O Brasil está envelhecendo rapidamente. Estamos preparados? - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Estamos preparados?

 

Arquivo/Agência Brasil/Marcelo Camargo

Por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP


O IBGE tem divulgado um crescimento muito grande no número de idosos em nosso país. Claro que esta é uma boa notícia e se deve principalmente aos avanços da ciência e da medicina. Hoje a expectativa de vida do brasileiro é de 76,4 anos, comparada com 71 anos no início deste século. Segundo o instituto, a população com idade superior a 65 anos deve ter atingido cerca de 22 milhões de pessoas em 2025, representando aproximadamente 11% do total da população brasileira. O ritmo de crescimento anual do número de idosos é de 4,8%, o que vai nos colocar no quinto lugar entre os países com maior contingente de idosos em 2030, pressionando os sistemas de saúde e previdência.


Isso não seria um problema se a população ativa estivesse crescendo, mas quando se examinam as estatísticas verificamos que o número de pessoas na faixa dos 15 aos 64 anos vem diminuindo em termos de sua participação no total da população brasileira. Em 2025 esse número chegou a 140 milhões de pessoas, ou seja, 63% do total, mas com projeções de que essa porcentagem vai cair substancialmente. Atualmente a queda é de 1% ao ano. Há várias razões para esse baixo crescimento, mas a principal é a baixa fecundidade, hoje calculada em 1,55 filhos por mulher brasileira.


Países que passaram por processos semelhantes tiveram dificuldades. O caso clássico é do Japão, que ainda no século XX podia ostentar altas taxas anuais de crescimento de sua renda per capita. Com o rápido envelhecimento da população que aconteceu neste século, o número de idosos atingiu 36 milhões de pessoas, o que representa 30% da população do país. Com isso houve não apenas uma redução no número de trabalhadores e de consumidores, a qual impactou negativamente a economia japonesa provocando taxas muito reduzidas dos respectivos crescimentos anuais do PIB e da renda per capita. A sorte do Japão foi que, enquanto durou o bônus demográfico, o país enriqueceu e com isso se preparou para a fase atual.


No caso brasileiro, estamos nos aproximando do final do bônus demográfico. Este, quando existe, é uma dádiva para o País pois ele significa que o número de jovens (aqueles que trabalham e contribuem com a previdência) cresce mais rápido que o número de idosos (aqueles que não trabalham e precisam viver da previdência). Mas, ao contrário do Japão, nosso país nem enriqueceu e muito menos aumentou sua produtividade. O que nos levará a uma situação muito delicada do ponto de vista fiscal principalmente.


No mínimo vamos precisar de um novo sistema previdenciário e de um grande reforço nos sistemas de saúde, leia-se, do SUS. E para isso acontecer precisaríamos dispor de uma boa situação fiscal, a qual não temos.


Isto é urgente não apenas porque precisamos resolver essas questões, mas porque esses dados do agora ônus demográfico assustam os investidores internacionais. Aliás, eles acompanham esses dados com muito rigor e atenção, bem maiores que nós próprios. Isto porque ônus demográfico é sempre acompanhado de queda da produtividade nos respectivos países, o que torna o país desinteressante para investimentos estrangeiros.


O fato concreto é que somos um país que vai envelhecer sem ter antes enriquecido como fez o Japão. Não resolvemos nem os problemas educacionais, nem os de infraestrutura que impactam diretamente a produtividade do país. Somos um país que tem o péssimo hábito de não planejar quase nada e só pensamos no curto prazo. Aliás, temos o hábito de adiar ajustes e isso fará com que os efeitos do ônus demográfico sejam ainda piores.


Que bom seria se os candidatos a presidente da República revelassem seus respectivos planos para conviver com o ônus demográfico nesta próxima campanha eleitoral!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages