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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Percepção de qualidade de vida pesa mais que ideologia na decisão de voto, aponta livro

Percepção de qualidade de vida pesa mais que ideologia na decisão de voto, aponta livro

Autor do livro, Fábio Gomes é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre pela FGV (Ebape/RJ), especialista em Comunicação Política (ECA- -USP) e sociólogo (UFJF)


A decisão de voto no Brasil está mais ligada à experiência cotidiana do que ao alinhamento ideológico. É o que aponta o livro A Vida Antes do Voto – Reputação, bem-estar e decisão eleitoral no Brasil, do sociólogo Fábio Gomes, presidente do Instituto Informa, que será lançado em junho deste ano.
 

Com base em pesquisas quantitativas e qualitativas realizadas pelo instituto, a obra mostra que 55,6% dos eleitores preferem candidatos com boas propostas, independentemente de valores ou ideologia, enquanto 27,7% priorizam candidatos com valores pessoais semelhantes e 14,5% dizem escolher principalmente por ideologia política. Apenas 2,1% afirmam buscar candidatos alinhados a referências religiosas.
 

Os dados aparecem em um contexto mais amplo de insatisfação com a qualidade de vida. Segundo levantamento do Instituto Informa, o Brasil apresentou o menor nível de satisfação com o bem-estar entre países da América do Sul.
 

O resultado se reflete diretamente na experiência cotidiana captada pelas pesquisas qualitativas. Os relatos indicam um padrão de cansaço persistente, sensação de esforço contínuo e baixa percepção de recompensa, mesmo entre pessoas ocupadas. A rotina é marcada por jornadas extensas, tempo elevado de deslocamento e dificuldade de equilibrar trabalho, renda e qualidade de vida – fatores que ajudam a explicar por que a avaliação do bem-estar permanece baixa mesmo diante de oscilações positivas em indicadores econômicos.
 

Nesse contexto, a pressão sobre o orçamento doméstico surge como elemento central. A alta no custo de vida, especialmente de alimentos, é recorrente, assim como a percepção de que parte relevante das vagas geradas recentemente está associada a condições mais precárias – informais, temporárias ou com menor remuneração.

“O eleitor não começa no voto. Ele começa na experiência. É na insegurança, na pressão das contas e no acesso aos serviços que se forma a régua de avaliação política”, afirma Gomes.
 

Renda, serviços e segurança orientam avaliação
 

O livro evidencia que fatores como segurança, renda, saúde e estabilidade econômica funcionam como critérios centrais na avaliação de governos e candidatos. Apesar da polarização no debate público, os dados apontam convergência nas prioridades: eleitores de diferentes perfis tendem a mencionar os mesmos temas como estruturantes da vida desejada, especialmente emprego, renda, segurança e acesso a serviços.
 

O estudo também mostra que há percepção de melhora em alguns indicadores, como emprego e programas sociais, mas com ressalvas. A avaliação dominante é de que os postos de trabalho gerados são, em grande parte, precários – informais, temporários ou mal remunerados – e que o aumento do custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias.
 

“A melhora macroeconômica não é suficiente para mudar a percepção do eleitor quando ela não chega ao cotidiano. O que pesa é o que acontece no orçamento e na rotina”, afirma Gomes.
 

Descompasso entre expectativa e entrega
 

Nesse cenário, a segurança pública aparece como uma das principais preocupações e é frequentemente mencionada como condição básica para o funcionamento da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, o eleitor tende a avaliar mais a postura dos candidatos do que suas propostas técnicas, em parte devido à baixa compreensão sobre as responsabilidades de cada esfera de governo.
 

O livro também identifica uma combinação entre expectativa e desconfiança na relação com a política. Para Gomes, campanhas ainda falham em captar essa dinâmica. “Muitas vezes, a comunicação parte de respostas prontas sem entender as perguntas reais do eleitor, o que gera um descompasso entre discurso e experiência”, afirma.
 

A análise sugere que, em um cenário de baixo bem-estar, o voto tende a refletir menos posicionamentos ideológicos e mais a percepção de capacidade concreta de melhorar a vida cotidiana.



 

Fábio Gomes é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre pela FGV (Ebape/RJ), especialista em Comunicação Política (ECA- -USP) e sociólogo (UFJF). Diretor-presidente do Instituto Informa e membro da Esomar, atua há décadas em pesquisas no Brasil e no exterior. Também ministra aulas e palestras sobre comunicação, comportamento e decisão.

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