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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Dois milhões de internações em dez anos: o preço humano dos acidentes de trânsito no Brasil

O custo estimado do tratamento alcançou R$ 13,7 bilhões entre 2021 e 2025, aponta Grupo IAG Saúde



Sair de casa de moto ou de carro no Brasil continua sendo um dos atos mais arriscados da vida cotidiana. Em dez anos, mais de dois milhões de pessoas foram internadas após acidentes de trânsito e 50 mil morreram dentro dos hospitais. As mortes totais no trânsito vêm caindo, mas o número de internações cresce sem parar, revelando um problema que aleija, deixa sequelas e consome bilhões.

 

Entre 2021 e 2025, foram registradas 1.030.383 hospitalizações, além de 23.430 mortes dentro dos hospitais no mesmo período. O custo estimado do tratamento alcançou R$ 13,7 bilhões entre 2021 e 2025.

 

A cada semana, mais de 4.400 pessoas são internadas no Brasil por causa de um acidente de trânsito. Muitas chegam com fraturas graves, traumatismo craniano ou em estado crítico. Parte não sobrevive. Parte recebe alta semanas depois, mas carrega limitações que comprometem a capacidade de trabalhar, de se locomover, de retomar a vida que tinha antes.

 

Os dados do DataSUS e da Plataforma Valor Saúde by DRGBrasil, IA e Planisa, analisados para esta reportagem, revelam a dimensão real de um problema que cresce ano a ano e ainda não recebeu a resposta que merece.


MENOS MORTES, MAS MAIS FERIDOS GRAVES

 

O Brasil avançou na redução da mortalidade no trânsito. Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, o país acumulou queda de 11,7% nos óbitos por lesões de trânsito desde 2015, com 5.129 mortes a menos do que em 2014. É um progresso real, que reflete melhorias no atendimento de emergência e em algumas políticas de segurança viária.

 

Mas esse avanço convive com um fenômeno de sinal oposto: o crescimento contínuo do número de pessoas que chegam aos hospitais em decorrência de acidentes de trânsito. Em 2015, foram registradas 157.490 internações no sistema público; em 2025, esse número alcançou 229.444, um aumento de quase 46%, sem nenhum ano de redução no período.

 

Dentro desse universo de internações, 50.040 pessoas morreram nos hospitais ao longo da década, vítimas que chegaram com vida, mas não resistiram ao tratamento. A proporção de mortes entre os internados caiu levemente, reflexo de avanços médicos. Mas o crescimento no volume de internações sustenta o número absoluto de óbitos hospitalares.

 

O PERFIL DE QUEM CHEGA AO HOSPITAL

 

A vítima típica é um homem jovem, com média de idade igual a 38 anos, que chega ao hospital com fraturas nos braços, nas pernas, nos ombros ou nos pulsos. São lesões que exigem cirurgia, material ortopédico e recuperação prolongada. A permanência média supera uma semana, e a alta hospitalar frequentemente marca o início de um processo de reabilitação, não o seu fim. Para muitos, a capacidade de trabalhar, de se locomover ou de exercer atividades que antes faziam parte da rotina nunca volta ao que era.

 

MOTOCICLISTAS: OS MAIS EXPOSTOS, OS MAIS ATINGIDOS

 

Os motociclistas concentram o impacto mais expressivo. Representam cerca de 30% da frota nacional, mas respondem por 64% de todas as internações por acidente de trânsito e por quase metade das mortes hospitalares. Em dez anos, foram mais de 1,2 milhão hospitalizados no sistema público, dos quais quase 23 mil não sobreviveram.

 

O perfil é mais jovem do que a média geral: 33 anos. São, em grande parte, trabalhadores que dependem da moto como fonte de renda, entregadores, prestadores de serviço e profissionais autônomos. Para esse grupo, um acidente grave não é apenas uma crise de saúde: é também uma ruptura econômica. Semanas ou meses afastados do trabalho, sem renda, em recuperação.

 

O QUE ESSA CONTA REPRESENTA EM DINHEIRO

 

Entre 2021 e 2025, o SUS pagou R$ 1,91 bilhão aos hospitais pelo atendimento de vítimas de acidentes de trânsito, valor calculado pela tabela oficial de remuneração do sistema público. No período de dez anos analisado, de 2015 a 2025, esse total chegou a R$ 4,15 bilhões.

 

O custo hospitalar é bem diferente do valor pago pelas AIHs. Utilizando o referencial de custo hospitalar por altas desenvolvido pela Plataforma Valor DRGBrasil+IA e Planisa, o custo por internação de pacientes com trauma é de R$ 13.340,99, e o total entre 2021 e 2025 alcança R$ 13,7 bilhões.

 

COMO ESSES NÚMEROS FORAM OBTIDOS

 

Os dados desta reportagem vêm de duas fontes complementares. O DataSUS registra todas as hospitalizações financiadas pelo SUS: motivo, duração, estado e valor pago. É a base mais abrangente sobre internações no sistema público. Os dados de mortalidade geral no trânsito, incluindo mortes fora do hospital, são registrados em outra base, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), que mostra queda de 11,7% nos óbitos desde 2015.

 

A Plataforma Valor Saúde by DRGBrasil, IA e Planisa acrescenta profundidade clínica ao classificar cada internação por tipo de caso e nível de gravidade, usando a metodologia de Grupos de Diagnósticos Relacionados (DRG), adotada em sistemas de saúde de vários países. Permite estimar não apenas quantas pessoas foram internadas, mas o que aconteceu com elas e quanto o tratamento efetivamente custou. A base é majoritariamente composta por casos do SUS, 83,8% do total e 86,4% entre motociclistas.


A consistência entre as duas fontes valida a análise: em ambas, a proporção de mortes entre os internados foi muito similar, de 2,3% a 2,6% no total, e de 1,7% a 1,8% entre motociclistas.

 

O QUE OS DADOS INDICAM

 

A queda nas mortes gerais por acidente de trânsito é um avanço real e mostra que políticas de prevenção funcionam quando aplicadas com consistência. Mas a trajetória das internações conta outra história: mais pessoas chegando aos hospitais, com lesões mais graves, em estados que concentram as maiores taxas e as menores coberturas de prevenção.

 

O Maio Amarelo existe para lembrar que esse cenário não é inevitável. Os dados indicam onde o problema é mais intenso, quem são os mais afetados e quais estratégias já demonstraram eficácia. O desafio é ampliar essas soluções com escala, qualidade e continuidade.

 

Em 2025, 229.444 pessoas foram hospitalizadas por acidentes de trânsito no sistema público, o maior número já registrado. São 628 por dia, 26 por hora, uma a cada dois minutos e meio.

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