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| Pelé abraçando Jairzinho durante a Copa de 1970 – Foto: Divulgação/FIFA |
Nesta Coluna a poetisa Constância Uchôa transforma em poesia um gol de uma final de Copa em que o Brasil foi Campeão:
O futebol talvez seja a única arte capaz de reunir, no mesmo instante, a violência do choque, a delicadeza do improviso e a eternidade da memória. Um gol pode durar poucos segundos, mas permanece vivo durante décadas, atravessando gerações como atravessam os versos de um poema antigo. Talvez por isso futebol e poesia conversem tão bem: ambos dependem da emoção, do ritmo, da surpresa e daquilo que não se explica inteiramente.
Nas cinco vezes em que o Brasil conquistou o mundo, não houve vitória por um simples 1 a 0. O futebol brasileiro nunca soube vencer discretamente. Quando ganhou, ganhou em espetáculo, em drama ou em genialidade. Em 1994, na primeira final de Copa do Mundo decidida nos pênaltis após um melancólico 0 a 0, o país inteiro sofreu diante da televisão como se cada cobrança fosse um capítulo de tragédia grega. Ainda assim, até naquela tensão havia poesia — a poesia do medo, da espera e da redenção.
Mas foi em 1958 que o Brasil descobriu definitivamente sua própria narrativa. Até então, carregávamos um sentimento de inferioridade nacional que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-latas”. O trauma de 1950 ainda habitava o imaginário brasileiro como uma assombração. O país temia o fracasso até mesmo quando parecia favorito. Faltava ao Brasil acreditar em si mesmo.
E então surgiu um garoto de 17 anos.
Edson Arantes do Nascimento vinha de Três Corações, Minas Gerais, mas parecia ter sido inventado pelos deuses do futebol para corrigir um defeito da história. Nelson Rodrigues, cronista que entendia de tragédias humanas e de epifanias esportivas, ao vê-lo jogar ainda adolescente escreveu: “Pelé parece um rei”. Não era exagero.
Na final contra a Suécia, em Estocolmo, o Brasil enfrentava não apenas os donos da casa, mas também o peso de suas inseguranças históricas. E foi justamente ali que Pelé realizou um dos gestos mais belos da história do esporte. Recebeu a bola na área, ajeitou no peito, aplicou um chapéu desconcertante no zagueiro sueco e concluiu de voleio. O lance parece impossível até hoje, mesmo sendo repetido infinitamente pelas imagens antigas e granuladas da televisão.
ANTOLÓGICO
Por Constância Uchôa
Na final de cinquenta e oito, a glória,
Nosso rei se fazia majestade,
Dezessete, seus anos de idade,
Fez o gol que nasceu pra ser história.
Ninguém nunca esqueceu essa vitória,
A Suécia em casa e à vontade,
Nilton Santos cruzou, foi de verdade,
Pra Pelé prosseguir na trajetória.
Bem na área, ajeitou bola no peito,
Deu chapéu e voleio de um jeito
Que o zagueiro ficou sem entender.
5 x 2, o Brasil ganhou a taça,
E o goleiro sueco ainda caça
Essa bola querendo defender.



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