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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Conheça os microempreendedores que transformam saberes tradicionais em negócios sustentáveis

Iniciativas apoiadas pelo Projeto Negócio Raiz mostram como microempreendedores do Norte e do Nordeste estão transformando conhecimentos ancestrais em negócios sustentáveis que unem inovação, identidade cultural e geração de renda

Cristiane Alves Neves, da CL Saboaria Artesanal Divulgação


O Brasil vive um novo ciclo de fortalecimento do microempreendedorismo. Em 2025, mais de 4,6 milhões de pequenos negócios foram abertos no país, segundo dados do Sebrae, com os Microempreendedores Individuais (MEIs) respondendo por cerca de 77% das novas formalizações. No Norte e no Nordeste, onde a economia criativa, a sociobiodiversidade e os saberes tradicionais fazem parte do cotidiano, o avanço do empreendedorismo vem acompanhado de um movimento que une inovação, identidade cultural e geração de renda.

Iniciativas apoiadas pelo Projeto Negócio Raiz mostram como microempreendedores do Norte e do Nordeste estão transformando conhecimentos ancestrais em negócios sustentáveis que unem inovação, identidade cultural e geração de renda

De acordo com Sidnei Pereira, responsável pelo relacionamento com empreendedores na Aliança Empreendedora, a valorização dos saberes tradicionais é um elemento central para o fortalecimento dos pequenos negócios. “A gente entende que os saberes tradicionais são únicos. Cada território, cada pessoa, cada família tem o seu jeito de fazer, o seu jeito de ver aquela produção, aquele produto, aquela matéria-prima”. 

Ainda na visão de Sidnei, um dos principais desafios enfrentados pelos microempreendedores é transformar esse conhecimento em um negócio economicamente viável. “O grande desafio é precificar de forma adequada, considerando  que esses produtos carregam um valor que a indústria não oferece: o saber do território. É essencial mostrar que o mercado e o conhecimento ancestral caminham juntos”, comenta. 

Ele ainda destaca que o impacto desse modelo vai além da renda. “A preservação da cultura é um diferencial para os pequenos empreendedores, porque eles vivenciam a cultura diariamente. Conhecem esse saber desde seus antepassados, que o transmitem de geração em geração, o modo de viver, de produzir, de consumir e de realizar práticas que hoje são comercializadas por esses empreendedores”. 

Na avaliação do especialista, “existe um mercado consumidor que, há alguns anos, busca se aproximar dessas culturas — conhecer, levar para casa e para suas regiões um pouco das tradições dos lugares que visitam e onde acabam consumindo produtos e serviços. É um  consumidor interessado em vivenciar a cultura não apenas por meio do turismo, mas por meio  da compra de produtos e  serviços que carregam essa identidade”, complementa. 

Projeto incentiva microempreendedorismo e os saberes tradicionais 

Iniciativas voltadas à sociobioeconomia vêm ganhando espaço ao apoiar empreendedores que transformam conhecimentos ancestrais, práticas artesanais e ingredientes regionais em modelos de negócio sustentáveis. Um deles é o Projeto Negócio Raiz, realizado pela Aliança Empreendedora, com apoio da Youth Business International (YBI) e financiamento da Standard Chartered Foundation  voltado ao fortalecimento econômico de jovens entre 18 e 35 anos.

Projeto atua no apoio a microempreendedores do Norte e Nordeste e oferece formação online e presencial, mentoria, aceleração e investimento financeiro. Já foram realizados dois ciclos e, no segundo, realizado ao longo de 2025, o projeto ampliou sua atuação com 18 turmas e atividades presenciais que ocorreram em municípios do Pará, como Ananindeua, Belém, Marituba e Moju, e na Bahia, em Salvador e Sobradinho, beneficiando 1.078 microempreendedores. Ao término do projeto, os oito microempreendedores de maior destaque foram beneficiados com um capital semente de R$ 3 mil cada, recurso voltado ao fortalecimento e à expansão de seus negócios. Em 2024, o primeiro ciclo já havia engajado mais de 800 participantes. 

Quem transforma saberes ancestrais em oportunidades de negócio

Em um país marcado pela diversidade cultural e ambiental, o microempreendedorismo enraizado nos territórios se consolida como uma alternativa para transformar saberes ancestrais em geração de renda, impacto social e desenvolvimento sustentável. A seguir, conheça alguns microempreendedores que valorizam esses saberes tradicionais para promover transformação em suas comunidades.

No Norte, entre os empreendedores reconhecidos no Projeto Negócio Raiz está Flávia Amorim, da Flauer Loja, de Belém (PA), criadora de uma marca voltada à moda autoral e à produção artesanal de acessórios, que utiliza sementes, miçangas, resíduos e outros materiais diversos. “Meu negócio é um espaço de conexão. É sobre moda, criatividade, cultura e vivências com consciência. Os acessórios são minha entrega artística, peças que vão além das tendências, são símbolos do lugar onde foram criadas e feitas à mão, com pertencimento , é continuação de herança ancestral ”, afirma.

Já Wendele do Nascimento Azevedo, fundador da Karua, de Caruaru (PE), atua conectando artesãos nordestinos a novos mercados por meio da tecnologia. “A Karua é mais do que um marketplace. Ela conecta a cultura nordestina ao mundo. Por meio da tecnologia, ampliamos as vendas dos artesãos e os ajudamos a conquistar novos mercados, seja por meio de feiras, editais e premiações, para que cada vez mais possam viver exclusivamente da sua arte, ser bem remunerados por isso e receber o devido reconhecimento do mercado", comenta.  

Ainda na na região Norte, esse movimento de valorização do trabalho artesanal também se reflete na trajetória de Cristiane Alves Neves, da CL Saboaria Artesanal, de Maués (AM), que vê no fortalecimento do seu negócio a oportunidade de estruturar melhor a produção e ampliar o impacto do seu trabalho. Com o recurso recebido no Negócio Raiz, ela pretende montar um ateliê, criando um espaço adequado para a armazenagem dos produtos.

“Sempre me esforcei muito, atravessei o rio várias vezes para assistir às aulas em uma comunidade próxima. Na minha casa não tinha internet. Hoje, conseguimos comprar um Starlink”, relata. Cristiane destaca o compromisso ambiental presente em sua produção. “Além de utilizar óleos usados para fazer sabão caseiro, procuro, por meio do meu trabalho, trazer as propriedades da nossa biodiversidade e contribuir para preservá-las. Nossos rios e matas são belíssimos e não podemos perdê-los”. 

A microempreendedora também aposta no resgate de saberes tradicionais aliados à inovação. “No meu negócio, procuro resgatar receitas antigas que estavam se perdendo, como o sabão caseiro de anil, e sempre busco novidades também. Trabalho com sabão em pó e líquido e com sabonetes artesanais, nos quais trago as propriedades das plantas, argilas, óleos vegetais e óleos essenciais da nossa região”, completa. 

Outro destaque é Raphael Nobre, do Coimbra Alimentos da Amazônia, negócio de Manaus (AM) que trabalha com biscoitos produzidos a partir de ingredientes regionais, como cupuaçu e castanha do Pará. “A gente usa o sabor amazônico para trazer essa pegada da importância da preservação ambiental, do descarte correto das embalagens e das políticas públicas voltadas à preservação ambiental, porque esses sabores são exclusivos da Amazônia e, sem ela, esses sabores não existem. Por isso, entra a questão da democratização, para que todos tenham acesso e reconheçam o valor. Usamos os sabores amazônicos para chamar a atenção, levantar essa bandeira e mostrar que só faz sentido ser um negócio se for ambientalmente correto”, diz.  

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