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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os “cantores” presos colocam a nação em risco



Assistia a um telejornal quando foi informado que “cantores” haviam sido presos e que eles figuravam, nos últimos dias, como os "artistas" mais ouvidos do Brasil em uma plataforma de música. Trata-se de algo grave em dois sentidos. Primeiro, pelas acusações criminais que cercam o caso. Segundo, pelo fato de pessoas com tamanha projeção cultural serem, para muitos, referências nacionais. Como considero a música um dos fenômenos mais relevantes da vida social e sequer conhecia tais “artistas”, fui levado a pesquisar quem eram e o que representavam.


É alarmante constatar que artistas amplamente celebrados por parcelas expressivas da população tenham sido presos sob acusações relacionadas a crimes graves — entre eles, suspeita de envolvimento em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado a organizações criminosas, apostas ilegais e rifas digitais. O fato, por si só, já expõe a fragilidade ética de figuras que ocupam espaço privilegiado no imaginário popular.


Mais inquietante, porém, é perceber que tais personagens sejam tratados como referências culturais. A música, entre todas as linguagens artísticas, talvez seja uma das formas mais poderosas de influência coletiva: molda comportamentos, dissemina valores, estabelece modas e legitima visões de mundo. Quando essa força simbólica é colocada nas mãos de indivíduos cuja produção se resume à vulgaridade, ao vazio estético e ao empobrecimento intelectual, o dano ultrapassa o entretenimento e alcança o tecido social.


Não se trata de defender censura nem de impor padrões elitistas de gosto. O problema reside em reconhecer que toda produção cultural carrega consequências. Quando o mercado premia apenas o grotesco, o banal e o descartável, a sociedade colhe o reflexo dessa escolha: juventudes desestimuladas ao pensamento crítico, à sensibilidade artística e à ambição intelectual.


Uma geração educada exclusivamente por esse consumo cultural tende a reproduzir superficialidade, imediatismo e desprezo pelo conhecimento. A escola, sozinha, dificilmente consegue competir com o poder formador da indústria musical e das plataformas digitais. Por isso, o debate educacional precisa incorporar com urgência a dimensão estética da formação humana.


É indispensável que escolas, secretarias de educação e o Ministério da Educação valorizem o ensino de música, história da arte e educação cultural desde os primeiros anos. Não como adorno curricular, mas como estratégia civilizatória. Ensinar a ouvir, interpretar, comparar e apreciar diferentes expressões artísticas é também ensinar cidadania.


Uma sociedade que entrega sua imaginação coletiva a figuras moralmente degradadas e artisticamente pobres corre o risco de normalizar a mediocridade. Quando pessoas sem preparo intelectual, sem compromisso ético e sem respeito pela arte acumulam tamanha influência, o prejuízo deixa de ser individual e se transforma em ameaça nacional.

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