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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Algodão agroecológico renasce no Sertão potiguar

A agricultora Mônica Alves é um exemplo dessa transformação.



Em uma pequena propriedade de 1,3 hectare em Cerro Corá, no Seridó do Rio Grande do Norte, o algodão voltou a ganhar espaço entre o milho, o feijão, a fava e a criação de gado. A retomada da cultura, antes praticamente extinta na região após o avanço do bicudo-do-algodoeiro nas décadas de 1980 e 1990, está sendo impulsionada por projetos que conectam agricultores familiares, indústria têxtil e instituições de pesquisa.


A agricultora Mônica Alves é um exemplo dessa transformação. Embora a pecuária ainda represente cerca de 60% da renda da família, o algodão agroecológico tem se consolidado como uma importante alternativa econômica. O principal atrativo está no valor pago pela produção: enquanto o quilo da pluma convencional é comercializado em torno de R$ 3, o algodão agroecológico alcança aproximadamente R$ 17 por quilo.


O cultivo acompanha o regime de chuvas da região. O plantio geralmente começa em fevereiro e a colheita se inicia no fim de maio. No entanto, a irregularidade climática segue sendo um dos maiores desafios. Segundo Mônica, a falta de um inverno regular e a maior distância entre os períodos de chuva têm dificultado a produção.


A propriedade faz parte do programa Agro Sertão, iniciativa criada em 2021 por meio de uma parceria entre instituições como a Embrapa, o Sebrae-RN, a Fundação Banco do Brasil, prefeituras municipais e o Instituto Riachuelo. Neste ciclo, o programa alcançou 181 agricultores em 16 municípios do interior potiguar, com 107 hectares cultivados com algodão agroecológico.


Desde sua criação, a iniciativa já beneficiou 247 agricultores e agricultoras, regenerou cerca de 270 hectares da Caatinga e chegou a 17 municípios do estado. Apenas em 2025, foram produzidas 36,9 toneladas de algodão agroecológico. Desde o início do projeto, a cadeia produtiva já absorveu 169 toneladas da pluma.


O modelo de produção adotado é diferente da cotonicultura tradicional. O algodão agroecológico é cultivado em pequenas áreas, consorciado com culturas alimentares como milho, feijão, fava e, em alguns casos, gergelim. Além disso, não utiliza sementes transgênicas nem defensivos químicos sintéticos, favorecendo a conservação do solo e a biodiversidade.


O bicudo-do-algodoeiro, porém, continua sendo uma ameaça. Para reduzir a pressão da praga, os produtores adotam práticas como o uso de biofertilizantes, defensivos naturais e o vazio sanitário. Após a colheita, as plantas são arrancadas e parte do material é aproveitada como alimento para os animais. Em seguida, a área permanece cerca de 90 dias sem o cultivo de algodão, interrompendo o ciclo do inseto.


Outro diferencial do projeto é a garantia de comercialização. A fiação parceira TBM compra a pluma produzida pelos agricultores, e a Riachuelo adquire o fio resultante desse processo. Segundo a empresa, toda a produção de algodão agroecológico gerada pelo programa tem compra garantida.


Apesar dos avanços, o desafio agora é ganhar escala. Atualmente, o algodão agroecológico representa menos de 1% do volume de algodão utilizado pela indústria têxtil da empresa. Ainda assim, a iniciativa demonstra que é possível recuperar uma cultura histórica do Nordeste por meio de um modelo baseado em sustentabilidade, agregação de valor e geração de renda no campo.


Se você é agricultor familiar de regiões semiáridas, o algodão agroecológico mostra que sistemas diversificados, integrados com alimentos e pecuária, podem abrir novas oportunidades de renda. Além disso, a existência de programas com assistência técnica e garantia de compra reduz os riscos de mercado e fortalece a permanência das famílias no campo. Antes de investir na cultura, procure informações sobre projetos de apoio em sua região e avalie a possibilidade de integrar o algodão ao sistema produtivo já existente na propriedade.



Fonte: Bloomberg.

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