Percepção de qualidade de vida pesa mais que ideologia na decisão de voto, aponta livro
Autor do livro, Fábio Gomes é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre pela FGV (Ebape/RJ), especialista em Comunicação Política (ECA- -USP) e sociólogo (UFJF)
A decisão de voto no Brasil está mais ligada à experiência cotidiana do que ao alinhamento ideológico. É o que aponta o livro A Vida Antes do Voto – Reputação, bem-estar e decisão eleitoral no Brasil, do sociólogo Fábio Gomes, presidente do Instituto Informa, que será lançado em junho deste ano.
Com base em pesquisas quantitativas e qualitativas realizadas pelo instituto, a obra mostra que 55,6% dos eleitores preferem candidatos com boas propostas, independentemente de valores ou ideologia, enquanto 27,7% priorizam candidatos com valores pessoais semelhantes e 14,5% dizem escolher principalmente por ideologia política. Apenas 2,1% afirmam buscar candidatos alinhados a referências religiosas.
Os dados aparecem em um contexto mais amplo de insatisfação com a qualidade de vida. Segundo levantamento do Instituto Informa, o Brasil apresentou o menor nível de satisfação com o bem-estar entre países da América do Sul.
O resultado se reflete diretamente na experiência cotidiana captada pelas pesquisas qualitativas. Os relatos indicam um padrão de cansaço persistente, sensação de esforço contínuo e baixa percepção de recompensa, mesmo entre pessoas ocupadas. A rotina é marcada por jornadas extensas, tempo elevado de deslocamento e dificuldade de equilibrar trabalho, renda e qualidade de vida – fatores que ajudam a explicar por que a avaliação do bem-estar permanece baixa mesmo diante de oscilações positivas em indicadores econômicos.
Nesse contexto, a pressão sobre o orçamento doméstico surge como elemento central. A alta no custo de vida, especialmente de alimentos, é recorrente, assim como a percepção de que parte relevante das vagas geradas recentemente está associada a condições mais precárias – informais, temporárias ou com menor remuneração.
“O eleitor não começa no voto. Ele começa na experiência. É na insegurança, na pressão das contas e no acesso aos serviços que se forma a régua de avaliação política”, afirma Gomes.
O livro evidencia que fatores como segurança, renda, saúde e estabilidade econômica funcionam como critérios centrais na avaliação de governos e candidatos. Apesar da polarização no debate público, os dados apontam convergência nas prioridades: eleitores de diferentes perfis tendem a mencionar os mesmos temas como estruturantes da vida desejada, especialmente emprego, renda, segurança e acesso a serviços.
O estudo também mostra que há percepção de melhora em alguns indicadores, como emprego e programas sociais, mas com ressalvas. A avaliação dominante é de que os postos de trabalho gerados são, em grande parte, precários – informais, temporários ou mal remunerados – e que o aumento do custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias.
“A melhora macroeconômica não é suficiente para mudar a percepção do eleitor quando ela não chega ao cotidiano. O que pesa é o que acontece no orçamento e na rotina”, afirma Gomes.
Nesse cenário, a segurança pública aparece como uma das principais preocupações e é frequentemente mencionada como condição básica para o funcionamento da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, o eleitor tende a avaliar mais a postura dos candidatos do que suas propostas técnicas, em parte devido à baixa compreensão sobre as responsabilidades de cada esfera de governo.
O livro também identifica uma combinação entre expectativa e desconfiança na relação com a política. Para Gomes, campanhas ainda falham em captar essa dinâmica. “Muitas vezes, a comunicação parte de respostas prontas sem entender as perguntas reais do eleitor, o que gera um descompasso entre discurso e experiência”, afirma.
A análise sugere que, em um cenário de baixo bem-estar, o voto tende a refletir menos posicionamentos ideológicos e mais a percepção de capacidade concreta de melhorar a vida cotidiana.
Fábio Gomes é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre pela FGV (Ebape/RJ), especialista em Comunicação Política (ECA- -USP) e sociólogo (UFJF). Diretor-presidente do Instituto Informa e membro da Esomar, atua há décadas em pesquisas no Brasil e no exterior. Também ministra aulas e palestras sobre comunicação, comportamento e decisão.


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