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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor extremo já afeta escolas, saúde e mobilidade nas cidades brasileiras



Por Mariana Pontes*


O Dia Mundial do Meio Ambiente consolida junho como um período de mobilização global em torno dos desafios ambientais e climáticos. A data reforça uma realidade cada vez mais presente no cotidiano das cidades. As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação restrita ao futuro e passaram a influenciar diretamente temas como saúde, educação, infraestrutura, mobilidade e qualidade de vida. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, 2025 ficou entre os três anos mais quentes já registrados no planeta, consolidando uma sequência de onze anos consecutivos de temperaturas recordes. Mais do que um indicador climático, o dado evidencia a importância de acelerar estratégias que tornem as cidades mais preparadas para lidar com os desafios de um cenário ambiental em transformação.


Com o tema “Um chamado global para a ação climática”, a campanha promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) convida governos, empresas, organizações e cidadãos a refletirem sobre como construir territórios mais resilientes, inclusivos e sustentáveis. Nesse debate, as cidades ocupam posição estratégica, já que concentram grande parte da população e dos impactos associados às mudanças climáticas.


Entre os desafios que ganham cada vez mais relevância está o calor urbano. Em diversas regiões brasileiras, temperaturas elevadas têm afetado a utilização dos espaços públicos, ampliado a demanda por energia, influenciado a rotina das pessoas e estimulado discussões sobre conforto térmico e qualidade ambiental. O tema vai além da sensação de desconforto e está diretamente relacionado à saúde e ao bem-estar da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição prolongada ao calor pode provocar exaustão térmica, desidratação, tonturas, desmaios e outras complicações, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e trabalhadores expostos ao sol por longos períodos. À medida que episódios de calor extremo se tornam mais frequentes, cresce também a importância de adaptar os ambientes urbanos para oferecer mais conforto e proteção à população.


Os impactos também são percebidos no ambiente escolar. Especialistas têm alertado para os efeitos das altas temperaturas sobre a concentração, o aprendizado e o desempenho de crianças e adolescentes. Ambientes sem ventilação adequada ou com pouca proteção térmica podem dificultar o processo de aprendizagem e comprometer o bem-estar dos estudantes, reforçando a relação entre clima, educação e desenvolvimento humano.


Ao mesmo tempo, os desafios climáticos possuem uma dimensão social crescente. Dados da Organização das Nações Unidas mostram que eventos climáticos extremos provocaram o deslocamento médio de 23,1 milhões de pessoas por ano ao longo da última década. O número demonstra como questões relacionadas ao clima influenciam não apenas o meio ambiente, mas também a segurança, a habitação, a economia e a qualidade de vida de milhões de pessoas em todo o mundo.


Diante desse cenário, cresce a importância de incorporar a adaptação climática ao planejamento urbano. As Soluções Baseadas na Natureza (SbNs) vêm ganhando destaque por sua capacidade de gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos simultaneamente. A ampliação da arborização urbana, a criação de áreas de sombra, a preservação de espaços verdes, a recuperação de ecossistemas urbanos e a implantação de infraestrutura verde contribuem para reduzir temperaturas, melhorar o conforto térmico e tornar os territórios mais resilientes.


Além dos benefícios ambientais, essas iniciativas favorecem a saúde pública, estimulam a convivência nos espaços urbanos e contribuem para a valorização dos territórios. São medidas que ajudam as cidades a responder aos desafios climáticos enquanto promovem mais qualidade de vida para seus habitantes.


A relevância desse debate também é reconhecida em âmbito econômico. Segundo o Banco Mundial, as mudanças climáticas podem empurrar mais de 130 milhões de pessoas para a pobreza até 2030 caso medidas de adaptação e resiliência não avancem na velocidade necessária. Ao mesmo tempo, cresce o interesse de investidores, organismos multilaterais e instituições internacionais por iniciativas capazes de fortalecer a sustentabilidade e a segurança climática dos territórios.


A boa notícia é que muitas das soluções já são conhecidas e vêm sendo implementadas em diferentes partes do mundo. O desafio está em ampliar sua escala, fortalecer a cooperação entre diferentes setores e integrar a questão climática às decisões que orientam o desenvolvimento das cidades. Poder público, empresas, universidades, organizações da sociedade civil e comunidades têm papéis complementares na construção de respostas inovadoras para um cenário que exige cada vez mais colaboração.


A campanha global promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que neste ano tem como tema “Um chamado global para a ação climática”, reforça justamente essa oportunidade. Diante de um planeta que acaba de registrar onze anos consecutivos de temperaturas recordes, o debate climático deixa de ser apenas uma discussão sobre riscos futuros e passa a ser uma agenda de construção coletiva. Investir em cidades mais verdes, resilientes e preparadas para o calor significa investir em saúde, educação, bem-estar, inclusão e desenvolvimento sustentável. Mais do que enfrentar desafios, trata-se de aproveitar a oportunidade de construir cidades melhores para as próximas gerações.




*Mariana Pontes é presidente da ARIES (Agência Recife para Inovação e Estratégia). Arquiteta e urbanista (FAUPE), mestra em Desenvolvimento Urbano (UFPE/MDU), MBA em Gestão de Projetos e certificada Project Management Professional (PMP), atua há mais de duas décadas na interseção entre planejamento urbano, gestão pública e cooperação internacional para cidades sustentáveis.

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