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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Calor extremo já é risco de saúde pública e exige mudança no planejamento urbano



*Por Dayse Vital


Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 489 mil mortes por ano estão associadas ao calor em todo o mundo, um número que coloca o tema entre os principais riscos ambientais à saúde. Ainda assim, essa evidência ainda não se traduziu, na mesma proporção, em mudanças estruturais no planejamento urbano. No contexto do Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, esse descompasso chama atenção para a necessidade de integrar de forma mais consistente a agenda climática às políticas de saúde e ao desenho das cidades.

Esse desafio torna-se ainda mais evidente quando se observa a evolução recente da exposição ao calor. Dados da própria Organização Mundial da Saúde mostram que entre 2000 e 2016 cerca de 125 milhões de pessoas adicionais passaram a ser expostas a ondas de calor. Esse crescimento não é apenas demográfico, mas também territorial e urbano. A concentração populacional em cidades densas, combinada à expansão de superfícies impermeáveis, cria ambientes onde o calor se acumula e permanece por mais tempo. Não por acaso, estudos consolidados mostram que temperaturas noturnas elevadas, típicas de áreas altamente urbanizadas, dificultam a recuperação fisiológica do corpo e aumentam o risco de mortalidade durante períodos prolongados de calor.

Nesse cenário, o efeito de ilha de calor se consolida como uma das expressões mais evidentes das dinâmicas urbanas contemporâneas. Conforme a OMS, áreas densamente urbanizadas podem registrar temperaturas significativamente superiores às de regiões menos ocupadas, intensificando não apenas o desconforto térmico, mas também os riscos à saúde. O calor intenso está associado ao aumento de internações por doenças cardiovasculares e respiratórias, além de agravar condições crônicas. Em cidades marcadas por desigualdades, o impacto tende a ser ainda mais concentrado, já que populações de baixa renda frequentemente vivem em áreas com menor cobertura vegetal, maior exposição solar e acesso limitado a infraestruturas capazes de mitigar o calor.

Apesar da complexidade do desafio, as evidências técnicas também indicam caminhos. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que soluções baseadas na natureza podem reduzir a temperatura urbana entre 1,5°C e 3°C. Em contextos de calor extremo, essa diferença pode representar um fator decisivo para reduzir riscos à saúde e ampliar a capacidade de resposta das cidades.

A experiência de Medellín, na Colômbia, onde corredores verdes reduziram em cerca de 2°C o efeito de ilha de calor, conforme levantamento da C40 Cities, demonstra que intervenções urbanas conseguem alterar o microclima de forma consistente. Em Barcelona, os chamados refúgios climáticos ampliam essa lógica ao tratar o calor como risco direto à saúde, oferecendo espaços públicos preparados para absorver picos de temperatura.

Além dos benefícios climáticos e sanitários, há também uma dimensão econômica nesse debate. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta que investir em resfriamento sustentável é mais barato do que lidar com os impactos do calor sobre sistemas de saúde, produtividade e infraestrutura. O calor extremo reduz a capacidade de trabalho, pressiona redes hospitalares e aumenta gastos públicos de forma contínua. Ao não incorporar o frescor como diretriz urbana, as cidades assumem um passivo crescente que tende a se agravar com o avanço das mudanças climáticas.

No Brasil, o calor urbano tende a se intensificar principalmente em áreas periféricas que concentram maior exposição ao calor e menor capacidade de adaptação, o que transforma o tema em um vetor adicional de desigualdade. Projetos que integram vegetação, manejo de água e melhoria do ambiente construído apontam caminhos possíveis e cada vez mais urgentes. O calor urbano é um determinante direto de saúde pública.. Incorporar o frescor ao planejamento urbano precisa deixar de ser uma escolha técnica; deve se tornar uma diretriz estratégica, capaz de redefinir prioridades e qualificar o modelo de desenvolvimento urbano diante de evidências já amplamente documentadas.




*Dayse Vital é Analista de Projetos na Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), instituição responsável por articular projetos estratégicos e promover soluções inovadoras para o desenvolvimento urbano sustentável da cidade, conectando planejamento, dados e políticas públicas para enfrentar desafios como mudanças climáticas, resiliência e qualidade de vida.

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