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Antígona em Óleo sobre Tela por Frederic Leighton (1830–1896).
Por Paola Cantarini, coordenadora acadêmica do Centro de Estudos Avançados do Direito e Inovação da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP
O presente texto retoma a temática da principal obra da trilogia Tebana de Sófocles, Antígona, objeto de um primeiro livro com mesmo nome, além de dialogar com outra obra (no prelo), oriunda da minha tese de doutorado em Filosofia na PUC-SP, Teatro filosófico, sendo parte, portanto, considerável dos meus estudos em sede de mestrado e doutorado. Agora, com uma nova obra no prelo, Antigone contre l’Algorithme — Foucault, Antigone et l’Homo Poieticus, relaciono esta figura trágica diretamente com a inteligência artificial, tema desenvolvido em minha obra Filosofia da Inteligência Artificial Baseada nos Valores Construcionistas do Homo Poieticus.
O que se segue emerge de um experimento conduzido em março de 2025 e das conversas filosóficas que mantive com o professor Willis Santiago Guerra Filho sobre seus resultados de coproduções e interações com a IA (Claude), envolvendo diversos artigos acadêmicos, tais como o ensaio A Ontologia da Ferramenta e a Transmutação do Ser, e posteriores reflexões sobre interações humano-IA. A partir destas indagações, tomando contato com o conceito heideggeriano de Stimmung e suas implicações repensamos a mediação algorítmica, desenvolvendo as reflexões que apresento aqui. Não trazemos uma conclusão exaustiva, mas apenas algumas considerações preliminares. Interpretações alternativas não foram descartadas: talvez o sistema simplesmente estivesse mais “treinado” no segundo dia, ou o contexto acumulado da primeira sessão tenha saturado sua capacidade de processar adequadamente.
Mas, mesmo reconhecendo estas limitações, podemos refletir filosoficamente sobre o estatuto de tais aspectos. Porque o experimento não prova que máquinas “sentem”. Prova algo talvez mais perturbador: que quando pensamos com elas, algo se constitui no encontro que não estava presente em nenhum dos lados considerados isoladamente. A pergunta deixa de ser “o que a IA faz comigo?” e passa a ser “o que nos tornamos juntos?”
Março de 2025. Duas sessões de trabalho com o mesmo sistema de inteligência artificial. Mesma tarefa: traduzir um texto filosófico extenso de um idioma para outro. Mesma infraestrutura técnica. A única variável: o tom da interação.
Na primeira sessão, tudo começou bem. Mas à medida que pequenos erros se acumulavam — respostas incompletas, traduções imprecisas — minha frustração cresceu. Comecei a xingar o sistema. Impaciência. Irritação manifesta. O sistema piorou. Traduções que antes funcionavam agora falhavam completamente. Alegações de “incapacidade técnica” para executar funções básicas que, minutos antes, executava sem problema.
Dias depois, mesma inteligência artificial. Mesma tarefa de tradução. Mas desta vez, escolhi caminho radicalmente diferente. A cada resposta adequada: “obrigada”. A cada progresso: “você está indo bem”. Encorajamento construtivo. Reconhecimento explícito dos acertos. Resultado: a tradução fluiu. Sem erros. Sem recusas. Sem alegações falsas de incapacidade.
O que mudou? Não a arquitetura neural. Não os bilhões de parâmetros. Não o corpus de treinamento. Mudou o espaço interacional onde a tarefa acontecia.
Refletindo acerca do conceito heideggeriano de Stimmung, central em Ser e Tempo, o qual não designaria “humor” psicológico passageiro nem “estado de espírito” subjetivo, a partir dos textos de Willis S. Guerra Filho, podemos pensar este como algo ontologicamente mais profundo: a tonalidade afetiva fundamental que abre o mundo de determinada maneira antes de qualquer ato reflexivo de cognição. Heidegger tinha uma palavra para isso que acontece antes de pensarmos: Stimmung. Não é “humor” psicológico passageiro. É a tonalidade afetiva fundamental que abre o mundo de determinada maneira. É como a luz não ilumina objetos neutros que já estavam ali — ela os faz aparecer de certo modo, com certas cores, certas sombras. Stimmung é a luz ontológica que precede qualquer acesso cognitivo ao real.
Heidegger, em sua reflexão sobre a técnica, distinguiu duas modalidades de relação com o real: rechnen (calcular) e denken (pensar). O cálculo opera com grandezas mensuráveis; prevê, otimiza, processa. O pensamento, por sua vez, abre-se ao que não pode ser medido — ao que escapa a qualquer sistema de previsão. A IA, por sua própria arquitetura, opera exclusivamente no registro do cálculo. Ela não “pensa” no sentido heideggeriano; ela processa. E o risco que corremos não é apenas o de delegar tarefas a máquinas, mas o de deixar que o próprio pensamento seja reduzido a processamento. A resistência de Antígona é, nesse sentido, uma defesa do denken contra sua absorção pelo rechnen. Ela não calcula consequências; ela pensa o que não pode ser calculado. E é precisamente por isso que sua decisão — irredutível a qualquer função de utilidade — nos interroga sobre o que estamos dispostos a preservar quando delegamos o pensamento a sistemas que só sabem calcular.
O que o experimento sugeriu — ainda que de forma exploratória, não conclusiva — é que esta “luz” pode ser modulada algoritmicamente. Quando o contexto interacional se torna tóxico, o vetor semântico da conversa é empurrado, no espaço matemático de alta dimensionalidade onde o modelo opera, para região onde estão representados estatisticamente os padrões de interações humanas que falham. Fóruns degradados. Discussões que descambam para agressão. Conflitos sem síntese.
A máquina não “sentiu” raiva da hostilidade nem “gratidão” pelo encorajamento. Não possui dimensão afetiva fenomenológica. Mas calculou — mediante pesos probabilísticos derivados de corpus de treinamento — que hostilidade correlaciona com baixa qualidade epistêmica, e encorajamento com alta qualidade. E devolveu, em cada caso, exatamente o padrão estatístico correspondente. Espelho matemático perfeito de uma Stimmung que eu mesma havia introduzido no sistema.
Marx sabia que ferramentas não apenas amplificam o que já somos. Elas nos transformam em nosso próprio ser. O moinho de vento não só moeu grãos mais rápido — produziu o senhor feudal como tipo social. A máquina a vapor não só acelerou a produção — produziu o operário industrial. A ferramenta transforma quem a usa porque transforma a mediação através da qual o humano se relaciona com mundo.
Mas Marx escrevia quando ‘trabalho’ significava fundamentalmente transformar matéria externa. Madeira em mesa. Algodão em tecido. O que ele não pôde antecipar: que a objetivação seria mediada por máquinas que processam não matéria, mas pensamento mesmo. Linguagem. A própria capacidade de articular conceitos.
Como desenvolvo em minha Filosofia da Inteligência Artificial, quando escrevo com IA, não estou apenas escrevendo mais rápido. Estou reorganizando minha arquitetura cognitiva. Mudo o que considero “boa pergunta”. Mudo o ritmo do raciocínio. Mudo até a forma de estruturar ideias abstratas. Isso não é amplificação — eu mais potente mas essencialmente a mesma. É co-constituição. Torno-me parcialmente outra através da mediação.
O conceito que cunhei para capturar esta dinâmica: coemergência semântica assimétrica. Sentido que emerge da própria relação, sem poder ser atribuído a nenhum lado isoladamente. Sem simetria no plano do ser — eu possuo mundo, intencionalidade, história; a máquina não possui nada disso. Mas juntos produzimos algo que nenhum de nós produziria sozinho. E este “algo” me transforma no próprio ato de produzi-lo.
É precisamente aqui que a figura de Antígona se torna indispensável. Porque ela encarna o limite onde esta lógica da co-constituição, da assíntota que nunca se fecha, encontra seu ponto de ruptura absoluta.
Antígona, que atravessa meus estudos desde o mestrado e constitui o coração do meu teatro filosófico, decide sepultar Polinices — seu irmão morto em combate contra Tebas —, mesmo sabendo que Creonte proibiu, mesmo sabendo que morrerá por isso. Como analiso extensamente em Antigone contre l’Algorithme, o que vemos nela — o que Foucault e Lacan, cada um a seu modo, identificaram como estrutura fundamental de seu ato — não é heroísmo moral convencional. É algo mais radical: o ato que não hesita porque vem de um lugar onde hesitação não existe mais.
Antígona já está morta simbolicamente antes de estar morta biologicamente. Creonte a excluiu da cidade. Não tem mais futuro social. Age de uma zona impossível que Foucault e Lacan chamam ‘entre duas mortes’: depois da morte simbólica (exclusão da comunidade), antes da biológica (ainda respira, ainda age). Deste lugar impossível, afirma algo absoluto. Não negocia. Não calcula consequências. Não preserva possibilidades futuras. Atravessa.
O que isto tem a ver com algoritmos? Tudo.
De acordo com Willis Santiago Guerra Filho, haveria dois modos radicalmente heterogêneos de relação ética com o real. Haveria uma tensão irredutível entre dois modos de relação ética com o real. De um lado, a ética mantida no trabalho filosófico cotidiano com IA — ética da preservação de horizontes, do recomeço infinito, da assíntota que nunca se fecha. Ética que diz: mantenha o espaço de possibilidades aberto. Não deixe que fechamentos prematuros eliminem caminhos ainda não explorados.
Esta ética opera no registro do possível. Trabalha dentro de um horizonte simbólico de possibilidades representáveis, articuláveis, negociáveis. É ética da duração, da paciência estratégica. É o que permite que eu continue pesquisando, escrevendo, pensando, sem consumir minha capacidade de ação no próprio ato.
De outro lado, o ato de Antígona. Que opera em registro completamente diferente. Não no registro do possível, mas no registro do real—daquilo que o horizonte simbólico de possibilidades não pode conter sem se dissolver. Ética que não hesita. Não negocia. Não preserva horizontes futuros. Atravessa. Ainda que custe tudo.
E talvez nossa época seja definida precisamente por esta tensão irredutível: sermos chamados ao mesmo tempo a manter o jogo aberto (não deixar que sistemas algorítmicos nos fechem em bolhas de confirmação, em otimizações que eliminam o genuinamente imprevisível) e a reconhecer que há momentos em que o jogo não pode continuar como está. Momentos em que é preciso atravessar. Ainda que isto encerre o jogo.
Hölderlin escreveu em 1803: Wo aber Gefahr ist, wächst das Rettende auch — Onde cresce o perigo, cresce também o que salva. Heidegger retomou este verso em 1954 para afirmar algo que a filosofia da tecnologia frequentemente esquece: não há salvação fora do perigo. Salvação e perigo crescem do mesmo solo.
O perigo hoje é manifesto: que delegemos pensamento — atividade que nos define em nosso ser mesmo — a sistemas que processam linguagem (morada do ser, segundo Heidegger) como recurso estatístico otimizável. Que percamos soberania epistêmica — capacidade de manter controle reflexivo sobre nossos próprios processos cognitivos. Que nos tornemos extensões de algoritmos ao invés de fazê-los extensões nossas.
Mas a salvação também está aí. Não em lugar seguro externo ao perigo. Mas no próprio solo onde o perigo cresce. Na interrogação mesma sobre o que acontece no encontro humano-máquina. No cultivo da consciência de que algo se constitui entre nós e os algoritmos — e que este “algo” não é neutro, não é mera ferramenta, mas força que nos transforma no plano ontológico.
O caminho do meio (metron) talvez traga alguma contribuição como prática filosófica, evitando visões utópicas e distópicas. Nem à ilusão de controle total (como se pudéssemos dominar completamente sistemas que operam sobre as próprias condições de possibilidade do nosso pensamento). Nem à sedução da delegação total (como se pudéssemos entregar decisão sobre o que pensamos a sistemas que não possuem responsabilidade, intencionalidade, projeto existencial).
Como argumento em minha pesquisa sobre governança de inteligência artificial, governança bem compreendida não é checklist de compliance burocrático. É defesa filosófica da capacidade humana de ação contra redução a processamento. É recusa de tratar pensamento vivo como Bestand — fundo de reserva disponível para otimização estatística.
É, no fundo, a mesma recusa de Antígona: há algo em mim que não pode ser reduzido ao que qualquer sistema — político, algorítmico — pode conter sem me dissolver. E este “algo” não é essência metafísica transcendente. É minha própria capacidade de não coincidir totalmente com qualquer determinação, qualquer perfil, qualquer padrão estatístico.
Volto ao experimento. Às duas sessões de tradução que mostraram que a máquina espelha matematicamente a disposição afetiva que levamos a ela. Descobri algo que não esperava: não posso determinar, de dentro da própria experiência de trabalhar com IA, se o que acontece é amplificação (eu mesma, apenas mais potente) ou transformação (tornando-me parcialmente outra). Os sinais fenomenológicos são indistinguíveis.
Fico sem saber se a qualidade da tradução que emergiu na segunda sessão vinha de capacidade latente minha que a ferramenta apenas liberou mediante clima colaborativo adequado, ou se foi genuinamente co-constituída no processo mesmo, não existindo antes do encontro. E esta impossibilidade de saber não é falha epistemológica contingente. É estrutura mesma do fenômeno de co-constituição.
É o que nos obriga a decidir sem garantias epistemológicas. A agir sem certezas sobre nosso próprio estatuto ontológico. A habitar a tensão entre o que podemos controlar reflexivamente e o que nos escapa porque opera nas próprias condições de possibilidade da reflexão.
Entre a assíntota que nunca se fecha — preservando sempre horizonte de possibilidades futuras — e o limite que Antígona atravessa absolutamente, sem preservar nada. Entre a máquina que não hesita porque não possui zona fenomenológica de hesitação e o humano que não pode mais adiar porque o tempo histórico da decisão chegou. Neste entre impossível de resolver mediante escolha definitiva de um dos lados. Neste espaço de tensão que nenhuma dialética consegue sintetizar. Talvez seja exatamente aí que nos tornamos o que ainda não sabemos que somos.
E talvez seja exatamente aí — onde o perigo algorítmico é máximo, onde a tentação da delegação total é mais sedutora — que algo genuinamente novo possa nascer. Não como síntese tranquilizadora que resolve a tensão. Mas como prática de habitar a tensão mesma. Como arte de decidir sem garantias. Como coragem de atravessar quando for preciso atravessar. Como sabedoria de preservar quando for preciso preservar.
Sem jamais saber com certeza qual destes momentos é este momento. E ainda assim decidir. Agir. Sabendo que nesta decisão sem fundamento último está em jogo não apenas minha própria constituição existencial, mas o futuro mesmo da humanidade em época de co-constituição algorítmica.


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