Edgar Morin: 100 anos produzindo obras - Blog A CRÍTICA

Últimas

Post Top Ad

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Edgar Morin: 100 anos produzindo obras



Por Ênio Alterman Blay, pesquisador do Centro de Inteligência Artificial no InovaUSP


Edgar Morin soube conquistar pelos seus textos. Introdução ao Pensamento Complexo é um livro escrito, suponho, para aquelas pessoas que, pela primeira vez, entram em contato com as ideias desse pensador. Em seis capítulos, por 120 páginas, somos gradualmente introduzidos às ideias da Complexidade, ou do Pensamento Complexo, segundo uma visão convincente, que reúne múltiplos conceitos que, ao seu melhor estilo, se complementam, concorrem, antagonizam.


Para pessoas formadas nas ciências tradicionais, onde o espaço cartesiano é a possível descrição do mundo, onde equações regem não só a física e a química, mas as relações e comportamentos humanos, as ideias de Morin surgem, ao mesmo tempo, como um choque e uma luz.


O choque advém de sabermos que nossa forma de ver e analisar a realidade é incompleta e limitada. Todo nosso conhecimento disciplinar irá nos levar, inefavelmente, a limites insuperáveis.


A luz, por outro lado, mostra que podemos viver, cientificamente, com os contrassensos que não serão superados. Eles existem e vão persistir, não por falta de uma explicação mais ampla, uma teoria unificadora, mas porque sua presença demonstra nossa incapacidade de lidar com a natural existência de conflitos e oposições.


Quando Morin se propõe a explicar essas situações, usa formas simples e claras. Afirma que o ser humano é, ao mesmo tempo, formador e formado pela sociedade. Que nós somos feitos de células. Mas cada célula individual contém nossa totalidade.


Explica também que, embora as ideias e os conceitos surjam dos humanos, eles de repente adquirem vida autônoma e fazem com que nós próprios, seres humanos, os sigamos, lutemos e morramos por eles. Ou não é isso que acontece com as religiões, os sistemas políticos e econômicos, as ciências?


É difícil uma pessoa não ter sua forma de ver o mundo profundamente alterada depois de ser tocada pelo Pensamento Complexo. A frase tão comum: “na verdade, isso é complexo”, adquire um significado diferente, maior, onde a compreensão de que o todo influencia as partes que, por sua vez, influenciam e formam o todo, passa a moldar essa nova perspectiva.


Mas, é claro, esta não foi sua primeira obra.


A carreira de escritor cientista, ou podemos dizer, de arguto observador da realidade, começa ainda em 1946, quando ele tinha 25 anos e parte para a Alemanha derrotada, como soldado do exército francês de ocupação com o objetivo autoimposto de tentar entender como a bestialidade havia tomado conta de um país como aquele. Das impressões desta experiência resulta seu primeiro livro, Alemanha Ano Zero.


Sua perplexidade com a morte, inicialmente provocada pelo falecimento da mãe em 1931, não o havia deixado e, então escreve o segundo livro, O homem e a morte. Nele, Morin tenta uma abordagem multidisciplinar para um tema que, segundo ele mesmo, nunca havia sido tratado de forma científica.


A Europa se recupera economicamente e a sociedade de massas fascina Morin que busca apreender os fenômenos de seu tempo. E assim, volta sua atenção ao cinema para compreender o surgimento das estrelas, um fenômeno tão característico do pós-guerra. Escreve, em 1956, Cinema ou o homem imaginário e, em 1957, As estrelas, mostrando como o surgimento dos ídolos cinematográficos, na verdade, atende à necessidade humana por heróis.


É marcante como Morin migra de temas e interesses como alguém sensível aos fenômenos que motivam e moldam a sociedade humana europeia e contemporânea.


E assim, na década de 1960, parte para uma aventura científico-antropológica. Vai viver com um time que conta com alguns pesquisadores e pesquisadoras, em uma pequena comunidade na Bretanha, sul da França. Lá se integra com a sociedade local e registra seu comportamento.


Posteriormente publica, em 1967, o livro Commune en France. La métamorphose de Plodémet. Embora Morin e sua equipe acreditem que era um relato de pesquisa, são duramente criticados pela própria comunidade que se sentiu usada e teve sua confiança traída.


O colega e cientista Jaques Monod, que havia ido dirigir o Instituto Salk nos EUA, convida Morin para uma temporada na qual ele permanece entre 1968 e 1969. Estuda as teorias cibernéticas de Norbert Wiener e colegas, as teorias sistêmicas de Bertalanffy e demais e ainda a teoria da informação, de Shannon, Weaver e Brillouin. O fruto desta estadia foi o início da escrita d’O Método.


O primeiro volume, cujo subtítulo é A Natureza da Natureza, foi publicado em 1977. O texto é uma verdadeira saga científica na qual Morin funde e combina conceitos da física, teoria da informação, auto-organização entre muitos outros.


A proposta de abordar os múltiplos conhecimentos humanos a partir de visões de diferentes ciências disciplinares, integrando-as em um conjunto, prosseguiu por muitos anos e culminou com a publicação do sexto volume, Ética, em 2004.


Nesse um quarto de século, Morin construiu não só as bases do Pensamento Complexo como produziu várias outras obras que influenciaram cientistas e leigos pelo mundo, com especial destaque para a América Latina.


Seria prepotente tentar condensar o conteúdo de O Método, obra tão abrangente, em poucos parágrafos. Ainda assim, para tentar fazer jus ao autor sem, no entanto, obrigar leitoras e leitores a ir à fonte, segue um breve relato de cada volume. De qualquer modo, a leitura da obra completa de Morin é profundamente gratificante.


Volume 1


Na Natureza da Natureza (vol. 1), Morin menciona e define alguns conceitos. Argumenta que, a partir da ideia de sistema, temos uma interação entre todos e partes, que as organizações são sistemas auto-organizados, que esta organização ocorre através de um fluxo de informações.


Explica que ordem e desordem são faces da mesma realidade. Precisamos que os elementos estejam desorganizados para organizá-los. Mas se tudo estiver organizado, haveria um cenário de equilíbrio estável no qual nada mais mudaria. Então é função da desorganização entrar em ação e mudar o status quo. Ele diferencia os sistemas das organizações quando afirma que os primeiros enfatizam as relações enquanto os segundos formam um todo coeso.


Outro aspecto destacado é a relação entre observador e sistema observado. Von Foerster já havia destacado esse aspecto na cibernética de segunda ordem. Na concepção de Morin, não existe um “fora do sistema”. Estamos imbricados nele, que nos influencia e, o que evidenciamos são nossas verdades parciais, não uma “realidade absoluta”.


Morin amplia o conceito de máquina. Enquanto, em geral, se pense em máquinas como dispositivos artificiais criados por humanos, ele as considera simplesmente como fenômenos de produção, como o Sol ou os Seres Humanos.


A Emergência é outro conceito complexo que merece atenção neste volume. Nesse sentido, a discussão se dá em torno da realimentação (conhecida como feedback) que, ao reintroduzir partes das saídas nas entradas, suscita a criação do novo.


Ressalta a importância do erro, que não seria o equívoco mas a fonte da novidade. Sem o erro, as coisas permaneceriam como estão, pela eternidade.


No final do volume, destaca que o conhecimento complexo não é operacional com a ciência clássica mas esta é operadora de manipulação. A verificação implica na manipulação (em seu mais amplo sentido). E isso nos leva à barbárie de nosso tempo.


Assim, a ciência complexa busca a ação mas que seja liberação, autoconhecimento, solidariedade. Ela reconhece o mistério presente em todas as coisas.


Volume 2


Em A vida da vida, Morin discute as questões da biologia que, de forma geral, não foram discutidas anteriormente. O tema é tão amplo que o índice se estende por seis páginas.


Talvez a essência deste volume possa ser “resumida” no conceito da auto-geno-feno-ego-eco-re-organização. Assim, a vida é, antes de tudo, uma forma de organização (dos elementos químicos, proteínas, de formas de manutenção e reprodução). Cada um destes prefixos salienta um aspecto da organização viva. Re- pois ela se reorganiza permanentemente; Eco- pois está intrinsecamente ligada ao meio; Ego- pois é voltada a si mesma, necessário à sua sobrevivência; Feno- é a manifestação do externo em cada um; Geno- pois carregamos em nós nossa história e genética; e por fim Auto- pois tudo isso ocorre de forma autônoma, para que a vida possa se perpetuar.


Volume 3


O conhecimento do conhecimento trata da discussão do que é nossa compreensão e como ela se forma em nós e nós a formamos.


Em sua análise, a discussão da relação entre mito e logos é, antes de tudo, uma questão de discurso. E mostra como antigos mitos (hoje vistos como superstição) foram substituídos por novos “mitos” como democracia, capitalismo ou burguesia e proletariado.


É fascinante ver descortinar no nosso entendimento como as oposições convivem. Nas suas conclusões, Morin afirma que o conhecimento objetivo produz-se na esfera subjetiva que, por sua vez, está situada no mundo objetivo.


Afirma que conhecimento seria impossível em um mundo determinista ou totalmente aleatório. “Só podemos conhecer um mundo fenomenal situado no espaço e no tempo, comportando unidade, pluralidade, homogeneidade, diversidade, invariância e mudança. Trata-se de nosso mundo uno/diverso dos fenômenos físicos/biológicos/antropológicos submetidos à dialógica da ordem/desordem/organização.”


Volume 4


Diferente dos outros, este tem um subtítulo maior: As ideias: habitat, vida, costumes, organizações.


Ao descrever o conceito de noosfera, criado por Teilhard de Chardin nos anos 1920, Morin descreve um cenário no qual as ideias (conceitos, mitos, ideologias) se formam entre humanos mas, como se adquirissem vida própria, passam a habitar um plano superior. E de lá, comandam a nós, humanos, a lutar pela sua hegemonia e permanência. Ao nos distanciarmos de conceitos como capitalismo e socialismo, ou qualquer religião, vemos o quanto tal noção é verdadeira.


É ainda neste volume que Morin discute a ideia de mindscapes de Magoroh Maruyama, segundo a qual observamos e interpretamos o mundo segundo nossos filtros e conhecimentos.


Volume 5


A humanidade da humanidade descreve o percurso do enraizamento cósmico à emergência humana. É, de certa forma, uma síntese dos volumes anteriores mas discute aspectos que não haviam sido tratados antes.


Ao invés de explicar, Morin descreve sua fascinação com a improvável e inexplicável emergência da vida e da humanidade. Do surgimento do cérebro, do espírito, da linguagem e da cultura.


Trata de três “trindades”: indivíduo/sociedade/espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Esses conjuntos que, normalmente, são tratados separadamente na ciência, passam a ser analisados em sua unidade, como que fazendo parte de um todo mas, como partes individualizáveis, se influenciando e complementando.


Volume 6


Ética. Neste seu último volume, Morin propõe um caminho para a humanidade. Enquanto nos outros, a análise foi exploratória e analítica, neste caso a proposta defende um comportamento que traga esperança aos seres humanos, esperança esta que ele nunca perdeu.


O livro desenvolve a Ética em três planos: a autoética, a socioética e a antropoética.


Em um mundo carente de certezas absolutas e na falta de crenças transcendentes, a autoética é fundamental. Ela comporta uma permanente autoanálise, autocrítica, tolerância e tomada de responsabilidade. Requer compreensão e abertura à magnanimidade. Uma Ética da cordialidade, cortesia e amizade. É notável como ele anteviu as nossas mais prementes necessidades nesse caminhar do século 21, onde os antagonismos e divisões ficaram exacerbados.


A socioética é uma proposta de comunidade com solidariedade e liberdade. Ainda no contexto das noções antagônicas e complementares, afirma que os governos dependem dos cidadãos que por sua vez, dependem do governo. Assim, democracias produzem cidadãos e estes produzem a democracia. O enfraquecimento de um, faz desvanecer o outro.


No plano mais abrangente e ambicioso, temos a antropoética. Com ela Morin defende a ideia de um destino comum da humanidade. Que precisamos de uma tomada de consciência em vários âmbitos: na identidade humana comum e na sua diversidade, na necessidade da compreensão mútua, na nossa relação com a biosfera, na solidariedade com as crianças da terra, no destino comum do planeta.


Este último volume é concluído com uma discussão do Mal e do Bem. Do primeiro destaca que suas causas são irredutíveis, originadas da hubris e dos excessos, da parte demens do humano. E que temos que resistir à crueldade do mundo. Sobre o segundo, elabora mais sobre a Ética complexa. Nela, convivem as antinomias humanas sapiens/demens, faber/mitologicus, economicus/ludens.


E assim, tal Ética precisa enfrentar estas ambiguidades e contradições. Mas deve deixar-nos prontos a regenerar. Que há uma possibilidade no invisível que é real.


Morin conclui o trabalho com esperança e crença que um futuro melhor é possível.


Durante o período em que escreveu O Método, Morin publicou muitas outras obras, algumas influenciadas por esta escrita, outras que, acredito, a influenciaram.


Publica Ciência com Consciência, que é antes um chamado à responsabilidade de cientistas para o uso de suas pesquisas e descobertas.


Em uma linha mais pessoal, escreve um livro biográfico sobre seu pai, Vidal e os seus. Trata, em Sociologia, da sua visão desta ciência disciplinar, e em Terra-Pátria faz seu apelo ecologista, mostrando os efeitos globais da poluição, contaminação e destruição dos recursos naturais, afirmando que estamos todos, seres humanos, nessa nave planeta.


Em Meus Demônios faz um balanço da sua militância no partido comunista, sua expulsão por discordar das linhas do partido e que precede a divulgação dos crimes de Stalin. Já em Cabeça bem- feita discute as necessárias mudanças na educação. A este volume se juntam Religar os conhecimentos e Os Sete saberes necessários para a educação do futuro, que formam uma trilogia sobre os rumos da educação. O último título foi uma encomenda da Unesco que o publicou em muitas línguas e projetou o nome de Morin globalmente.


Continua publicando intensamente, uma média de dois livros por ano, desde os anos 1980 até 2025. São aproximadamente 100 livros, alguns em coautoria. Escreve também prefácios e artigos em numerosos periódicos.


A referência em francês na Wikipedia lista grande parte de suas publicações nesta língua.


Curiosamente, a oferta de títulos em inglês é diminuta, o que daria lugar a boas discussões sobre hegemonia cultural mas que não será tratado neste artigo.


Por outro lado, a presença de obras de Morin em português e espanhol é considerável. Só na lista dos 130 títulos diferentes disponíveis nas bibliotecas da USP, em levantamento deste autor, foram localizados 100, a maioria em português sendo alguns em espanhol.


Além dos temas citados, Morin também tratou da sua visão da questão judaica, tanto na sua relação nas obras biográficas como depois, discutindo mais amplamente temas do conflito israelense-palestino.


Diversas obras tratam de cidades onde viveu, especialmente Paris e outros textos são balanços de sua própria vida e obra. Destas vale destacar Meus filósofos, na qual passeia pelos nomes que vão de Aristóteles à Escola de Frankfurt, passando por muitos outros nomes, não só da filosofia.


Ao contemplar tão vasta obra que reflete o inconformismo de Morin com o status quo, seja da sociedade acomodada, da cultura fossilizada ou dos indivíduos acríticos, a lição que se pode aprender é a do exemplo de alguém que, não só viveu muitos anos mas que soube, nesse longo tempo, manter anseios contemporâneos e a motivação de enfrentar desafios do presente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages