Ontem encontrei o Nelson Gonçalves em Caicó - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ontem encontrei o Nelson Gonçalves em Caicó


Eu andava na última quinta-feira pelas ruas tortas de Caicó, eu voltava para casa a fim de assistir a abertura da Copa do Mundo, fazia muito calor, uma quentura que arde nas costas quando, de repente, avistei o cantor Nélson Gonçalves, sim, caro leitor, o Nélson Gonçalves.


Mas se o Nélson morreu há 28 anos como pode estar aqui em Caicó, foi o que me pus a perguntar. Estava caricatamente vestido o Nélson, a sua calça tinha pernas de duas cores, usava óculos escuro e era tão alto o Nélson.


Então tomei a atitude de perguntar se era realmente o Nélson Gonçalves e ele disse que sim, eu sou o Nélson Gonçalves. E por que estás aqui e não no Rio de Janeiro. – Ah, eu gosto mais daqui agora que não existo mais? Mas se não existes por que estás aqui, posso vê-lo e, com licença, peguei na sua mão e era real. Como pode?


Respondeu – Voltei, para rever os amigos que um dia, deixei a chorar de alegria... e riu, o Nélson.


Não sei se o leitor acredita em fantasmas. Eu próprio não acreditava muito neles até aquele instante. Acreditava apenas nos vivos, que são muito mais assombrosos. Há mortos discretos e vivos que fazem um barulho infernal. O Nélson, ao contrário, parecia tranquilo, quase satisfeito consigo mesmo, como um funcionário aposentado que regressa à repartição apenas para verificar se os colegas ainda cometem os mesmos erros.


— E encontraste teus amigos? — perguntei.


— Alguns. Os que morreram estão mais fáceis de achar. Os vivos vivem correndo.


Achei profunda a observação. Os mortos têm endereço certo; os vivos mudam de casa, de partido, de religião e até de opinião. O morto conserva certa estabilidade que o vivo desconhece.


Seguimos caminhando. Ninguém parecia notar a presença daquele ilustre defunto. Passamos por uma farmácia, duas igrejas e um bar. O bar foi o único lugar que despertou alguma emoção no cantor.


— Ainda existe? — perguntou ele.


— Existe.


— Então nem tudo está perdido.


Entramos. Pedi uma água; o Nélson, por motivo que não me atrevi a investigar, pediu apenas para sentir o cheiro da cachaça. Ficou alguns segundos contemplando o copo de um freguês como quem revê uma antiga namorada.


Depois saímos. O sol começava a descer lentamente sobre os telhados de Caicó. Lembrei-lhe da Copa do Mundo.


— Vais assistir aos jogos?


— Claro. Os mortos também gostam de futebol. A única diferença é que não discutimos arbitragem.


Confesso que senti uma ponta de inveja. Nada divide mais os homens do que a política; nada os reconcilia tão depressa quanto uma Copa do Mundo. Durante um mês, os sábios tornam-se técnicos, os padeiros tornam-se estrategistas e os advogados tornam-se especialistas em impedimento.


Ao chegar perto de minha casa, voltei-me para despedir-me do cantor. Mas ele já não estava ali. Sumira como surgira. Restava apenas uma leve impressão de música no ar, como se alguém tivesse acabado de fechar uma vitrola invisível.


Entrei, liguei a televisão e sentei-me diante da abertura do Mundial. Enquanto os jogadores entravam em campo, ocorreu-me uma ideia singular: talvez o futebol seja justamente isto, uma conversa entre os vivos e os mortos. Os vivos correm atrás da bola; os mortos observam das arquibancadas da memória. Uns e outros torcem pelos mesmos dribles, pelos mesmos milagres e pelas mesmas ilusões.


E se o leitor não acredita em nada do que contei, faz muito bem. Eu também não acreditaria. Mas juro que, naquele fim de tarde, ouvi ao longe uma voz rouca cantarolando que a vida é uma arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, mas eu não vi o Vinícius de Moraes. E desde então não tenho absoluta certeza de que o Nélson Gonçalves esteja morto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages