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quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Vício da Mentira no Povo Brasileiro



Lendo o antigo livro História do Rio Grande do Norte, de Rocha Pombo, percebi quão agressiva se mostrava, outrora, a administração colonial para com as pessoas. Juízes mancomunavam-se com rábulas — advogados sem formação regular — e desgraçavam a vida alheia; capitães-mores, por sua vez, oprimiam e massacravam as populações da província.


Dessa maneira brutal de relação entre o Estado e o indivíduo nasceu, entre nós, um temor quase hereditário diante da autoridade pública. O receio de mover uma ação judicial não raro parece eco distante do tempo em que o magistrado confiscava bens e mandava degredar para Angola. O simples recebimento de uma intimação ainda produz, em muitos espíritos, um pavor desmedido.


De semelhante caldo histórico resultou um vício penoso do nosso povo: o de querer resolver tudo pela mentira. Muitos brasileiros supõem que, se disserem a verdade inteira, perderão direitos, favores ou oportunidades. Em O Auto da Compadecida, durante o julgamento celestial, quando Cristo declara que “o tempo da mentira já passou”, João Grilo responde: “Por isso é que agora estou lascado; comigo era na mentira.” A graça da cena reside justamente em tocar uma verdade funda do caráter nacional.


Entre nós, frequentemente se busca solucionar dificuldades inventando histórias, adornando fatos ou enganando o próximo. Tal costume é dos mais nocivos à vida social. A dificuldade em ser direto e transparente produz uma desconfiança geral, que se infiltra nas instituições e nas relações cotidianas. Daí o excesso de formalidades cartorárias, a exigência interminável de documentos autenticados, a necessidade constante de provar que se é quem se diz ser.


Nem se trata de mal recente. Já nas eleições do Império havia quem se passasse por outrem, como recorda José Murilo de Carvalho em Cidadania no Brasil. O fósforo era o eleitor que votava fingindo ser outrem. Herdamos, pois, uma tradição em que a esperteza muitas vezes pareceu mais útil que a sinceridade.


Mas nenhum país prospera sobre a fraude miúda de cada dia. Enquanto a verdade for tida como ingenuidade, e a mentira como recurso legítimo de sobrevivência, continuaremos prisioneiros de nossas próprias artimanhas. O brasileiro não necessita de mais astúcia; necessita de coragem moral para falar claro. Somente então o Estado deixará de temer o povo, e o povo deixará de temer o Estado.

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