recatada, na serenidade orgulhosa do sexo elevado à suprema administração, na compostura nata, congênita, natural.
O homem educa-se. A mulher nasce educada. Uma mulher grosseira é uma exceção. Um homem mal educado é uma normalidade.
As mulheres vencem o SEXO FRACO (o homem nunca, jamais, em tempo algum, foi SEXO FORTE) pela assiduidade, tenacidade, disciplina funcional, receio da punição excessiva. Para vingar-se o homem mata e a mulher chora. O homem apela para a “peixeira” e a mulher para Deus.
Imagine-se um Brasil vigiado, policiado, fiscalizado pela desconfiança de uma mulher, sacudida pelo temor do ladrão, do cínico, do atrevido e estimulada pela responsabilidade da função!…
Imagine-se a exigência moral, o cuidado na aplicação fiscal, a suspeita do peculato e a malversação dos dinheiros públicos!…
Gastar mesmo, naturalmente, gasta em vestido, perfume, cinema, cabelo, pele, unha, sapato. Não faz questão de beber, de comer e de viajar.
Não existe financista que possa comparar-se com a argúcia feminina no tocante à prestação de contas do marido. Aplicando-se a virtude ao genérico, podemos pensar no Presidente da República preparando o orçamento, abrindo créditos especiais, medindo os pedidos de verbas extraordinárias.
Pela subalternidade dos recursos financeiros que dispõe, a mulher é funcionalmente econômica, equilibrada, inesgotável de atenção para as despesas.
Arrancar dinheiro a uma mulher, Presidente da República, seria milagre. E como ninguém nesse mundo engana uma mulher (no máximo ela finge que está acreditando), não nasceu ainda um político, um financista, um técnico de imaginação fervente, nessas campanhas de “recuperação”, para enganar, ludibriar, mistificar uma mulher desconfiada…
Todos os psicólogos sabem, ou devem saber, que a mulher só se rende onde, como e quando quer. Deduzam a Presidente da República numa conferência, congresso, encontro, simpósio, debatendo assuntos inadiáveis, pondo em ação os inesgotáveis meios e processos para afastar, dispersar, ladear os problemas que não podem ser resolvidos, imediata e formalmente.
Imagine-se a batalha que será a escolha de uma MISS BRASIL quando o júri for composto exclusivamente pelo mesmo sexo das candidatas!… Mulher enxerga defeitos onde nós, homens, vemos belezas sugestivas.
No ponto de vista da História Universal não preciso recordar as grandes mulheres que governaram países e os tornaram grandes, prósperos e felizes.
Tem a mulher superioridades notórias. Pode desmaiar, chorar, ter chiliques nas horas supremas, comovendo, arrebatando, emocionando assistências amigas ou adversárias. Quem é que vai agredir, insultar, vilipendiar um nome feminino na consciência fria da intenção?
Era uma grande experiência para o Brasil. Para todo continente e países insulares.
Declaro que serei o primeiro cabo eleitoral.
Falta a candidata!…


A República, Natal, 17 de Outubro de 1959