No duelo mais interessante da primeira fase da Copa do Mundo de 2026, o Brasil estreou diante do Marrocos em uma partida que pode ser considerada histórica. De um lado, uma potência em decadência no futebol de seleções — embora ainda seja a maior campeã do mundo, com cinco títulos. Do outro, uma potência em ascensão, dona de um time atualmente mais organizado e competitivo que o brasileiro, mas que ainda apresenta fragilidades e talvez precise de mais algum tempo para alcançar uma final de Copa do Mundo.
A torcida brasileira, mal acostumada com décadas de protagonismo, apontou inúmeros defeitos na equipe e rapidamente direcionou as críticas ao treinador italiano Carlo Ancelotti. Nada, porém, que fugisse ao roteiro atual do futebol brasileiro. A realidade é que o Brasil jogou muito bem dentro das limitações que possui atualmente. Soube suportar o amplo domínio territorial e técnico dos marroquinos em vários momentos da partida e conquistou um empate valioso, que permite ajustes para os próximos jogos e mantém aberta a possibilidade de avançar às fases decisivas do torneio.
A marca mais evidente da decadência técnica do futebol brasileiro talvez seja a ausência daquilo que nós mesmos ajudamos a inventar: o meia-armador, o clássico camisa 10. Aquele jogador capaz de criar jogadas, organizar o ataque, cobrar faltas com precisão e desmontar as defesas adversárias com um passe inesperado. Hoje, o Brasil produz cada vez mais volantes e jogadores de força física, mas poucos articuladores. Contra o Marrocos, o centroavante passou mais tempo ajudando na marcação do que participando das ações ofensivas. Na Copa do Catar, em 2022, o Brasil tinha condições reais de alcançar as semifinais — afinal, faltavam apenas quatro minutos para eliminar a Croácia. Quem não se lembra? Naquele time ainda havia Neymar atuando como meia, talvez o último camisa 10 de nível internacional revelado pelo futebol brasileiro.
As mudanças promovidas por Ancelotti não surtiram o efeito esperado. A utilização de Ibañez na lateral direita, Douglas Santos na esquerda e Igor Thiago no comando do ataque não funcionou como se imaginava. O treinador também pode ter cometido um equívoco ao não convocar Beraldo após a lesão de Wesley. Para os próximos compromissos, deverá considerar alternativas. Endrick parece ser um jogador talhado para a seleção brasileira e pode oferecer mais presença ofensiva. Da mesma forma, a utilização de Danilo Santos e Rayan pode aumentar a velocidade e a capacidade de transição da equipe.
Por enquanto, resta ao torcedor brasileiro alimentar uma esperança que continua rondando a Seleção: a volta de Neymar. O Brasil necessita de um jogador capaz de pensar o jogo e criar oportunidades. Sem esse articulador, Vinícius Júnior — que desta vez atuou bem e mostrou o mesmo futebol que o consagrou no Real Madrid — e Raphinha acabam recebendo a bola em condições menos favoráveis. O atacante do Barcelona, inclusive, muitas vezes ficou sem ter para quem cruzar. O empate contra o Marrocos mostrou que o Brasil ainda é competitivo, mas também evidenciou aquilo que lhe falta para voltar a ser verdadeiramente temido: criatividade.


Nenhum comentário:
Postar um comentário