A Copa do Mundo, leitor, é uma dessas instituições humanas que se aproximam da religião sem o escrúpulo da eternidade. De quatro em quatro anos, o brasileiro suspende a razão, esquece o preço do feijão, perdoa os políticos e confia novamente na perna esquerda de algum rapaz de vinte anos. É uma liturgia de chuteiras. A pátria, nesses dias, deixa de ser um conceito constitucional para tornar-se um grito rouco diante da televisão.
A minha primeira Copa consciente — se é que há consciência possível em semelhante delírio — foi a de 1998. Tinha eu cinco anos, idade em que o menino ainda acredita que o mundo é governado pelo narrador a mandar o goleiro sair e reclamar quando ele não fica parado. Recordo-me da disputa de pênaltis contra a Holanda como um suplício doméstico; e da final contra a França, como uma tragédia pública. Não se perdeu apenas um jogo: perdeu-se uma ficção nacional. E o que diabos era a França?
A França venceu; mas o brasileiro não aceita derrotas simples. Necessita de conspirações, traições e apocalipses íntimos. Disse-se então que venderam o Brasil. Acusaram Zagallo como outrora acusariam Judas, e Ronaldo, pobre César de chuteiras, foi reduzido à condição de covarde epiléptico. Uns diziam que amarelou; outros, que teve dor de barriga; o meu pai apurou que viram dirigentes da França a entregar uma bola de ouro a Zagallo...
Hoje chamam Ronaldo Fenômeno com a reverência tardia que os homens dedicam aos vencedores, naquele tempo era Ronaldinho que casava toda semana. Foi naquela Copa o rapaz tratado como um desertor da pátria. Nenhum imperador romano suportaria tanto opróbrio sem mandar decapitar meia dúzia de senadores. Ronaldo, porém, fez coisa mais rara: suportou. E quatro anos depois ressuscitou no Japão, com cabelo estranho e triunfante, como certos personagens de Shakespeare que voltam do exílio para reclamar o reino.
Eu marcava os resultados dos jogos numa tabela eleitoral. Eis aí uma síntese admirável do Brasil: futebol e política impressos na mesma folha, confundindo-se como primos pobres no almoço de domingo. Na capa sorria um político cercado da família inteira — não por afeto doméstico, mas porque já os empregara a todos na Assembleia Legislativa. O eleitor via aquilo sem escândalo; afinal, no sertão daquele tempo, podia faltar CPF, mas jamais faltava título de eleitor. O Estado não conhecia o cidadão; conhecia o voto.
E a Copa vinha como um carnaval metafísico. O país inteiro enlouquecia com uma intensidade hoje quase extinta. As ruas vestiam bandeiras, os rádios berravam hinos patrióticos, e o futebol era o único assunto capaz de unir analfabetos, professores, bêbados e funcionários públicos. O Brasil não era uma nação: era uma seleção escalada em 4-4-2. Até num sítio daquele sem luz elétrica a copa tingia tudo de verde e amarelo, foi a primeira vez que vi uma TV em cores, comi pipoca bokus e tomei Coca-Cola.
Não se sabia distinguir Brasil de Flamengo, era só mais um time. Talvez por isso muita gente torcesse contra o próprio país. Uns preferiam a França ou a Argentina, como quem rejeita a caricatura em que foi transformado. Outros herdaram dos portugueses o velho desprezo pela pátria, a institucional e não a de chuteiras... A Copa no Brasil ocorre no ano da eleição presidencial e a campanha fica suspensa até o Brasil cair...
E o Romário? O Brasil de 1998 jamais perdoou a ausência do Baixinho, havia tantas crianças batizadas com o nome do craque da Copa Anterior. A derrota precisava de um fantasma, e nenhum fantasma veste melhor a camisa 11. Diziam nas esquinas, nos bares e nos programas esportivos que, com Romário, a França não ousaria levantar a taça. Talvez fosse verdade; talvez fosse apenas a necessidade sentimental de acreditar que existe um homem capaz de salvar sozinho uma pátria desarrumada.
Hoje, curiosamente, a Copa perdeu parte da antiga febre. O brasileiro já não pendura tantas bandeiras nas janelas; os meninos sabem mais dos influenciadores digitais do que dos laterais da Seleção. Talvez seja um progresso. O país amadureceu um pouco, embora tenha substituído o fanatismo futebolístico por fanatismos ainda mais ridículos. Já não brigamos por um pênalti mal marcado; brigamos por detergente, chinelo e ideologias de atacado.
O futebol, ao menos, tinha a elegância inútil da arte.



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