Fruto de um acordo de transferência de tecnologia entre a sueca Saab e a FAB, modelo nacional do avião de caça Gripen montado pela Embraer é apresentado ao público

A indústria de defesa e aeronáutica brasileira alcançou uma importante meta com a finalização da montagem no país da primeira unidade de um avião de caça supersônico; no caso, o modelo de origem sueca F-39E Gripen. Apresentado ao público no final de março, o jato militar, um dos mais modernos e sofisticados de sua categoria, foi produzido pela Embraer em parceria com a multinacional sueca Saab, responsável pelo desenvolvimento da aeronave. O projeto recebeu apoio de uma cadeia de suprimentos formada por empresas brasileiras e estrangeiras. Contrato firmado entre a Saab e a Força Aérea Brasileira (FAB) em 2014 previu que 15 unidades do avião serão montadas na planta industrial da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista.
A compra dos jatos militares suecos faz parte do Programa FX-2 que teve por objetivo modernizar a aviação de caça brasileira. O pacote inicial previu a aquisição de 36 aeronaves supersônicas – que voam acima da velocidade do som –, sendo 28 delas tipo monoposto (para um piloto) e oito bipostos (ver Pesquisa FAPESP n° 282). Posteriormente, a FAB adicionou outras quatro unidades ao contrato. As primeiras entregas ocorreram em 2020 e até o momento 11 jatos, todos fabricados na Suécia, já foram entregues à Aeronáutica – a frota está alocada na Base Aérea de Anápolis, em Goiás. O custo da aquisição foi de US$ 4,1 bilhões (R$ 21,4 bilhões).
“Sentimos grande orgulho em desenvolver, no Brasil, a capacidade de produzir uma aeronave de caça supersônica de alta tecnologia, plenamente apta a cumprir missões de superioridade aérea e a contribuir para a defesa da soberania do nosso território”, afirmou na cerimônia de entrega do jato Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa & Segurança.
Presente ao evento, o presidente da Saab, o sueco Micael Johansson, destacou que a entrega do primeiro Gripen produzido no Brasil representa um avanço significativo para o fortalecimento industrial e tecnológico do país e o consolida como um polo exportador para o mundo. A fábrica da Embraer está preparada para produzir caças Gripen para outros países.

Sgt Bianca / Força Aérea BrasilCaça F-39E Gripen da FAB faz voo de demonstração no Rio de JaneiroSgt Bianca / Força Aérea Brasil
Com a entrega do primeiro Gripen nacional, o Brasil tornou-se o único país da América Latina com capacidade para montar esse tipo de aeronave. Com 15,2 metros (m) de comprimento, 8,6 m de largura e 4,5 m de altura, o avião é um caça multimissão sofisticado capaz de voar a 2.470 quilômetros por hora (km/h), cerca de duas vezes a velocidade do som. Tem autonomia de até duas horas e meia e alcance (capacidade de voar sem necessidade de reabastecer) de 4 mil km quando não carrega armamentos e de 1,5 mil km com armas – o modelo é dotado de mísseis, bombas e sensores de alta tecnologia, que podem atingir alvos com precisão, além do alcance visual. Moderno e versátil, o jato pode ser reabastecido em voo.
Uma das principais novidades do negócio firmado há mais de 10 anos foi o acordo de compensação comercial, industrial e tecnológica oferecido pela Saab, avaliado em US$ 9 bilhões. Esse acordo inclui o treinamento de engenheiros e pilotos brasileiros na Suécia e investimentos da companhia em instalações fabris no Brasil. Conhecido como offset, o acordo, uma imposição legal quando compras militares superam US$ 5 milhões, previu também a existência de um programa de transferência de tecnologia, a favor da FAB e de empresas do país, bem como a participação da indústria nacional, sob coordenação da Embraer, no desenvolvimento do avião.
“Sem dúvida, um aspecto importante desse negócio foi a transferência de tecnologia, que irá tornar nossa indústria aeronáutica mais competitiva. Nossos engenheiros só têm a ganhar”, avalia o engenheiro mecânico William Wolf, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O Brasil tem se destacado nesse setor, seja por fabricar jatos executivos, aviões regionais ou cargueiros militares. Agora, teremos aeronaves de outra classe”, diz Wolf, referindo-se aos caças supersônicos.
Segundo informações do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, 63 projetos de offset integram o Programa FX-2. Desde a assinatura do contrato, em 2014, cerca de 350 engenheiros brasileiros já foram treinados na Suécia e mais de 2 mil empregos diretos e indiretos foram criados no âmbito do projeto.
“A montagem do Gripen pela Embraer representa uma dupla conquista para o Brasil”, pondera o economista Marcos José Barbieri Ferreira, coordenador do Laboratório de Estudo das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp. De um lado, diz ele, há um ganho com o domínio de tecnologias aeronáuticas críticas e avançadas que se encontram no estado da arte. Do outro, o jato sueco é um produto estratégico de defesa e um instrumento importante para a garantia da soberania do país.
“Um avião de caça como o Gripen está na fronteira tecnológica da indústria aeronáutica. Ele incorpora as tecnologias e os equipamentos mais refinados do segmento aeronáutico e tem um conjunto amplo de funções militares: combate, ataque ao solo e naval, interceptação, reconhecimento, entre outras”, pontua Barbieri. Para ele, o que ocorreu foi mais do que uma simples transferência de tecnologia. “O Brasil, na verdade, participou da etapa final de desenvolvimento da aeronave [quando o negócio entre FAB e Saab foi fechado, o jato Gripen ainda estava sendo desenvolvido]. Claro que a transferência de tecnologia foi muito maior da Suécia para o Brasil, mas ela também ocorreu no sentido inverso”, afirma.
Quatro empresas instaladas no país participaram ativamente do projeto do jato da Saab. A AEL Sistemas, de Porto Alegre (RS), esteve encarregada da produção de três displays de cabine avançados, focados na consciência situacional do piloto, e do visor de capacete Helmet-Mounted Display, que passaram a fazer parte da configuração oficial da aeronave para todas as compras ao redor do mundo. A Akaer, de São José dos Campos (SP), atuou em engenharia de estruturas, desenvolvendo seções da fuselagem e das asas.
A Saab Brasil, localizada em São Bernardo do Campo (SP), produz quatro aeroestruturas, que posteriormente são montadas na Embraer e é responsável pela manutenção de sensores de guerra eletrônica e de um dos sensores do caça. Já a Atech, pertencente ao Grupo Embraer e sediada em São Paulo, incumbiu-se dos simuladores de voo e das estações de planejamento de missão.
Apesar do sucesso na transferência de tecnologia, Barbieri aponta que o acordo de compra dos jatos sofreu sobressaltos. “Os investimentos militares no país foram impactados nos últimos anos negativamente por causa de restrições orçamentárias. E o Programa Gripen acabou sofrendo com essas limitações”, argumenta.
Segundo o especialista, além de atrasos na produção das aeronaves, o Brasil teve que desistir de liderar o projeto e a montagem do modelo de dois assentos, que será usado principalmente para treinamento de pilotos da FAB – o desenvolvimento do modelo biposto F-39F Gripen havia sido encomendado pela Aeronáutica. Em maio de 2022, a FAB anunciou que os oito jatos com dois lugares previstos no contrato não seriam mais fabricados pela Embraer, mas pela Saab, na Suécia.
Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.


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