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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Democracia em transformação: o impacto da IA generativa e das redes sociais

Especialista alerta para dependência da IA generativa por jovens para tomada de decisão



A formação da consciência democrática e cidadã de crianças e adolescentes hoje vai além dos livros de história ou das conversas de mesa de jantar; ela se constrói, em tempo real, por telas, algoritmos e inteligências artificiais. De acordo com a última Pesquisa TIC Kids Online Brasil, o uso da internet para atividades informacionais aumenta com a idade: 64% dos adolescentes de 15 a 17 anos leram ou assistiram notícias online, enquanto a taxa é substancialmente menor nas idades mais jovens, correspondendo a 50% entre 13 e 14 anos, 39% entre 11 e 12 anos e 31% entre 9 e 10 anos.  


“Em um cenário em que a desinformação, a polarização e o isolamento desafiam as instituições em todo o mundo, a forma como crianças e adolescentes consomem tecnologia tornou-se um debate central para o futuro da própria educação democrática e cidadã. À medida que as mediações digitais assumem crescente relevância na formação e na construção da visão de mundo e de sociedade dos jovens, as instâncias de socialização e de debate público são reconfiguradas. Trata-se de um fator central que tensiona famílias e instituições educativas quanto à necessidade de promover o desenvolvimento do pensamento crítico, ético e responsável com as jovens gerações”, afirma Patrícia Espíndola De Lima Teixeira, psicopedagoga e Coordenadora do Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).


A pesquisa, que foi lançada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), também demonstrou que 59% dos usuários de Internet de 9 a 17 anos afirmaram que usaram ferramentas de IA generativa para fazer pesquisas escolares ou estudar, 42% para buscar informações e 21% para criar conteúdo como textos, imagens, vídeos ou códigos de programação. Além disso, 10% relataram que usaram ferramentas de IA generativa para conversar sobre problemas pessoais ou suas emoções. No caso das redes sociais, 33% das crianças de 9 a 10 anos declararam ter utilizado essas plataformas no último ano. Entre os usuários de 11 a 12 anos, a proporção foi de 63%. Já para os adolescentes de 13 a 17 anos, o percentual alcançou 89%, evidenciando uma maior participação nesses ambientes conforme o avanço da idade. No total, foram entrevistados 2.370 crianças e adolescentes e igual número de pais ou responsáveis em todo o país.


A especialista do Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista ressalta que o uso de IA generativa para conversar sobre problemas pessoais, tomadas de decisões ou lidar com as emoções acende um sinal de alerta, uma vez que se relaciona diretamente ao desenvolvimento pessoal e relacional, o que pode influenciar na leitura dos fatos do cotidiano, inclusive nos modos de veiculação das notícias e informações sociais. “Além dos riscos à privacidade, há também o perigo de respostas imprecisas influenciadas pelo chamado viés de confirmação. Nesses casos, o algoritmo tende a oferecer ao jovem conteúdos alinhados às suas expectativas, o que pode limitar a capacidade de lidar com o contraditório. Algoritmos operam em escalas massificadas e isso fragiliza a autonomia de pensamento. Dito de outro modo, os atuais cenários digitais não favorecem as bases de consciência crítica e empática, fundamentais do debate democrático”, comenta.


Patrícia defende que a superação de dependência cognitiva gerada pelo excesso de consumo digital depende da presença saudável de referenciais no mundo físico, do diálogo aberto e da criação de ambientes que possibilitem a troca de ideias e acolhimento, tanto nos ambientes educacionais quanto no núcleo familiar. “Uma importante lição para as novas gerações hiperconectadas reside em compreender no que consiste a participação democrática. Conhecer a memória histórica, as consequências políticas, a ética voltada ao bem comum e ainda, que o voto iguala a relevância de cada pessoa, independentemente de classe, raça, gênero, religião, etariedade, profissão. Acima de tudo, reside no aprendizado prático de reconhecer que as vitórias e derrotas nas urnas integram a formação política de convivência e necessidades humanas”.


Veracidade das informações


Graciele Silva de Matos, assessora de políticas sociais da Área de Solidariedade da Rede Marista explica que o desenvolvimento alfabetização digital é essencial para que os jovens aprendam a navegar com responsabilidade e a avaliar criticamente as informações que recebem, evitando a replicação automatizada de boatos. “Para que esse processo seja efetivo, a primeira atitude deve ser sempre investigar a fonte e o autor, verificando se o texto foi publicado em veículos de comunicação confiáveis e pesquisando a credibilidade, formação e experiência do profissional responsável pelo assunto”, explica.


Nesse processo de validação, deve-se também analisar criticamente o canal e o contexto por onde a informação chegou, redobrando a atenção com mensagens encaminhadas por amigos ou familiares em redes sociais. Checar a data da publicação impede que notícias antigas sejam tiradas de contexto para gerar pânico, enquanto a observação cuidadosa ajuda a discernir se o material não passa de uma piada ou meme. “Como suporte prático para essa checagem diária, existem ferramentas especializadas em fact-checking que atuam diretamente no desmonte de boatos na internet brasileira”, comenta Matos. 

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