Com 80,9% das famílias endividadas e 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes, o especialista em finanças Fellipe Rabelo explica o efeito que trava o bolso do consumidor e como evitar entrar para a estatística dos negativados.
O bolso do brasileiro vem enfrentando o período de maior pressão de sua história recente. O Brasil nunca teve tantos devedores. Dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelam que o endividamento das famílias atingiu o recorde de 80,9% em abril de 2026, consolidando o quarto mês seguido de máximas históricas na série da pesquisa.
Em paralelo, o indicador especial de 10 anos do Mapa da Inadimplência da Serasa Experian apontou em março de 2026 que o volume de negativados atingiu 81,7 milhões de pessoas, um crescimento de 38% no total de endividados na última década.
Validando o tamanho do problema, o Banco Central registrou a maior taxa média de inadimplência da série histórica iniciada em 2011. De acordo com os dados das Notas de Política Monetária do Banco Central do Brasil, a inadimplência média nas operações de crédito com recursos livres atingiu o recorde de 4,7%.
Para Fellipe Rabelo, especialista em investimentos e finanças da V2R Capital, esse ecossistema cria um efeito cascata que penaliza não apenas quem já está devendo, mas quem tem as contas em dia e planeja o futuro.
Quando o recorte foca exclusivamente nas pessoas físicas, o índice saltou para 5,6%, o maior patamar de atrasos superiores a 90 dias já monitorado pela instituição desde o início do acompanhamento atual. O reflexo imediato aparece no custo do dinheiro na ponta final.
Sob o impacto das sucessivas pressões na taxa básica Selic, o juro médio geral do mercado livre de crédito e modalidades emergenciais como o cartão rotativo seguem operando em patamares alarmantes, com médias anuais que ultrapassam a barreira dos 400% ao ano.
O "efeito dominó": por que a conta sobra para o bom pagador?
Muitas pessoas acreditam que a inadimplência é um problema que afeta apenas quem deixou de pagar e a empresa que levou o calote. No entanto, Fellipe Rabelo explica que o sistema financeiro funciona como uma engrenagem conectada e que o calote de um consumidor, inevitavelmente, encarece a vida de todos os outros.
"Quando os calotes sobem no país, os bancos ativam um modo de defesa automático. Por regra bancária de provisionamento, eles precisam tirar bilhões de reais de circulação e guardar esse dinheiro em uma espécie de 'fundo de reserva' (Provisão para Devedores Duvidosos - PDD) para cobrir os prejuízos de quem não vai pagar. Como tem menos dinheiro livre na praça para emprestar, o preço desse dinheiro sobe. É por isso que o spread bancário e os juros futuros aumentam para todo mundo, ou seja, o bom pagador, que nunca atrasou uma conta, acaba pagando uma taxa mais alta para cobrir o risco e o prejuízo gerado pela inadimplência geral", traduz Rabelo.
Esse crédito mais caro dispara a próxima peça do dominó na economia. Com juros altos, as pessoas evitam comprar parcelado, o comércio vende menos e as indústrias reduzem a produção. "É um ciclo que trava o consumo, que é o principal motor do PIB do nosso país. Quando o consumo cai, as empresas param de crescer e o desemprego volta a ameaçar o trabalhador. Por isso que o calote de terceiros mexe, no fim das contas, com o emprego e o poder de compra de toda a sociedade", alerta o especialista.
Quem mais sente o impacto na base da pirâmide
O impacto dessa engrenagem se desenha de formas distintas no orçamento. Os indicadores consolidados apontam que a inadimplência e o uso de recursos emergenciais têm pesado fortemente na base de consumo das famílias brasileiras.
"Para as famílias de menor renda, o cartão de crédito infelizmente deixou de ser uma ferramenta para comprar uma TV ou um eletrodoméstico e passou a funcionar como um complemento do salário. As pessoas usam o limite para pagar o supermercado, a farmácia e a conta de luz. Financiar a sobrevivência do mês com juros que passam de 400% ao ano no rotativo é uma armadilha matemática perigosa. O limite acaba rápido e a pessoa fica sem crédito e sem dinheiro para o básico", pontua.
O freio nos financiamentos e o refúgio seguro dos investidores
Para quem planeja financiar um imóvel ou um veículo, a orientação do especialista é colocar o pé no freio. Sob o reflexo da taxa básica mantida em patamares elevados pelo Copom/Banco Central, as linhas de crédito de longo prazo estão muito mais rígidas.
Rabelo destaca que os bancos mudaram as regras do jogo de análise de risco. "Eles estão exigindo valores de entrada bem maiores do que exigiam há dois anos e reduziram o Loan-to-Value (LTV), que é a porcentagem máxima que aceitam financiar do valor total do bem. Eles fazem isso para se proteger do risco de calote. Na prática, o sonho da casa própria ou do carro novo ficou mais distante e vai exigir que as pessoas poupem dinheiro por muito mais tempo antes de tentar o financiamento", afirmou o especialista da V2R Capital.
Por outro lado, o cenário de juros altos gera um caminho inverso para quem conseguiu poupar e atua como investidor. "Com os juros de mercado lá em cima, a renda fixa virou um porto seguro extremamente vantajoso. Títulos públicos federais via Tesouro Direto e investimentos privados atrelados ao CDI estão pagando retornos excelentes e muito seguros", explicou.
No entanto, ele deixa um alerta para o risco de crédito privado. “Mesmo na renda fixa, o momento exige cautela. É hora de preferir instituições grandes e sólidas, verificar se o investimento tem a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e fugir de emissores de menor porte que oferecem lucros milagrosos. Em tempos de inadimplência alta, o risco de crédito corporativo é maior, então proteger o patrimônio deve vir sempre antes de buscar o ganho rápido".
Checklist de serviço: como blindar o orçamento
De acordo com Fellipe Rabelo, o maior erro financeiro cometido atualmente é a falta de mapeamento do fluxo de caixa e o uso recorrente de linhas de crédito emergenciais para cobrir furos mensais. Além disso, as novas pressões sobre a renda, como o avanço das apostas esportivas e jogos online monitorados pelos indicadores de mercado, têm drenado parcelas essenciais que antes quitavam despesas básicas de sobrevivência.
Para não cair na estatística dos negativados, o especialista elenca um roteiro prático antes de se pensar em qualquer empréstimo:
- Regra dos 30%: Nunca permita que parcelas de dívidas e financiamentos consumam mais do que um terço da sua renda líquida mensal.
- Troca de dívida cara por barata: Se o orçamento estourar, não empurre a bola de neve no rotativo do cartão ou no cheque especial. É financeiramente mais vantajoso contratar um empréstimo pessoal estruturado ou consignado (com taxas menores) para quitar o cartão à vista.
- Mapeamento de Sobrevivência: Antes de contrair um novo compromisso financeiro, simule o orçamento retirando totalmente as fontes flutuantes de ganho. A conta precisa fechar considerando apenas a sua renda fixa e garantida.
"A renegociação de dívidas e os programas governamentais são ferramentas válidas para limpar o nome, mas eles atacam apenas o sintoma, não a causa. Sem uma mudança estrutural na gestão do dinheiro e sem entender para onde vai cada centavo antes do mês começar, o consumidor acaba voltando para o ciclo da inadimplência em pouco tempo", finaliza Rabelo.


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