Por Felipe Oliveira
A reforma tributária já foi aprovada. A regulamentação avança e o cronograma de implementação está definido. Ainda assim, muitas empresas continuam tratando as mudanças como um problema distante.
Enquanto boa parte do mercado concentra atenção nas futuras alíquotas, existe uma questão menos discutida e potencialmente mais perigosa: os contratos assinados hoje podem gerar perdas financeiras significativas quando as novas regras entrarem em vigor.
O problema não está apenas nos tributos. Está na forma como empresas estão precificando produtos, negociando serviços, estruturando contratos de longo prazo e projetando margens futuras sem considerar um ambiente tributário que será substancialmente diferente daquele existente atualmente.
A dimensão da transformação ajuda a explicar a preocupação. Segundo estudo do Banco Mundial, o sistema brasileiro figura há anos entre os mais complexos do mundo em termos de conformidade tributária, exigindo milhares de horas anuais para cumprimento de obrigações fiscais. A reforma foi concebida justamente para simplificar esse ambiente, substituindo diversos tributos por um modelo baseado no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) (World Bank Group. Doing Business: Paying Taxes. Washington, D.C.: World Bank, última edição disponível).
Empresas de diferentes setores enfrentarão alterações na forma de apuração, aproveitamento de créditos, composição de custos e formação de preços. Em alguns segmentos, o efeito poderá ser positivo. Em outros, a carga efetiva pode aumentar significativamente, exigindo revisão completa da estratégia comercial.
O desafio é que muitos contratos firmados atualmente possuem vigência de vários anos e foram elaborados considerando uma realidade tributária que está em processo de transformação. Uma negociação aparentemente vantajosa hoje pode se tornar um problema financeiro amanhã.
É justamente por isso que a reforma tributária deixou de ser um tema exclusivo dos departamentos fiscais. Ela passou a ser uma questão estratégica.
Um levantamento realizado pela Deloitte com executivos de diversos países mostrou que as empresas mais preparadas para grandes mudanças regulatórias são aquelas que iniciam processos de adaptação com antecedência, revisando contratos, modelos operacionais e projeções financeiras antes da entrada em vigor das novas regras (Deloitte. Tax Transformation Trends Survey. Londres: Deloitte, edição mais recente).
Essa antecipação é especialmente importante porque a reforma brasileira prevê um longo período de transição. Durante anos, empresas conviverão simultaneamente com o sistema atual e com o novo modelo tributário. Na prática, isso significa lidar com diferentes regras, metodologias de cálculo, impactos de créditos e mudanças graduais na carga fiscal.
O risco não está apenas em pagar mais impostos. O risco está em tomar decisões empresariais baseadas em premissas que deixarão de existir.
Imagine uma empresa que assina contratos de fornecimento com valores fixos e margens reduzidas. Se a estrutura tributária aplicável àquela operação sofrer alterações relevantes durante a vigência contratual, parte da rentabilidade inicialmente prevista pode desaparecer.
O mesmo raciocínio vale para contratos de prestação de serviços, locações, concessões, franquias, operações imobiliárias e acordos comerciais de longo prazo.
Muitas organizações ainda enxergam a reforma tributária como um evento futuro. Na realidade, ela já influencia decisões que estão sendo tomadas neste momento.
A diferença é que os efeitos financeiros dessas escolhas podem demorar alguns anos para aparecer. Por isso, o período atual representa uma oportunidade rara para revisão estratégica.
A reforma tributária promete simplificar o sistema. Mas simplificação não elimina planejamento.
*Felipe Oliveira é contador, advogado e especialista em tributação empresarial. Atua na assessoria estratégica de empresas em planejamento tributário, compliance fiscal, estruturação societária e gestão de riscos, acompanhando os impactos regulatórios e as transformações promovidas pela reforma tributária brasileira.


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