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terça-feira, 7 de abril de 2026

Paciente com doença renal crônica tem maior risco de ser hospitalizado e morrer ao contrair dengue, aponta estudo

Pesquisa analisou 5,8 milhões de casos confirmados da arbovirose no Brasil, em 2024; resultados indicam a necessidade de ações preventivas e mudanças nos protocolos de atendimento, principalmente durante epidemias, dizem especialistas

Mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue / Depositphotos.com


Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp, em colaboração com a Universidade Federal do Ceará, decidiram investigar o impacto da dengue em pacientes com o sistema imunológico comprometido em razão da doença renal crônica (DRC). Os resultados revelaram que indivíduos com DRC que contraem dengue têm até três vezes mais risco de morte, e duas vezes e meia mais chance de desenvolver uma forma grave da doença.

Doença renal crônica é um termo usado para descrever um conjunto de alterações na estrutura e na função dos rins, órgãos responsáveis por filtrar e eliminar as toxinas do organismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia que, globalmente, a condição afeta 10% da população. No Brasil, a prevalência em adultos é estimada em 6,7%, triplicando em indivíduos com 60 anos ou mais. De evolução lenta e muitas vezes assintomática, quando não tratada, a DRC pode levar à paralisação desses órgãos.

Como a dengue é uma doença de notificação compulsória, ou seja, todos os casos suspeitos ou confirmados devem ser informados ao Sistema de Informações de Agravos e Notificação (SINAN), do Ministério da Saúde, os pesquisadores escolheram fazer uma análise populacional com base nos dados registrados em 2024, ano da pior epidemia de dengue já registrada na série histórica, iniciada no ano 2000. Os resultados foram publicados em janeiro deste ano na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

Para o estudo, foram considerados apenas os casos confirmados de dengue por meio de exames laboratoriais ou avaliação clínica, com informações completas na plataforma, que totalizaram mais de 5,8 milhões de registros. Dentre esses, foram identificados os pacientes com doença renal crônica: 30.527 pessoas, ou 0,5% da amostra.

A partir da análise dos dados, comprovou-se que a dengue apresenta piores desfechos em pacientes com DRC. “Para a população geral, o óbito por dengue foi de 0,1%. Quando se considera apenas os pacientes com doença renal crônica, essa porcentagem chegou a 2,2%”, afirma o médico Gabriel Berg de Almeida, docente do Departamento de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia da Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu da Unesp e um dos autores do artigo.

Outro dado importante obtido foi em relação ao agravamento da doença. Enquanto o índice de dengue grave na população geral ficou em 0,1%, entre os pacientes com doença renal crônica foi de 1,6%. Dados corroborados pelo índice de hospitalização. “Entre os pacientes com DRC, 14% necessitaram de hospitalização. Na população geral esse índice ficou em 4%, uma diferença bem importante”, pontua Berg.

Os dados brutos, obtidos por meio da análise dos casos registrados no SINAN, indicaram uma diferença considerável na evolução da dengue em pacientes com e sem doença renal crônica. Os autores do artigo explicam, entretanto, que foi preciso considerar que o paciente renal crônico é comumente mais velho e apresenta outras comorbidades associadas, como hipertensão e diabetes, o que poderia interferir nos resultados.

Para evitar distorções, os pesquisadores utilizaram dois métodos estatísticos para o tratamento dos dados brutos, a Ponderação pelo Inverso da Probabilidade de Tratamento (IPTW), aplicada para balancear as populações de forma a se tornarem comparáveis, e a Regressão Logística Multivariada, o que permitiu visualizar que a doença renal isolada tem um impacto importante. Segundo o pesquisador, a conclusão após a análise estatística é de que a doença renal, por si só, triplica o risco de morte e aumenta em duas vezes e meia a chance de a dengue se tornar grave, independentemente de outra condição do paciente.

O professor Gabriel Berg de Almeida afirma que na literatura médica estudos já apontavam um risco maior de agravamento da dengue e óbito em doentes renais crônicos, mas nenhum com um número tão expressivo de pacientes analisados.

Diante das evidências, o estudo deixa claro que os pacientes renais crônicos precisam ser reconhecidos como uma população vulnerável durante os surtos da doença no país. Uma das propostas de ação prática feita pelos pesquisadores é a inclusão dessa população no grupo prioritário para receber a vacina contra a dengue. Outra ação sugerida é que os renais crônicos tenham prioridade nos atendimentos e sejam avaliados com rigor, seguindo o protocolo de atendimento sistematizado para pacientes com dengue.

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.

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