Um estudo divulgado nesta terça-feira pelo Observatório Fiscal Internacional aponta que o Brasil apresenta a maior concentração de riqueza da América Latina, evidenciando um cenário de forte desigualdade patrimonial no país. De acordo com o relatório, cerca de 70 multimilionários brasileiros concentram uma riqueza equivalente a um valor próximo ao Produto Interno Bruto (PIB) do Peru.
O levantamento foi conduzido por um laboratório de pesquisa sediado na Paris School of Economics, sob direção do economista Gabriel Zucman. Segundo o documento, enquanto a riqueza dos mais ricos cresce de forma acelerada, metade da população brasileira permanece com patrimônio praticamente estagnado.
Atualmente, os multimilionários brasileiros acumulam cerca de 265 bilhões de dólares. Se ampliado o recorte, esse montante chega a 556 bilhões de dólares — valor equivalente a aproximadamente um quarto do PIB nacional. Desde o ano 2000, essa riqueza cresceu quase sete vezes.
Em contraste, o estudo aponta que os 50% mais pobres da população não registraram avanços significativos em seu patrimônio ao longo do mesmo período, reforçando o quadro de concentração de renda no país.
O relatório também analisa o sistema tributário brasileiro, destacando que, embora a carga fiscal seja relativamente elevada — cerca de 33% do PIB —, ela ainda é inferior à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que gira em torno de 34%. Ainda assim, o índice brasileiro supera com folga a média da América Latina, estimada em 21,3%.
Apesar disso, o sistema tributário nacional é classificado como “fortemente regressivo”. Segundo o estudo, há predominância de impostos sobre o consumo, que incidem igualmente sobre todos os cidadãos, independentemente da renda. Esse modelo acaba penalizando proporcionalmente mais as famílias de baixa renda, que comprometem maior parte de seus ganhos com consumo básico.
Por outro lado, os tributos sobre renda e patrimônio são considerados relativamente baixos, o que contribui para a manutenção das desigualdades.
A divulgação do relatório ocorre em meio a debates sobre reformas fiscais no Brasil e no cenário internacional, especialmente sobre a tributação de grandes fortunas. O tema tem sido defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em fóruns multilaterais, como o G20, presidido pelo Brasil entre dezembro de 2023 e novembro de 2024.
Além do Brasil, o estudo examina a relação entre desigualdade e tributação em outros países da região, como Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai. A América Latina é apontada como a segunda região mais desigual do mundo, com os 10% mais ricos concentrando cerca de 60% da renda total, enquanto metade da população recebe apenas 7%.
O relatório também revela que a riqueza dos multimilionários latino-americanos alcançou aproximadamente 700 bilhões de dólares desde 2000, enquanto o crescimento patrimonial da metade mais pobre foi limitado.
Segundo os pesquisadores, a baixa carga tributária média da região — 21,3% do PIB — restringe a capacidade dos governos de investir em áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura.
Como alternativa, o estudo propõe a adoção de um imposto mínimo de 2% sobre grandes patrimônios, o que poderia gerar cerca de 24 bilhões de dólares por ano na América Latina. A medida, segundo Gabriel Zucman, ajudaria a aumentar a arrecadação e tornar o sistema tributário mais progressivo.
“Este relatório apresenta uma solução concreta para um dos principais desafios das democracias latino-americanas: a coexistência de extrema desigualdade com sistemas fiscais que não conseguem tributar adequadamente os mais ricos”, afirmou o economista em comunicado.



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