| Forças de segurança argentinas em Buenos Aires, em 1982. Horacio Villalobos/Corbis, via Getty Images |
Por Amanda Taub
Nem mesmo os autocratas mais capazes conseguem governar sozinhos. Vladimir Putin tem seus oligarcas russos leais. O Irã tem a Guarda Revolucionária. Viktor Orbán construiu a “autocracia eleitoral” da Hungria com a ajuda de um punhado de juízes, capangas e magnatas.
Mas o trabalho cotidiano de consolidar o poder — talvez vigiar vizinhos, intimidar juízes ou fazer desaparecer dissidentes — recai sobre um grupo muito maior de funcionários de nível médio. Até recentemente, os pesquisadores presumiam que essas pessoas cooperavam por ideologia ou medo.
Uma nova pesquisa aponta para uma explicação mais banal. O mesmo desejo de ascensão profissional que motiva funcionários em todos os lugares acaba sendo suficiente para convencer alguns burocratas a tolerar tortura, assassinato e o lento estrangulamento das instituições democráticas.
As pessoas que realizam esse trabalho sujo não precisam ser extremistas. Muitas vezes, são trabalhadores medíocres em busca de uma maneira de progredir na carreira.
A mediocridade do mal
"Construindo uma Carreira na Ditadura", um novo livro dos cientistas políticos alemães Adam Scharpf e Christian Glassel, parece uma mistura das ideias de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal" com um guia de escola de negócios sobre como tirar o máximo proveito de funcionários de baixo desempenho.
Os autores basearam sua argumentação em um arquivo incomum: dados da "Guerra Suja" argentina das décadas de 70 e 80, quando os militares publicaram as classificações de graduação, promoções e aposentadorias de todos os oficiais. Isso incluía os membros do Batalhão 601, uma unidade do exército que realizava o brutal trabalho de polícia secreta do regime, incluindo tortura e execuções extrajudiciais.
A maioria dos oficiais militares argentinos com baixo desempenho ficava para trás em relação aos seus pares e era forçada à aposentadoria. Mas o Batalhão 601 oferecia uma chance de recomeçar. Os militares com baixo desempenho podiam ser transferidos para o batalhão, conseguir promoções realizando os trabalhos mais horríveis do regime e, em seguida, retornar ao exército regular, ultrapassando os colegas que se mantinham íntegros. Eles se aposentavam com carreiras mais longas, salários mais altos e melhores pensões do que militares com desempenho semelhante que não haviam optado por esse desvio de carreira.
Quanto pior o histórico acadêmico de um oficial, maior a probabilidade de ele ingressar na unidade. Os de pior desempenho eram designados para os esquadrões mais brutais, onde as recompensas na carreira eram maiores. Um período como torturador poderia reabilitar até mesmo o oficial com o pior desempenho.
Um padrão comum
Não existem conjuntos de dados comparáveis para a maioria dos regimes, mas o padrão se repete. Scharpf e Glassel descobriram que os nazistas recrutavam homens com histórico disciplinar, “pureza racial” questionável ou falta de experiência militar para seus esquadrões móveis da morte, conhecidos como Einsatzgruppen. A NKVD de Stalin, que matou centenas de milhares de pessoas, “recrutava deliberadamente indivíduos com pouca formação acadêmica e conhecimento”, que muitas vezes não tinham mais do que o ensino fundamental.
Erica Frantz, cientista política da Universidade Estadual de Michigan, chama esses soldados rasos de "perdedores leais".
“O líder sabe que as pessoas tendem a ser mais leais se não tiverem muitas outras opções de carreira, então quando digo perdedores, estou falando literalmente”, disse ela.
Para os autocratas que vencem nas urnas e depois desmantelam os mecanismos de controle e equilíbrio por dentro, os mecanismos podem ser menos violentos, mas a lógica de contratação é a mesma. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán contava com alguns poucos leais escolhidos a dedo no topo, além de uma pequena porcentagem de ambiciosos em cargos intermediários que viam a política como o caminho para o sucesso.
Attila Vincze, pesquisador da Universidade Masaryk, estima que de 5 a 10% dos juízes húngaros da era Orbán — os "carreiristas" — faziam "o 'trabalho sujo' para progredir na carreira".
A Venezuela trilhou um caminho mais violento. Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, apoiaram-se na Guarda Nacional, que Alejandro Velasco, da Universidade de Nova York, chamou de "o degrau mais baixo das forças armadas", e nos grupos armados de civis conhecidos como "coletivos". Depois que Maduro fraudou as eleições de 2024, essas unidades mataram dezenas de apoiadores da oposição e detiveram milhares, segundo a Human Rights Watch.
O caso americano
Frantz observa que, em seu segundo mandato, o governo Trump está preenchendo forças de segurança como o ICE e o FBI com leais à administração, cujos currículos dificilmente lhes garantiriam tais cargos sob qualquer outro presidente. Isso “tende a ser algo que vemos quando um sistema já passou por uma transição para o autoritarismo”, e não em um sistema como os Estados Unidos, que ainda está passando por um retrocesso democrático, afirmou ela.
Segundo Scharpf e Glassel, a estratégia autocrática consiste em criar uma "segunda escada" para promoções, fornecer-lhe recursos generosos, sinalizar impunidade para aqueles que a sobem e baixar os critérios de admissão.
A administração parece atender a esses requisitos, mesmo que as intenções do presidente Trump sejam obscuras. O ICE está focado na imigração, mas Scharpf e Glassel veem semelhanças preocupantes entre a estratégia adotada e o histórico recente do ICE. Seu orçamento em breve será muito maior do que o de outras agências federais de segurança pública, e o governo prometeu publicamente imunidade após agentes terem matado um manifestante em Minneapolis.
Ao mesmo tempo, tornou-se mais fácil do que nunca se tornar um agente do ICE. Um ex-instrutor da academia de treinamento testemunhou que novos cadetes estão se formando apesar das preocupações generalizadas entre a equipe de treinamento de que eles "não conseguem demonstrar um sólido domínio das táticas ou da legislação necessárias para desempenhar suas funções".


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