Pesquisa analisou a variação de microrganismos que compõem o chamado jardim das saúvas-limão, local onde essas espécies, também conhecidas como cortadeiras, cultivam os fungos usados como alimento; estudo abre caminho para compreender o impacto das mudanças do ambiente na saúde de outras espécies
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| Trilha de formigas saúva-limão --- crédito: Mariana Barcoto |
A busca por alimento é uma motivação central em qualquer sociedade animal. Muitas vezes, é ela que define como uma comunidade irá se organizar, a necessidade de se manter em um mesmo local, e as chances de sobrevivência de um grupo em relação a outro. Nós, humanos, iniciamos nossa história como nômades, que se movimentavam conforme a disponibilidade de alimento em uma região. Há cerca de 12 mil anos, alguns grupos davam os primeiros passos nos processos agrícolas que, mais tarde, seriam responsáveis por garantir o assentamento de populações inteiras.
Uma história parecida, porém muito mais antiga, é a das formigas que cultivam fungos, sendo a saúva a mais conhecida entre elas. Há 66 milhões de anos, com os recursos escassos no planeta Terra dada a colisão do meteoro responsável pela extinção dos dinossauros, esses pequenos insetos passaram a acrescentar fungos na dieta, como forma de garantir sua sobrevivência. E, pouco menos de 30 milhões de anos atrás, elas começaram a cultivar esses fungos, nos chamados jardins de fungo em suas colônias, que seguem sendo o único alimento desses insetos até o dia de hoje.
Além da habilidade para a agricultura, as saúvas também compartilham de outra semelhança com os seres humanos: quando sua dieta muda, a microbiota da colônia também é alterada – similar às modificações da nossa microbiota intestinal. Esse foi um dos resultados do doutorado de Mariana de Oliveira Barcoto, realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Biologia Celular, Molecular e Microbiologia), no Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, sob orientação do professor André Rodrigues e com o apoio de um grupo multidisciplinar de pesquisadores, reunindo biólogos, físicos e químicos.
Durante o projeto, Mariana também desenvolveu um novo protocolo para estudar como diferentes dietas afetam a composição e a estrutura do fungo e os impactos dessas modificações para as colônias de saúvas-limão. O estudo foi publicado no artigo “You are what your fungus eats: diet shapes the microbial garden of a fungus-growing ant”, na revista científica NPJ biofilms and microbiomes, do grupo Nature. Além de ampliar o conhecimento sobre esses animais, o resultado também abre espaço para considerações sobre a sobrevivência e a saúde das colônias de formigas em ambientes afetados por mudanças climáticas e pela alteração do uso do solo – cenários que impactam diretamente no tipo e na disponibilidade de alimento que será levado para o fungo.
Também chamadas de cortadeiras, a saúva-limão muitas vezes é tida como praga em lavouras e florestas plantadas por serem responsáveis por “cortar” grandes quantidades de folhas, deixando galhos vazios e terrenos aparados para trás. O detalhe ímpar dessa espécie é que tudo aquilo que elas cortam e levam para a colônia não é para alimentação própria. Na verdade, toda a matéria orgânica coletada em solo serve para cultivar o fungo que, este sim, será o alimento das formigas.
Esse fungo, que representa a única fonte de alimento da saúva-limão, é mantido em um setor da colônia chamado de “jardim”. Além da função para alimentação, todo esse setor funciona como um aparelho digestivo externo das formigas, uma vez que é ali que ocorre a digestão das plantas forrageadas. Por conta disso, o jardim das formigas é composto por uma combinação do fungo cultivado, bactérias e diferentes enzimas, todos responsáveis por garantir um bom funcionamento do processo digestivo e, consequentemente, manter a saúde da colônia que terá aquilo como fonte de energia.
Em humanos, a composição da microbiota intestinal, que também é constituída por uma série de microrganismos responsáveis pela digestão dos alimentos, sofre mudanças de acordo com aquilo que comemos. Uma alimentação rica em fibras, por exemplo, faz com que bactérias capazes de digerir esse tipo de alimento se proliferem com mais facilidade. Uma alimentação desequilibrada, por sua vez, pode comprometer o sistema imunológico e aumentar as chances de doenças.



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