Levantamento encontrou 86 publicações sobre pesquisas eleitorais falsas só no TikTok; especialista ensina como reconhecer possíveis manipulações e evitar o compartilhamento
Prof. Luis Mauro Martino
Divulgação
Vídeos falsos, que reproduzem a aparência de telejornais brasileiros, alcançaram 1,47 milhão de visualizações no TikTok a pouco mais de 70 dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. As gravações utilizavam imagens de jornalistas e políticos para divulgar pesquisas inexistentes ou adulteradas.
O levantamento, realizado pela Agência Lupa, identificou 86 publicações feitas entre 18 de março e 1 de julho. Desse total, 65, ou 75,6%, utilizavam inteligência artificial. Apenas nove apresentavam o selo da plataforma para informar que haviam sido criadas ou modificadas com essa tecnologia.
Os vídeos recorriam a cenários, logotipos, apresentadores e recursos gráficos associados a emissoras conhecidas. A reprodução de uma linguagem familiar ao público dava aparência jornalística a informações sem origem comprovada.
Depois de ser procurado pela agência de checagem, o TikTok informou que removeu as publicações por violação de suas regras sobre mídia editada e uso de IA.
Em um dos casos verificados pela AFP Checamos, uma gravação que imitava a estética do Jornal Nacional, atribuía ao jornalista Hélter Duarte a divulgação de uma pesquisa sobre a disputa presidencial. O material afirmava que Luiz Inácio Lula da Silva teria 72,9% das intenções de voto, mas não havia registro de levantamento com esse resultado.
Duas ferramentas utilizadas pela AFP apontaram probabilidades de 99% e 96,3% de que o áudio tivesse sido gerado por inteligência artificial.
Para o especialista Luís Mauro Sá Martino, doutor em Ciências Sociais e professor da FAPCOM, a aparência de uma gravação já não é suficiente para comprovar sua autenticidade.
“O excesso de informações em circulação na atualidade pode, em alguns casos, mais confundir do que ajudar a entender uma situação. É como se você estivesse diante de centenas de alto-falantes, cada um dizendo uma coisa diferente - fica muito difícil separar o que é ou não correto.
Outro desafio é a velocidade das redes sociais. Nosso olhar raramente fica mais de meio segundo em uma postagem antes de passar para a próxima. E, em muitos casos, um post é compartilhado apenas por conta do título ou da imagem, mesmo sem ser lido na íntegra. Isso cria um cenário muito favorável à divulgação de informações falsas.”, comenta.
Segundo o especialista, uma das fontes do poder da inteligência artificial está na possibilidade de realizar rapidamente o que está na imaginação humana. É muito difícil desconfiar de uma imagem quando ela mostra exatamente o que se queria ver. Por isso, o cuidado maior não é só com as informações, mas com nosso fechamento diante de opiniões e ideias diferentes.
“O alcance dos compartilhamentos também pode ser um problema: uma única pessoa pode compartilhar uma postagem para centenas de outras a partir de suas conexões pessoais, multiplicando de maneira exponencial o alcance da informação”, comenta o docente.
As fraudes também avançam sobre áreas como saúde e consumo. Em 20 de julho, Roberto Carlos denunciou um vídeo que reproduzia sua imagem e imitava sua voz para divulgar um suposto tratamento.
O cantor afirmou que não gravou a peça, não autorizou o uso de sua identidade e não tem relação com o produto ou com o médico mencionados. Também pediu que o material não fosse compartilhado e orientou os seguidores a buscar informações sobre ele somente em seus canais oficiais.
Embora as ferramentas estejam mais sofisticadas, alguns sinais ainda podem despertar desconfiança. Segundo Luís Mauro, o uso de inteligência artificial para criar imagens e vídeos deixou a fronteira entre o verdadeiro e o falso ainda mais frágil. Mas é possível aprender a tomar alguns cuidados:
- Desconfie de vídeos com títulos “veja o que estão escondendo de você” ou “a verdade que não querem que você saiba”. A informação de qualidade é sempre pública e aberta ao contraditório.
- É mais fácil nos convencerem de alguma coisa quando queremos que aquilo seja verdade: rever o grau de apego às nossas próprias ideias é importante para não sermos enganados.
- Cuidado com vídeos que confirmam integralmente suas expectativas. Eles podem ser armadilhas para reforçar um viés, mesmo que não seja verdadeiro. E, sem diferença, não há convivência.
- Diante de uma postagem que promete informações inéditas ou “revelações” sobre alguém, pergunte de onde esses dados vieram: quem teve acesso? Quem conferiu? Foi isso mesmo?
- É importante perguntar também quem compartilhou a informação com você: mesmo uma pessoa próxima pode, de boa fé, enviar uma informação incorreta - daí a importância de conferir sempre.
Nenhum desses indícios, isoladamente, comprova que uma gravação tenha sido manipulada. Por isso, o docente recomenda procurar a notícia em outros veículos, consultar agências de checagem e conferir se o vídeo aparece nos canais oficiais da pessoa ou instituição mencionada.
No caso das pesquisas eleitorais, é preciso observar se aparecem o nome do instituto responsável, quem contratou o levantamento, o período em que as entrevistas foram realizadas e o número de registro na Justiça Eleitoral. Os dados podem ser consultados no sistema PesqEle.
As regras do Tribunal Superior Eleitoral para 2026 proíbem deepfakes na propaganda eleitoral e exigem a identificação explícita de materiais sintéticos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A Câmara dos Deputados analisa ainda o Projeto de Lei 212/2026, que propõe criminalizar a criação e a divulgação de áudios ou vídeos gerados por IA com a finalidade de interferir indevidamente nas eleições. A proposta prevê pena de reclusão e multa.
“A responsabilidade vai além das redes e algoritmos: o quanto temos de disposição para ouvir opiniões diferentes da nossa? Sair da própria bolha, no mundo real ou digital, é um caminho para ver que a realidade é mais complexa do que se pode imaginar.”, conclui Luís Mauro Martino.


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