A Odisseia: Um bom filme para se ler o livro - Blog A CRÍTICA

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domingo, 19 de julho de 2026

A Odisseia: Um bom filme para se ler o livro

Universal Pictures


Achei formidável a adaptação de A Odisseia feita por Christopher Nolan para o cinema. Era o filme que o maior poema da literatura ocidental merecia. A obra de Homero é a fonte original da imaginação do Ocidente. Sem Homero não haveria Shakespeare, não haveria a tragédia grega que deu origem ao teatro, não haveria a filosofia em sua forma clássica e talvez nem mesmo a democracia ateniense como a conhecemos. Durante séculos, porém, o cinema não possuía recursos técnicos capazes de traduzir em imagens a grandiosidade da epopeia. Agora, finalmente, possui.


O mais extraordinário, entretanto, é perceber que nem mesmo um filme dessa dimensão supera a experiência da leitura do poema. Quem nunca leu A Odisseia compreenderá a história apenas como cinema; dificilmente alcançará a dimensão histórica, literária e civilizatória da obra fundadora. Nolan compreendeu isso. Em vez de tentar filmar, de maneira exaustiva, os 24 cantos do poema, preferiu condensar os principais episódios numa narrativa fragmentada, conduzida pela voz do próprio Ulisses, como se ainda estivéssemos diante de um aedo narrando suas aventuras. Para adaptar integralmente A Odisseia, talvez fosse necessário um filme para cada canto.


Essa escolha faz sentido porque A Odisseia nasceu da tradição oral. Antes de ser escrita, foi contada inúmeras vezes. O filme, portanto, não pretende substituir o poema, mas devolver-lhe a força da narrativa oral por meio da linguagem cinematográfica. É uma nova forma de contar uma história que atravessa quase três mil anos.


Não existiria teatro sem Homero. Em certo sentido, também não existiria o cinema, pois toda grande narrativa heroica deve algo à jornada de Ulisses. O maior mérito do filme talvez seja justamente preservar o desejo da leitura. Se, ao sair da sessão, o espectador sentir vontade de abrir o poema de Homero, Nolan terá alcançado um feito muito mais importante do que produzir um espetáculo visual: terá ajudado a manter viva a tradição que forma escritores, poetas, dramaturgos e cineastas.


No fundo, A Odisseia conta uma história simples e eterna: voltar para casa. O retorno é o sentido da civilização. Sem pertencimento não existiriam o lar, a família, a fidelidade de Penélope, nem mesmo a guerra de Troia, travada em nome da honra e da recuperação de uma esposa. A civilização é uma tragédia, mas também um poema lírico. Por isso foi impossível não se emocionar ao ver a sala de cinema inteira explodir em aplausos quando Ulisses envergou o arco e fez a flecha atravessar os doze machados, exatamente como Homero havia imaginado.


Quantas pessoas, ao longo de quase três mil anos, imaginaram essa cena apenas com a força das palavras? Ontem, finalmente, nós a vimos projetada numa tela. E, paradoxalmente, a grande vitória do filme é fazer com que desejemos voltar ao poema para relê-lo mais uma vez — e depois outra, e outra.


Percebi que muitas críticas negativas ao filme se concentram em escolhas de caracterização ou em supostas imprecisões históricas sobre a Idade do Bronze. Essas críticas, embora legítimas, parecem ignorar a natureza da proposta de Nolan. Seu compromisso não é com uma reconstrução arqueológica minuciosa, mas com a preservação da força narrativa de Homero. O objetivo não é ilustrar um passado remoto com fidelidade documental, e sim transformar em imagens uma história que, durante séculos, sobreviveu porque era contada de geração em geração. Enquanto houver alguém disposto a contar A Odisseia, continuarão existindo autores de livros, poetas, dramaturgos e cineastas.

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