Pesquisas realizadas no câmpus de Botucatu detalham de forma inédita a interação entre veias e artérias e o tecido ósseo; resultados contribuem para o entendimento do impacto das alterações vasculares na saúde esquelética e abrem novas perspectivas para o tratamento de doenças como a osteoporose
Há cerca de uma década, cientistas do Laboratório de Bioensaios e Dinâmica Celular (LaBio) da Unesp têm estudado a fundo o papel das veias e artérias na constituição do tecido ósseo. Ao longo desse período, projetos de pesquisa desenvolvidos pelo grupo têm alcançado resultados inéditos, capazes de ampliar o entendimento do processo de formação e maturação dos ossos e vislumbrar novas estratégias de tratamento clínico para a regeneração dos ossos. No ano passado, a qualidade da pesquisa realizada pelo grupo foi reconhecida com a criação de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) com o objetivo de ampliar o entendimento da função endócrina do tecido ósseo e avançar no desenvolvimento de novas terapias baseadas em biomateriais para doenças como a osteoporose e a fragilidade esquelética.
O reconhecimento não é sem fundamento. Nos últimos anos, artigos publicados pelo grupo liderado pelo biólogo Willian Fernando Zambuzzi, professor do Instituto de Biociências do câmpus de Botucatu, estão ajudando a redefinir o papel dos vasos sanguíneos na biologia dos tecidos ósseos. “O nosso laboratório foi criado com o objetivo de investigar o tecido ósseo não apenas como um tecido de proteção, mas como um tecido que poderia ter uma ligação, por meio de moléculas, a outros tecidos do organismo e assumir outras funções, por exemplo. E, durante os nossos estudos, a relação com o tecido vascular se apresentou de forma mais robusta”, afirma o professor.
Uma das descobertas mais recentes do grupo foi demonstrar que as células musculares lisas vasculares, que compõem a parede dos vasos sanguíneos, orientam o amadurecimento de um conjunto de células chamadas osteoblastos para se tornarem osteócitos. Esse processo de diferenciação é fundamental para a constituição do tecido ósseo: enquanto o osteoblasto atua no processo de construção do osso, o osteócito é uma versão madura da antiga célula, responsável por manter a integridade da sua estrutura ao longo da vida. Os resultados foram publicados na revista Biochimica et Biophysica Acta (BBA) – Molecular Cell Research.
“Nós mostramos, de uma maneira bastante inédita, que as células vasculares de musculatura lisa têm uma função importante para promover a diferenciação de osteoblastos em osteócitos. E esse é um aspecto que ainda não tinha sido discutido na literatura científica”, afirma Willian Zambuzzi.
De acordo com o pesquisador, há outros grupos de pesquisa internacionais dedicados a estudar especificamente os osteócitos, com descobertas importantes realizadas na última década. No entanto, nenhuma que relacione essas células ao tecido vascular. “Não há discussões sobre a forma como os osteócitos são gerados na biologia dos vertebrados a partir dos vasos sanguíneos. E nós conseguimos mostrar que eles exercem essa função bastante própria”, pontua o docente.
Ao traçar a interação entre as células dos vasos sanguíneos e as do tecido ósseo, a pesquisa reforça a interpretação de que essa estrutura não está restrita à função de oferecer sustentação ao corpo, mas também é capaz de produzir moléculas e substâncias que influenciam outros tecidos e órgãos. “Se os vasos sanguíneos participam ativamente da produção do tecido ósseo, pode-se inferir que disfunções vasculares podem repercutir diretamente na qualidade do esqueleto e na etiologia e progressão de doenças crônicas não transmissíveis”, argumenta o coordenador do LaBio.
Os resultados obtidos nos estudos podem ajudar a explicar, por exemplo, por que a perda de massa óssea e o aumento do risco de fraturas, especialmente em idosos, estão acompanhados de doenças crônicas como hipertensão arterial e diabetes, que promovem alterações no sistema vascular. Atualmente, Zambuzzi e sua equipe investigam se a osteoporose, doença que causa a perda progressiva de massa óssea, tem relação com o processo de formação dos osteócitos.



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