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domingo, 25 de janeiro de 2026

A juventude e a copa



Os melhores anos são os de Copa. Não há calendário, não há boletos, não há sogra — só a eternidade de noventa minutos. A Copa é a nossa Olimpíada pagã, o Coliseu sem sangue, a guerra com bandeirinhas e narração de rádio. Amamos o futebol como os antigos amavam a arena: é a batalha civilizada, o grito que substitui a espada. Um gol — apenas um — e a multidão experimenta a glória de conquistar o mundo sem sair da arquibancada.


Ao jovem, oferece-se o esporte como quem oferece o próprio destino. A juventude é dinamite pura, é o corpo ainda sem boletim médico, sem joelho que dói na chuva. Enquanto o médico, o juiz e o escritor dependem da lenta fermentação da maturidade, o atleta vive do relâmpago — se não explode cedo, vira lembrança. O jogador precisa conter a juventude como quem segura um cavalo selvagem: se solta demais, se perde; se prende demais, morre no estábulo.


Em 2010, dava para chegar à final da Copa da África do Sul. Dava, sim senhor. Ronaldinho Gaúcho, aos 30 anos — um dos pés mais geniais que já pisaram num gramado — não foi. Adriano, o Imperador, aos 28, também não. E Dunga, com sua cara de quem desconfia até da própria sombra, não levou Neymar, que tinha 18. Esperou que o menino amadurecesse. Eis a obviedade: Neymar era mais maduro aos 18 do que aos 30. A maturidade, no futebol, às vezes vem de chuteira e vai embora de terno.


Mas o que acontece com a juventude brasileira? Eis a pergunta que ecoa como um apito final. Sonha com o camarote, mas boceja diante do caderno. Quer a fama, mas não quer o sacrifício que a sustenta. Compare-se, sem clubismo, a obsessão de um Cristiano Ronaldo, a disciplina quase monástica de um Messi. Aqui, muitas vezes, o talento vira rede social antes de virar história. Ronaldinho, gênio absoluto, parou de correr aos 26 — e o país aplaudiu o drible, mas ignorou a desistência.


Por que nossos jovens não resistem à fama? Eis o drama. A celebridade chega antes do caráter, e o aplauso vira travesseiro. Vinícius Júnior se crê um deus — e talvez o digam a ele todos os dias. Mas fora do campo, meus caros, o jogador é apenas um cidadão comum de chuteiras guardadas. Não é escritor, não é cientista, não é arquiteto do mundo. Se o aplauso é a única identidade, o silêncio vira tragédia.


Tantas promessas renegadas. Pato, Ganso, Keirrison, Gabigol… nomes que já foram futuro e hoje são nota de rodapé. O Brasil é o país onde o craque nasce pronto e se aposenta cedo demais. Aqui, o talento brota como mato — e morre como flor sem água.


Os jovens do Brasil não respeitam o tempo. Querem o troféu sem o treino, a manchete sem a obra, o milhão sem o método. Não veem vantagem em aprender, e esquecem que a única virtude realmente acessível à juventude é justamente aquela que menos seduz: a disciplina. Sem ela, a glória é só um domingo à tarde — bonito, barulhento e, na segunda-feira, já esquecido.

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