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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Cem anos de um clássico do romance policial



Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP


Em 2013, The Murder of Roger Ackroyd (no Brasil, O Assassinato de Roger Ackroyd) foi considerado o melhor romance do gênero em todos os tempos, segundo a Associação Britânica de Escritores Policiais. Isso diz muito sobre a qualidade dessa que é uma das tramas mais impactantes de Agatha Christie. Contudo, somente uma pessoa que tivesse lido uma enorme quantidade de narrativas policiais poderia confirmar se esse seria o melhor romance do gênero detetivesco, “em todos os tempos”.


Digamos que, levando em conta apenas as narrativas da escritora, seria possível afirmar que O Assassinato de Roger Ackroyd seria sua criação mais engenhosa, por conta dos artifícios empregados na enunciação da história, em particular, o modo como o narrador descreve o vilarejo de King’s Abbot e seus habitantes. O contraste não se dá apenas entre uma e outra personagem, mas entre a natureza dos crimes e o ambiente pacato e entediante do lugar.


Aliás, o modo como o doutor James Sheppard descreve a irmã é muito interessante e sugestivo, pois o próprio narrador possui características similares àquelas que critica em Caroline Sheppard, em particular o gosto de fofocar. Para além disso, a atuação de Hercule Poirot excede a caricatura – mais evidente nos romances anteriores (e posteriores) da escritora. Dessa vez, o detetive belga entra num denso e paciente jogo psicológico com a pessoa responsável pelos crimes.


Por esses e outros motivos, o grande trunfo do romance está no modo como ele é estruturado e como a narrativa nos conduz para caminhos que se bifurcam – especialmente por conta da complexidade da trama e dos desvios de rota, centrados em diferentes suspeitos. Vale frisar que, no primeiro contato com a história, dificilmente nossa abordagem é feita com maior rigor e precisão, especialmente se encaramos o romance como material para entretenimento, feito exclusivamente para passar o tempo.


Quando lemos um romance vendo nele apenas as circunstâncias “comerciais”, a própria fruição pode ser prejudicada. Isso acontece porque raramente atentamos para as múltiplas camadas que compõem o enunciado de uma obra de/para entretenimento.


Em realizações notáveis, como O Assassinato de Roger Ackroyd, é necessário superar a dicotomia entre o suposto esquematismo (do gênero policial) e seus atributos estéticos. Por isso mesmo, volto a chamar a atenção para a figura central desse romance. O doutor Sheppard é, certamente, uma das personagens mais cativantes de Agatha Christie.


Afora os dotes de cronista, ele é capaz de contagiar os leitores, orientando inclusive o modo como eles podem/devem interpretar o seu relato (que, como todo discurso, é lacunar e não isento). Uma de suas estratégias é recorrer a uma dicção sóbria, em que o estilo simples se alterna ora com o elegante, ora com o veemente, o que colabora na intenção de ressaltar virtudes próprias, ao mesmo tempo em que tece comentários inclementes sobre quase todos os outros.


Não se trata meramente de uma narrativa de gato-e-rato, mas da convivência imprevista e inusitada entre um médico minucioso e o detetive que tudo vê e descobre: seres dotados de poderoso juízo e engenho. Talvez esse romance, publicado em 1926, seja a melhor porta de entrada para o universo policial da “Rainha do Mistério”.



(Aos interessados, estendo o convite a que acessem Por Que Ler Agatha Christie” (2024). O e-book pode ser baixado gratuitamente no site da Pedro & João Editores.) 

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