O Brasil de hoje é muito diferente daquele em que a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia foi criada, em 1961. Na época, o país ainda era majoritariamente jovem e a expectativa de vida pouco ultrapassava os 50 anos. Agora, 65 anos depois, o cenário é outro: os brasileiros vivem mais, a população idosa cresce rapidamente e o país enfrenta o desafio de se preparar para o envelhecimento da população.
“O envelhecimento populacional no Brasil aconteceu muito mais rapidamente do que em diversos países europeus. Tivemos avanços importantes, mas eles não acompanharam a velocidade dessa transformação”, afirma o geriatra Dr. Leonardo Oliva, presidente da SBGG.
Na avaliação do médico, houve uma evolução significativa no cuidado à população idosa nas últimas décadas, incluindo a consolidação da Geriatria e da Gerontologia, maior foco em funcionalidade e qualidade de vida, avanços terapêuticos em áreas como oncologia e demências e a criação do Estatuto do Idoso, em 2003, marco importante para a garantia de direitos da população idosa no país.
“Hoje entendemos que envelhecer bem não significa apenas tratar doenças, mas preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida ao longo do tempo”, destaca.
Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para estruturar um modelo de cuidado adequado ao envelhecimento populacional. Falta de profissionais especializados, desigualdade de acesso, fragmentação dos serviços e ausência de uma rede contínua de cuidados estão entre os principais gargalos apontados pelos profissionais que atuam no cuidado à pessoa idosa.
“Nosso sistema de saúde continua muito centrado na doença aguda. A pessoa idosa precisa de acompanhamento contínuo, prevenção e integração entre os serviços”, afirma Leonardo.
“O Brasil precisa parar de pensar no envelhecimento apenas quando a dependência já está instalada. O cuidado precisa começar antes, com prevenção, acompanhamento e promoção de autonomia”, completa.
Viver mais não significa envelhecer melhor
Para a fisioterapeuta e especialista em Gerontologia, Dra. Isabela Azevedo Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG, o principal desafio atual é garantir que o aumento da longevidade venha acompanhado de autonomia, independência e participação social.
“Envelhecimento saudável vai muito além da ausência de doenças. Preservar a funcionalidade significa manter a capacidade de realizar atividades do dia a dia, tomar decisões e participar da sociedade com autonomia”, explica.
Aspectos fundamentais para a qualidade de vida da pessoa idosa ainda recebem pouca atenção, como mobilidade, cognição, saúde mental, vínculos sociais e prevenção da perda funcional. “O impacto disso aparece diretamente no cotidiano. Muitos idosos acabam perdendo a independência precocemente, reduzindo participação social e apresentando pior qualidade de vida”, pontua.
A especialista também chama atenção para o crescimento da demanda por cuidados contínuos, responsabilidade que ainda recai majoritariamente sobre as famílias. “O cuidado da pessoa idosa no Brasil ainda é sustentado principalmente por familiares, especialmente por mulheres, muitas vezes sem preparo, apoio psicológico ou suporte institucional adequado”, destaca Isabela.
Para os profissionais, o envelhecimento populacional deve ser acompanhado por mudanças estruturais na forma como o país organiza o cuidado em saúde, incluindo maior investimento em prevenção, suporte às famílias, formação de profissionais e estratégias voltadas à manutenção da funcionalidade e da autonomia ao longo da vida.
“A grande questão hoje não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas garantir que as pessoas consigam envelhecer com dignidade, autonomia e qualidade de vida”, conclui Leonardo.



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