Enquanto continuamos preocupados em proteger as urnas, uma nova disputa silenciosa já acontece muito antes da votação: a batalha pela formação das convicções. A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passou a disputar, de forma inédita, a própria percepção da realidade.
Por Marcelo Senise
Há uma característica curiosa nas grandes transformações históricas: quase sempre elas começam antes que a sociedade perceba sua existência. Quando finalmente nos damos conta, o mundo já mudou.
Foi assim com a imprensa, com o rádio, com a televisão, com a internet e com as redes sociais. Em todos esses momentos, demoramos a compreender que a verdadeira revolução não estava na tecnologia em si, mas na forma como ela reorganizava a circulação das ideias, influenciava comportamentos e alterava a maneira como as pessoas interpretavam a realidade.
A Inteligência Artificial representa mais um desses pontos de inflexão. No entanto, ela introduz um elemento inédito. Pela primeira vez, máquinas deixaram de ser apenas instrumentos de comunicação para se tornarem participantes ativos do ambiente onde a opinião pública é construída.
Durante muito tempo, imaginamos que a IA produziria textos melhores, criaria imagens mais sofisticadas, automatizaria tarefas ou substituiria determinadas profissões. Tudo isso está acontecendo. Mas talvez estejamos ignorando sua consequência mais profunda: a capacidade de influenciar silenciosamente os mecanismos cognitivos que orientam nossas decisões.
Nenhum ser humano forma suas convicções de maneira isolada. A psicologia social demonstra, há décadas, que interpretamos o mundo observando constantemente aquilo que acreditamos ser o comportamento das outras pessoas. Comentários, reações, compartilhamentos, manifestações de apoio ou rejeição funcionam como sinais sociais. São eles que ajudam nosso cérebro a estimar o que é relevante, aceitável, majoritário ou verdadeiro.
Esse processo ocorre quase sempre de forma inconsciente. Não analisamos apenas os fatos. Também analisamos como imaginamos que a sociedade reage a esses fatos. É justamente aí que surge uma nova fronteira de preocupação.
Os chamados neurobots representam uma evolução significativa em relação aos antigos robôs automatizados. Em vez de simplesmente repetir mensagens, esses agentes utilizam Inteligência Artificial para compreender contexto, adaptar linguagem, responder objeções, estabelecer vínculos de confiança e participar de debates públicos de maneira extremamente semelhante à interação humana. Seu objetivo deixa de ser apenas divulgar conteúdos e passa a ser influenciar a percepção coletiva sobre aquilo que parece representar o pensamento predominante da sociedade.
Essa possibilidade deixou de pertencer ao campo das hipóteses.
Recentemente, o Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA) concluiu o Relatório Nacional sobre a Integridade Cognitiva das Eleições Brasileiras, uma pesquisa que analisou mais de dez mil comentaristas únicos pertencentes aos dois maiores ecossistemas políticos digitais do país. Utilizando metodologia própria de análise ecossistêmica e infraestrutura tecnológica baseada nas plataformas Sentinela Eleitoral e Polijetro, o estudo identificou uma incidência estimada entre 5,5% e 7,6% de contas classificadas nas categorias de maior probabilidade de comportamento compatível com agentes artificiais inteligentes.
É importante compreender corretamente o alcance desses resultados. A pesquisa não identifica responsáveis, não aponta financiadores, não atribui qualquer responsabilidade aos administradores das páginas analisadas e tampouco conclui que esses agentes atuem em benefício de qualquer candidato ou grupo político. Seu mérito está em demonstrar, com base metodológica consistente, que estruturas artificiais já participam do ambiente onde milhões de brasileiros formam diariamente suas opiniões.
Alguns poderão considerar que percentuais entre cinco e sete por cento seriam pouco expressivos. Essa interpretação ignora completamente a lógica das redes sociais. Influência digital nunca dependeu apenas da quantidade de perfis. Depende da capacidade de amplificar narrativas, ocupar espaços estratégicos de interação, reforçar sinais sociais e produzir a sensação de consenso. Em ecossistemas altamente conectados, poucos agentes coordenados podem alcançar impactos muito superiores ao seu tamanho numérico.
É exatamente por essa razão que talvez estejamos olhando para o lugar errado. Durante décadas, concentramos nossos esforços na proteção do momento final da democracia: o voto. Fizemos isso com competência. O Brasil construiu um sistema eleitoral robusto, confiável e reconhecido internacionalmente. Entretanto, a Inteligência Artificial nos apresenta um novo desafio. A questão já não é apenas garantir que o voto seja corretamente contabilizado. É assegurar que a vontade do eleitor tenha sido construída em um ambiente informacional autêntico, livre de manipulações artificiais invisíveis.
É nesse contexto que surge o conceito de Integridade Cognitiva. Se a integridade eleitoral protege a liberdade de votar, a integridade cognitiva busca proteger a liberdade de pensar. Afinal, toda escolha democrática nasce muito antes da urna. Ela começa quando cada cidadão interpreta informações, compara argumentos, organiza suas emoções e constrói suas próprias convicções.
Talvez a maior transformação política produzida pela Inteligência Artificial não esteja na tecnologia. Esteja na necessidade de compreendermos que, pela primeira vez na história, a democracia precisa proteger não apenas o voto, mas também o ambiente onde esse voto começa a ser formado.
Marcelo Senise é sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e Inteligência Artificial aplicada à comunicação política, presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial e autor das obras A Delicada )ou não) Arte da Desconstrução Politica, e da triologia Blindagem Essencial


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