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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Achei um nódulo pulmonar. E agora?

Dr. Alessandro Mariani explica por que nem todo nódulo no pulmão é câncer, mas todo achado precisa ser avaliado com critério

Dr. Alessandro Mariani


São Paulo, 30 de julho de 2026 - Encontrar um nódulo no pulmão em um exame de imagem costuma gerar medo imediato. A associação com câncer é quase automática para muitos pacientes, especialmente quando o achado aparece em uma tomografia feita por outro motivo, como em um check-up ou durante a investigação de sintomas respiratórios. Nesses casos, o primeiro passo não deve ser o pânico nem o descaso: deve ser a avaliação correta.


De acordo com o cirurgião torácico Dr. Alessandro Mariani, Professor Doutor de Cirurgia Torácica da FMUSP e Preceptor de Cirurgia Torácica Robótica, a palavra “nódulo” no laudo não indica, por si só, câncer. “Nem todo nódulo pulmonar é câncer. Muitos são benignos e podem estar relacionados a cicatrizes, infecções antigas, inflamações ou outras alterações. Mas isso não significa que o achado deva ser ignorado. O risco está nos detalhes”, explica.


O tema ganha importância porque o câncer de pulmão segue como um dos grandes desafios da saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em página atualizada em abril de 2026, a doença é a principal causa de casos e mortes por câncer no mundo, com estimativa de 2,5 milhões de novos casos e 1,8 milhão de mortes em 2022.


No Brasil, a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta 35.380 novos casos de cânceres de traqueia, brônquio e pulmão por ano no triênio 2026-2028. Desse total, são estimados 18.730 casos entre homens e 16.650 entre mulheres.


A mortalidade também reforça a relevância do tema: em 2023, o Brasil registrou 31.237 óbitos por cânceres de traqueia, brônquio e pulmão, sendo 16.758 entre homens e 14.479 entre mulheres, segundo a publicação Estimativa 2026, do INCA.


O nódulo pulmonar é uma alteração identificada nos exames de imagem, especialmente na tomografia. Em muitos casos, ele é descoberto por acaso e não provoca sintomas. O desafio está em diferenciar quais achados podem ser apenas acompanhados e quais exigem investigação mais aprofundada.


“Quando avalio um nódulo pulmonar, não olho apenas para a palavra escrita no laudo. É preciso analisar tamanho, formato, bordas, densidade, localização, crescimento ao longo do tempo, histórico de tabagismo, idade, doenças prévias, sintomas e exames anteriores. Um nódulo não é interpretado sozinho. Ele precisa de contexto”, afirma Mariani. Diretrizes e materiais de orientação sobre nódulos pulmonares consideram justamente fatores como tamanho, aparência, histórico de saúde, risco individual e crescimento ou mudança do nódulo ao longo do tempo.


Na prática, o caminho pode variar bastante. Alguns nódulos pequenos e de baixo risco podem ser acompanhados com tomografias periódicas. Outros exigem exames complementares, como tomografia mais detalhada, PET-CT, biópsia ou avaliação cirúrgica. A decisão depende da probabilidade de malignidade e do perfil clínico do paciente.


Segundo o especialista, um erro comum é imaginar que todo nódulo precisa ser retirado imediatamente. O outro é fazer o oposto: minimizar o achado e perder a oportunidade de diagnóstico precoce. “Existem nódulos que devem ser observados. Existem nódulos que precisam ser investigados. E existem situações em que a cirurgia pode ser a melhor estratégia. A decisão não deve ser automática. Ela precisa ser proporcional ao risco”, explica.


As recomendações da Fleischner Society, uma das principais referências internacionais para o acompanhamento de nódulos pulmonares incidentais, foram atualizadas em 2017 e reforçam a necessidade de individualizar a conduta, considerando características do nódulo e fatores de risco do paciente. A Society of Thoracic Surgeons também destaca que essas recomendações se aplicam a nódulos encontrados fora de programas formais de rastreamento e devem incorporar a percepção clínica de baixo ou alto risco.


Para Mariani, um dos pontos mais importantes é comparar o exame atual com imagens antigas, quando disponíveis. “Às vezes, a informação mais importante não está apenas na tomografia feita hoje, mas na comparação com exames anteriores. Um nódulo estável há anos costuma ter uma leitura diferente de um nódulo que cresceu nos últimos meses”, afirma.


O histórico do paciente também muda a interpretação. Pessoas com tabagismo atual ou passado, idade mais avançada, exposição ocupacional a agentes carcinogênicos, histórico familiar ou doenças pulmonares prévias podem ter risco diferente de um paciente jovem, sem fatores de risco e com achado pequeno e estável. A OMS lista, além do tabagismo, fatores como fumaça passiva, poluição, exposição ocupacional a asbestos, sílica e diesel, radônio, doenças pulmonares crônicas e suscetibilidade genética entre fatores associados ao câncer de pulmão.


Apesar da forte relação entre tabagismo e câncer de pulmão, o especialista reforça que a doença também pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram. “O tabagismo continua sendo o principal fator de risco, mas não é o único. Por isso, a avaliação de um nódulo não deve se limitar à pergunta ‘você fumou ou não fumou?’. Ela precisa integrar todos os dados clínicos e radiológicos”, explica.


Nos pacientes de alto risco, o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose pode ter papel importante. A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos recomenda rastreamento anual com tomografia de baixa dose para adultos de 50 a 80 anos com histórico de 20 maços-ano de tabagismo, que fumam atualmente ou pararam nos últimos 15 anos.


Mas rastreamento e investigação de nódulo não são a mesma coisa. O rastreamento é feito em pessoas de alto risco, mesmo sem sintomas, para procurar sinais precoces de câncer. Já a avaliação de um nódulo acontece quando o achado apareceu em um exame e precisa ser interpretado.


“Encontrar um nódulo pulmonar não significa ter câncer. Mas significa que existe uma pergunta a ser respondida com método. O paciente precisa entender o que foi encontrado, qual o risco estimado, quais são as alternativas e qual é o próximo passo mais seguro”, orienta Mariani.


Em alguns casos, especialmente quando há suspeita de câncer em estágio inicial, a cirurgia pode ter papel central no tratamento. Com o avanço das técnicas minimamente invasivas, incluindo videotoracoscopia e cirurgia robótica, muitos procedimentos podem ser planejados com menor agressão cirúrgica, desde que a indicação seja correta.


“A tecnologia pode ajudar muito, mas ela vem depois da decisão médica. Antes de falar em robótica, biópsia ou cirurgia, é preciso responder: esse nódulo representa risco real? O paciente precisa apenas acompanhar? Precisa investigar melhor? Ou já estamos diante de uma situação em que tratar cedo pode mudar o prognóstico?”, afirma.


Para o especialista, o principal recado ao paciente é não tomar decisões precipitadas. “O nódulo no pulmão não deve ser tratado como sentença, mas também não deve ser deixado de lado. O melhor caminho é buscar uma avaliação especializada, reunir os exames anteriores e entender o caso com clareza. Em saúde, especialmente quando falamos de pulmão e câncer, decidir bem também faz parte do tratamento”, conclui.

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