| FIFA |
Por Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
Toda vitória conta uma história. Toda derrota revela outra. Vitórias costumam esconder fragilidades que preferimos não enxergar. Derrotas fazem exatamente o contrário: retiram as ilusões e revelam aquilo que a euforia costuma ocultar.
Woody Allen traduziu essa ideia de maneira brilhante em Match Point. Durante uma partida de tênis, a bola toca a fita da rede e permanece suspensa por um breve instante. Se cair de um lado, haverá um herói; se cair do outro, um derrotado. Um detalhe quase imperceptível separa o sucesso do fracasso. Às vezes, a diferença entre um e outro cabe na largura de uma fita de rede.
Vitórias costumam esconder problemas. Derrotas têm o hábito inconveniente de revelá-los. A derrota não muda um país. Apenas revela o país que existe quando a vitória deixa de escondê-lo.
A eliminação do Brasil diante da Noruega na Copa do Mundo provocou exatamente esse efeito. Em poucas horas, deixamos de discutir futebol para discutir o Brasil. Multiplicaram-se as frases conhecidas: “o Brasil não tem jeito”, “os outros fazem tudo melhor”, “tenho vergonha de ser brasileiro”, etc. Nenhuma delas fala de futebol. Todas falam de nós.
Talvez isso aconteça porque o futebol vai muito além do esporte. Em um país marcado por crises recorrentes e por uma autoestima frequentemente instável, ele oferece momentos raros de orgulho compartilhado e fortalece um sentimento de pertencimento que poucas experiências conseguem produzir. Justamente por isso, quando a vitória desaparece, alguns deixam que desapareça também a confiança no próprio país.
Não é por acaso. O futebol ocupa um espaço singular na identidade brasileira. Poucos acontecimentos conseguem mobilizar tantas emoções e produzir um sentimento tão intenso de pertencimento. Por isso funciona como um espelho. Mas o que enxergamos nele raramente se limita ao esporte. Projetamos nossas expectativas, frustrações e inseguranças sobre o país.
É justamente aí que mora o problema. Nossa dificuldade não é perder. Nossa dificuldade é interpretar as derrotas. Quando vencemos, acreditamos que somos melhores do que realmente somos. Quando perdemos, passamos a acreditar exatamente no oposto. Oscilamos entre a exaltação e a autodepreciação com enorme facilidade, como se um único resultado fosse suficiente para redefinir quem somos.
Transformamos derrotas esportivas em diagnósticos precipitados sobre o Brasil. Isso diz muito menos sobre futebol do que sobre nossa dificuldade de conviver com frustrações.
Esse movimento entre o oito e o oitenta talvez seja um dos maiores obstáculos ao amadurecimento coletivo. Maturidade coletiva é justamente a capacidade de não transformar vitórias em arrogância nem derrotas em autodepreciação. Nem a euforia produz reflexão, nem o derrotismo produz transformação. Ambos substituem a realidade por narrativas emocionais.
Há alguns anos, ouvi Fernando Henrique Cardoso fazer uma observação simples e profunda durante as comemorações dos 75 anos da FEA-USP. Ao olhar o Brasil em perspectiva histórica, lembrava que o país mudou profundamente e, em muitos aspectos, para melhor. Isso não significa ignorar nossos problemas, que continuam numerosos e desafiadores. Significa apenas reconhecer que analisar uma sociedade exige mais do que a fotografia de um único momento.
Esse equilíbrio é indispensável. Pessoas maduras aprendem com as crises. Organizações maduras também. Países não são diferentes. O verdadeiro valor de uma derrota está na oportunidade de revelar vulnerabilidades que permaneciam escondidas durante as vitórias. O aprendizado começa quando substituímos a procura por culpados pela disposição de compreender o que precisa ser corrigido.
No jogo contra a Noruega, dois lances, pelo menos, poderiam ter produzido uma história completamente diferente. Como em Match Point, bastaria que a bola tivesse caído do outro lado da rede. Mas um país não pode permitir que a trajetória de uma bola determine a imagem que constrói de si mesmo.
Ganhar uma Copa do Mundo talvez dependa, às vezes, de detalhes imprevisíveis. Construir um país melhor depende de escolhas muito menos aleatórias: reconhecer erros sem perder a confiança, celebrar conquistas sem perder a humildade e transformar crises em aprendizado antes que elas se repitam.
O maior adversário de um país nunca é a derrota. É desperdiçar a oportunidade de aprender com ela. Nesse ponto precisa querer, coletivamente, aprender.


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