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quinta-feira, 12 de março de 2026

A violência política está distribuída no País inteiro e vítimas são políticos profissionais e ativistas

Angela Alonso é responsável pelo estudo que mapeia a violência política no Brasil e que contabilizou um total de 760 mortes em duas décadas

A violência política geralmente é planejada, e a grande maioria dos crimes efetivados é por arma de fogo – Foto: senivpetro/Freepik


Jornal da USP - Como qualquer outra forma de violência, a violência política também deixa um rastro de sangue, lágrimas e sofrimento. Em duas décadas, o Brasil registrou 760 mortes por essa forma de violência, de acordo com um estudo da USP e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), num levantamento que levou em conta a violência cometida contra políticos profissionais – incluindo titulares, candidatos e aqueles que deixaram o cargo ou a candidatura em até cinco anos antes do crime – e ativistas (membros de sindicatos, participantes em movimentos sociais, organizações várias e associações civis). Estamos falando de uma média anual de 61,4 casos, o que representa um total de 5,1 por mês, dados que, por si só, enfrentam dificuldades ao serem coletados, pois alguns deles não possuem sequer processos judiciais. “Quando os corpos desaparecem, não há processos”, afirma  a professora Angela Alonso, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), pesquisadora do Cebrap e responsável pelo projeto.

Diante dessa dificuldade na hora de coletar os dados, optou-se então pela realização de um levantamento dos casos publicados ou divulgados na grande imprensa, num período que cobre 20 anos (desde a chegada do primeiro governo de esquerda ao poder após o fim da ditadura até a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro). Trata-se, segundo Angela, de um levantamento inédito, porque os que já foram feitos no País são restritos a algumas regiões e dirigidos a políticos profissionais, enquanto os dados relativos aos ativistas praticamente não existiam. “Este é o primeiro estudo no Brasil a levantar simultaneamente as tentativas de assassinatos, ameaças e assassinatos de ativistas e políticos profissionais”, diz a professora e pesquisadora, que aponta diferenças nas ameaças que pesam sobre “os que fazem política dentro e os que fazem política fora da instituição”. Os ativistas, que fazem parte desse último grupo, estão sob um risco alto em determinadas regiões do País, enquanto os políticos locais são muito vulneráveis e, portanto, vítimas frequentes de violência política. “Os políticos profissionais também são objetos de violência política letal – 63,1% dos casos dizem respeito aos políticos, a maioria esmagadora, praticamente dois terços desse universo; já os episódios de violência contra ativistas respondem por cerca de 36%.”

Diferenças regionais

A pesquisa também identificou diferenças regionais em relação à violência política, com os Estados de Roraima e Mato Grosso liderando as estatísticas de crimes políticos em relação aos demais estados da Federação. Por outro lado, existem cidades que saem bastante da média, como Lajeado do Bugre, no Rio Grande do Sul, ou Santo Expedito, no Estado de São Paulo. Angela revela ainda que a violência política está mais concentrada em áreas urbanas do que em rurais, ao contrário do que se poderia pensar, “mas ela está distribuída no País inteiro”, ressalta. “Ela está em todos os estados, durante todos esses 20 anos que o estudo recobriu.”

Outro dado a ser destacado é o de que a violência política geralmente é planejada, e a grande maioria – quase 90% dos crimes efetivados – foi por arma de fogo. “Não é um crime que se possa caracterizar imediatamente como vingança, como é o caso dos crimes de violência direta. O que a gente mais encontrou foi essa situação do tiro e, sobretudo, do tiro de execução, o tiro na cabeça, no coração, a distância, por pessoas que não têm relação direta com a vítima” – o que deixa margem para que se suponha serem crimes cometidos por profissionais, os chamados pistoleiros de aluguel. “O que chama atenção, além do fato de serem execuções na maior parte dos casos, é que muitos deles acontecem à luz do dia, no meio da cidade, dentro de prédios públicos, isso não é uma coisa inusual.” Também é menos comum esses tipos de crime acontecerem em grandes metrópoles – a tendência é se concentrarem em pequenas cidades, confinados, portanto, ao circuito da política local.

Motivos dos crimes

Angela ressalta duas conclusões importantes a respeito do estudo. Uma delas está ligada aos motivos que levam ao assassinato de um político profissional ou de um ativista. Estes últimos são vítimas principalmente em razão dos conflitos de terra, enquanto aqueles morrem mais por razões políticas mesmo, ou seja, conflitos em torno de questões institucionais ou de candidaturas. “A gente tem populações diferentes que sofrem riscos diferentes.” A segunda conclusão tem a ver com variações por governo, com a maior incidência da violência inscrita no universo dos governos de direita em comparação aos governos de esquerda.

“Eu acho que isso tem uma conclusão importante de política pública, que o discurso de mais segurança que os governos de direita normalmente enfatizam não está protegendo ativistas nem políticos; pelo contrário, a gente tem aí um aumento muito expressivo, a gente tem 63,3% de média de assassinatos durante o governo Temer, 51% no governo Bolsonaro, contra 21,5% no primeiro governo Lula. É uma diferença brutal entre os governos”, afirma. “Uma coisa importante que a gente pontua seria a criação de um observatório que acompanhasse esses casos, fizesse esse levantamento de maneira sistemática, de modo a identificar quais são as áreas de maior risco e criar políticas de proteção focalizadas em áreas nas quais os casos são mais frequentes.” Para finalizar, Angela diz ser possível prevenir assassinatos políticos, dado que são regidos por uma sequência lógica, obedecendo as seguintes premissas: ameaças, tentativas e, por fim, a consumação do crime.


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