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| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil |
Um novo estudo assinado pelos economistas Isadora Scheide Muller e Cássio da Silva Calvete conclui que o Brasil reúne condições econômicas favoráveis para reduzir a jornada de trabalho sem provocar prejuízos às empresas ou à economia nacional. A análise integra o “Dossiê: Fim da Escala 6x1 e Redução da Jornada de Trabalho” e defende que o crescimento recente da economia, aliado ao aumento da produtividade, abre espaço para uma redistribuição do tempo de trabalho.
Crescimento econômico e produtividade sustentam proposta
Segundo o levantamento, entre 2012 e 2024 o Valor Adicionado Bruto real da economia brasileira cresceu 25%, enquanto a produtividade do trabalho avançou 12% no mesmo período. Para os autores, esses números demonstram que o país produziu riqueza suficiente para viabilizar jornadas menores sem necessidade de redução salarial.
O estudo destaca ainda que esse desempenho ocorreu mesmo em meio a crises relevantes, como a recessão de 2015-2016 e os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19.
Custo da mão de obra brasileira está entre os mais baixos
Outro argumento central da pesquisa é o baixo custo do trabalho no Brasil em comparação internacional. Em 2022, o custo horário médio da mão de obra brasileira era de US$ 6,31. No Chile, país que já aprovou redução gradual da jornada para 40 horas semanais, esse valor era de US$ 13,65 — mais que o dobro do brasileiro.
Em economias desenvolvidas, os valores são ainda maiores:
- Alemanha: US$ 59,96
- França: US$ 58,98
- Itália: US$ 47,56
- Estados Unidos: US$ 43,11
- Espanha: US$ 42,11
Para os pesquisadores, isso enfraquece o argumento de que uma eventual redução da jornada geraria choque insustentável de custos para o setor produtivo.
Mercado de trabalho em recuperação
O estudo também observa melhora recente no mercado de trabalho brasileiro. A taxa de desocupação caiu para 6% em 2024, indicando ambiente mais favorável para discutir mudanças estruturais nas relações de trabalho.
Na avaliação dos autores, o debate atual já não se concentra apenas na geração de empregos, como em décadas anteriores, mas também na qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Redução pode ajudar mulheres
A pesquisa aponta ainda que jornadas menores podem contribuir para reduzir desigualdades de gênero. Isso porque mulheres seguem apresentando menor participação no mercado de trabalho, em grande parte devido à sobrecarga com tarefas domésticas e de cuidado.
Referência histórica: jornada caiu em 1988
Os autores lembram que a última redução legal da jornada no Brasil ocorreu com a Constituição de 1988, quando o limite semanal passou de 48 para 44 horas. Estudos posteriores mostraram que a medida não causou explosão do desemprego, contrariando previsões negativas feitas à época.
Para Muller e Calvete, os indicadores econômicos recentes mostram que o Brasil tem margem para avançar no debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal. Na visão deles, dividir parte dos ganhos acumulados de produtividade em forma de mais tempo livre seria uma medida socialmente justa e economicamente viável.



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