Neste 1º de maio, data dedicada à reflexão sobre direitos, dignidade e condições de trabalho, o debate público volta a se intensificar em torno da jornada laboral. Discute-se a redução da escala de seis para cinco dias semanais, a reorganização das 44 horas de trabalho e, ao mesmo tempo, cresce a preocupação com formas de contratação que fragilizam vínculos, como a pejotização. Em meio a essas transformações, até a própria palavra “trabalhador” parece, por vezes, ser evitada ou suavizada por termos mais neutros.
Terminamos este dia com a suprema força reflexiva da poesia. Ao ironizar o uso do termo “colaborador”, o poema revela a perda simbólica e concreta de identidade do trabalhador, reduzido, muitas vezes, a uma engrenagem silenciosa na lógica produtiva.
COLABORADORES
(Por Constância Uchôa)
Bem ali, eu enxergo um funcionário,
Mais polido dizer que colabora,
pra não ver se perder, hora por hora,
na ampulheta cruel de seu salário.
Vem vestir a camisa, sem horário,
engordar nossos cofres sem demora;
não importa pra mim se lhe explora,
nem o seu padecer, se é diário.
Numa escala cruel de 6 x 1,
agradece aos céus por ter algum
pra pagar aluguel e refeição.
Veja bem como é explorador:
Quando a vida de um trabalhador
equivale ao um minuto do patrão.


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