Chamavam-lhe Antônio Cangalha, integrante da família Monteiro Pereira, fundadora de Serra Negra do Norte, e não sei se o apelido lhe vinha da rigidez do corpo, da teimosia da alma, ou de ambas as coisas, que ordinariamente andam juntas. Era homem daqueles em quem a opinião cria raízes mais fundas que juazeiro em pedra; uma vez assentada, só Deus, e às vezes nem Deus, a removia.
Sucedeu isto no Seridó do Século XIX, quando as primeiras chuvas, sempre recebidas como visita régia, começavam a reconciliar a terra com o céu. O sertão, que meses antes se estendia amarelo, áspero e poeirento, vestia agora uma esperança verde, ainda tímida, mas sincera. E, como acontece nessas ocasiões solenes, os sapos tomavam posse das lagoas e dos brejos, armando concertos noturnos de uma harmonia que só eles entendem.
Ia Antônio Cangalha passando à borda de certa lagoa, quando lhe pareceu ouvir, entre coaxos e estalos d’água, uma frase nítida:
— Foi, foi, foi!
Parou o cavalo. Escutou melhor. Tornou a voz lodosa:
— Foi, foi, foi!
Antônio endireitou-se na sela, ferido no pundonor por adversário tão úmido quanto insolente, e respondeu com a gravidade de um desembargador:
— Não foi, não foi, não foi!
Os sapos, que nunca leram tratados de lógica, insistiram:
— Foi, foi!
E Antônio, que jamais precisou deles para sustentar argumento algum:
— Não foi, não foi!
Assim se travou a batalha. A lagoa de um lado; a cangalha de outro. De um lado, a natureza repetitiva; do outro, a obstinação humana, que é talvez a mais antiga das forças naturais. A noite correu inteira nesse diálogo sem progresso:
— Foi, foi!
— Não foi, não foi!
— Foi, foi!
— Não foi, não foi!
As estrelas mudaram de lugar; a lua cansou-se; o orvalho caiu; um ou outro galo ensaiou a manhã. Antônio, porém, firme no posto. Há generais que não sustentaram trincheira com semelhante constância.
Ao romper da aurora, fez-se súbito silêncio na lagoa. Calaram-se os sapos, talvez vencidos, talvez sonolentos, talvez indiferentes — que é a forma mais cruel de vitória sobre os homens teimosos.
Antônio Cangalha ergueu então a cabeça, lançou o derradeiro brado ao campo mudo:
— Não foi, não foi!
Esperou. Nada.
Sorriu com a majestade dos conquistadores, compôs o chapéu, montou melhor o cavalo e exclamou para o mundo, para os sapos ausentes e para a posteridade:
— Eu num disse que num foi?
E partiu vencedor. Se da verdade, não ouso afirmar; da teima, seguramente.



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