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terça-feira, 5 de maio de 2026

Morre Fernando Novais, que pôs o Brasil na historiografia do capitalismo mundial

Considerado um dos maiores nomes da historiografia brasileira, professor fez parte do notório grupo de estudos de O capital, que incluía nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti e Roberto Schwartz

Novais era cobrado por não escrever mais. Como resposta, recorria a uma frase citada pelo escritor argentino Jorge Luis Borges: “Ler, entretanto, é uma atividade posterior à de escrever: mais resignada, mais atenciosa, mais intelectual” (foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)


André Julião | Agência FAPESP – Morreu em São Paulo, na quinta-feira passada (30/4), o historiador Fernando Antonio Novais, professor aposentado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp).


Novais se notabilizou na historiografia brasileira pelo livro, decorrente de sua tese de doutorado de 1973, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808), em que mostra como a metrópole e a colônia foram impactadas pelas transformações do capitalismo na virada do século 18 para o 19.


“Ele insere o Brasil na história do capitalismo mundial, como parte dele e não como mera continuação do que ocorria na Europa. Há quem discorde, o que reforça a centralidade da obra na cultura brasileira”, afirma Francisco Alambert, professor do Departamento de História da FFLCH-USP, amigo e um de seus discípulos.


Novais fez parte do famoso grupo de leitura de O capital, que contava com nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti (1930-2021) e Roberto Schwartz.


Em entrevista à revista Pesquisa FAPESP em 2022, Novais lembrava que “a maior parte dos integrantes do grupo de leitura de O capital deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwartz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista”, contou na ocasião.


Mesmo assim, se impressionou e foi influenciado pela chamada Nova História, movimento surgido nos anos 1980 que se contrapôs à influência da teoria marxista da história. “Ele tinha críticas à Nova História, mas a estudou profundamente e a incorporou”, conta Laura de Mello e Souza, professora aposentada do Departamento de História da FFLCH-USP que foi orientada por Novais no mestrado e no doutorado.


Mello e Souza organizou com Novais o primeiro volume de História da vida privada no Brasil, coleção coordenada por ele e vista justamente como exemplo da Nova História. Além da solidez da formação e da obra, a historiadora destaca outra grande qualidade de Novais: era um excelente professor.


A opinião é compartilhada por Maria Arminda do Nascimento Arruda, membro do Conselho Superior da FAPESP e professora da FFLCH-USP, aluna de Novais na graduação em sociologia na USP. “Era um professor notável, muito celebrado pelos estudantes”, conta. “Além de um historiador notável, era sobretudo um erudito. Conhecia muita de literatura, arte, sociologia”, completa.


Novais era cobrado por não escrever mais. Como resposta, recorria a uma frase citada pelo escritor argentino Jorge Luis Borges em Uma história da infâmia, de 1935, que Novais também cita no prefácio de Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808): “Ler, entretanto, é uma atividade posterior à de escrever: mais resignada, mais atenciosa, mais intelectual”.
 

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